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O Diário de Mogi

“A Orgia” mostra o podre da América

16.7.1992  |  por Valmir Santos

O Diário de Mogi – Quinta-feira, 16 de julho de 1992.  Caderno A – capa

Peça escrita pelo colombiano Enrique Buenaventura cutuca com a ponta do dedo as raízes da miséria do povo latino-americano

VALMIR SANTOS 

 

 

Existe uma corrente no teatro latino-americano voltada para as veias abertas deste continente – como bem salientou o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Enrique Buenaventura, dramaturgo colombiano, é um exemplo. Aos 75 anos, continua acompanhando os trabalhos do Teatro Experimental de Cali, do qual foi fundador. Uma de suas peças mais importantes, “A Orgia”, está em cartaz em São Paulo, encenada pelo grupo  Tektons, com direção do peruano Hugo de Villavicenzio.

“A Orgia” é a segunda obra da trilogia “Os Papéis do Inferno”, completada com “A Professora” e “A Autópsia”. Buenaventura escreveu a peça nos anos 60. Chegou ao texto e à concepção cênica a partir de criação coletiva desenvolvida no Teatro Experimental de Cali, na Colômbia. A técnica de improvisação, aliás, é uma característica sempre presente no processo de dramaturgia do autor. Na montagem que dirige, Villavicenzio deixa claro a influência do seu mestre, com quem estudou na Colômbia. A coreografia de movimentos quebrados dos atores e o replay de cenas – mesmo que às vezes cansativo – denotam a apuração plástica. A expressão corporal é outro destaque. Percebe-se em alguns atores a movimentação das extremidades, pés e mãos.

A história de “A Orgia”, definida como tragicomédia, trata de uma velha inescrupulosa que rouba o minguado ganha-pão de seu filho surdo-mudo, um engraxate. O objetivo é organizar, todo fim de mês, uma “festa de recordação”. Para tanto, a velha convida mendigos esfarrapados para representarem personagens que marcaram sua carreira de cantora de cabaré. São coronel, bispo e um aristocrata. Qualquer semelhança com personagens da mesma estirpe, que costumam pincelar a história da América Latina, não é coincidência.

“Trata-se de uma noitada espiritual e não permitirei que manchem com o materialismo que corre”, brada a velha (Mila Rey) contra os mendigos que reivindicam a sobra da panela de comida que a matriarca oferece na orgia. No final da peça, os famigerados investem contra a velha. Agora já não são os personagens do passado, mas os miseráveis do presente, movidos pelo instinto antropofágico.

Com “A Orgia”, o Tektons do diretor Villavicenzio ganhou os festivais de São Paulo, de São José dos Campos, de Sorocaba e São José do Rio Preto. A montagem esteve em cartaz no ano passado. Volta agora para servir de catalisador de recursos – pelo menos é o que se espera – para a nova peça que o grupo já vem ensaiando. “A Celestina”, do espanhol Fernando Rojas, foi um dos primeiros textos escritos na história do teatro. O tem? Quinhentos anos de descobrimento da América. As veias continuam abertas…

A Orgia – De Enrique Buenaventura. Direção: Hugo Villavicenzio. Com Mila Rey, Renato Cuenta, Rita Lacerda e elenco. Sexta e sábado, 21h; domingo, 20h. Ingressos: Cr$ 12 mil. Teatro Cenarte (rua 13 de Maio, 1040, tel. 284-6837). Até setembro.

Teatro do Sesc com nove espetáculos

Já estão selecionados os espetáculos que integrarão a Jornada Sesc de Teatro/92. Os critérios básicos para a escolha foram: texto curto, trabalho de ator e direção. São peças que têm, em média, meia hora de duração – “a one act play”. É parecido com o que acontece em mostras anuais ou específicas, como a National Festivals a All England Theatre, duas organizações inglesas. As montagens selecionadas serão apresentadas durante três dias, a partir de 31 de julho, no Teatro Sesc Anchieta, em São Paulo.

 

Fantasia de Pedra Furor (17 minutos). Direção de Cibele Forjaz. Com Rosi Campos

Liubliú (30 minutos). Direção de Beatriz Azevedo. Com Petrônio Gontijo e Jairo Matos.

Graças a Deus (30 minutos). Direção de Clélia Virgínia Rinaldi e Milena Milena. Com Milena Milena.

Like a Rolling Stone (45 minutos). Direção e atuação de Ânderson do Lago Leite e Lavínia Pannunzio.

Domingo (17 minutos). Direção de Patrícia Soares. Com Zeca Pezzatti

A Pescadora Queimada (40 minutos). Direção de José Antônio Garcia. Com Sérgio Mamberti, Jandir Ferrari, Iara Janra

Do Outro Lado da Ilha (35 minutos). Direção e atuação de Milena Milena e Dafne Michellepis

O Pesadelo do Ator (35 minutos). Direção de Márcia Abujamra. Com Carlos Moreno

Valmir Santos

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