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O Diário de Mogi

Rubens Corrêa celebra Louis Althusser

25.1.1994  |  por Valmir Santos

O Diário de Mogi – Terça-feira, 25 de janeiro de 1994.   Caderno A – capa

 

O ator faz uma interpretação emocionante do filósofo francês no espetáculo “O Futuro Dura Muito Tempo”

VALMIR SANTOS 

As interpretações de Rubens Corrêa são acachapantes. Seus últimos espetáculos, “Colombo” e “Artaud” – notadamente este – evidenciam a força com que se entrega aos personagens. É tamanha energia despendida que, ao final de cada apresentação, ele surge com o corpo levemente inclinado, cabisbaixo, como a se recuperar de um mergulho profundo.

Em “O Futuro Dura Muito Tempo” não é diferente. Dificilmente outro ator se encaixaria no papel de Louis Althusser (1918-1990), filósofo francês que exerceu uma carreira acadêmica ativa, filiado ao Partido Comunista da França e defensor de uma “ética da esperança” – era marxista, mas não tanto. Mas sua vida pessoal foi um internado em uma clínica psiquiátrica.

Althusser beijou uma mulher pela primeira vez aos 30 anos. Era Hélène, uma ativista política. E com ela se casou. Trinta e quatro anos depois, em 1980, quando massageava o pescoço da mulher, acabou estrangulando-a. Não houve qualquer intenção, nenhum fato anterior que justificasse o gesto. O corpo de Hélène não apresentou uma mancha roxa sequer. A polícia considerou Althusser mentalmente incapaz de reconhecer o que fez e o internou em um hospício, onde passou os últimos dez anos de vida. Foi nesse período que escreveu “O Futuro Dura Muito Tempo” (lançado pela Companhia das Letras em 1992).

Baseado no livro e em outros escritores de Althusser, o diretor Márcio Vianna concebeu o texto do espetáculo. A peça pincela a atuação política do filósofo de esquerda, mas está centrada, sobretudo, no homem Althusser. Rubens Corrêa cai como uma luva. O personagem tem a condição de margem, de louco.

Os melhores momentos de “O Futuro…” nascem do poder interpretativo de Corrêa. Impressiona a cena da descoberta da sexualidade, quando Hélène (a triz Vanda Lacerda) toca seu pênis e o leva ao primeiro gozo da vida. Ele literalmente urra, se contorce e, de tão delirado, pede assustado para a mulher nunca mais voltar a tocar seu corpo – pedido evidentemente não-cumprido ao longo dos anos.

Rubens Corrêa consegue injetar poesia em um drama contundente. A participação de Vera Lacerda está prejudicada pela voz baixa, que às vezes não permite a compreensão da fala. Ainda assim, a atriz responde por algumas pitadas de humor, quando sua Hélène tira Althusser do sério.

Salvo os primeiros minutos de “O Futuro…”, com intercalação de texto, música e blecaute resultando em fragmentação – o ritmo do espetáculo deslancha com a entrada de Hélène em cena –, o diretor Márcio Vianna encontra boas soluções.

O cenário de Teca Fichinski, com esculturas de Firmo dos Santos, acentua a relação do indivíduo com seu corpo – as esculturas são troncos, sem cabeças, braços e pernas, as extremidades. E a iluminação de Paulo César Medeiros tem seu próprio “texto”, se incorporando ao desenho do cenário.

Por essas virtudes, e principalmente pela presença do grande ator Rubens Corrêa (leia entrevista abaixo), a montagem carioca de “O Futuro…” é uma das melhores em cartaz nos palcos paulistanos.

O Futuro Dura Muito Tempo – De Louis Althusser. Adaptação e direção: Márcio Vianna. Com Rubens Corrêa e Vanda Lacerda. De quinta a sábado, 21h; domingo, 19h. Teatro Ruth Escobar/Sala Gil Vicente (rua dos Ingleses, 209, tel. 251-4881). CR$ 1,6 mil, preço único. Duração: 1h20. Até 13 de fevereiro.

Ator se acostumou à loucura

 Rubens Corrêa, 62 anos a serem completados no próximo dia 23, é um dos maiores nomes do teatro brasileiro – prêmio Mambembe/93 de melhor ator. Estreou em 1955, em uma montagem do então grupo carioca Tablado, ao lado de Maria Clara Machado e outros. Lembra que o personagem tinha 90 anos e ele, Corrêa, havia acabado de sair do Exército, com cabelo de reco. Passou três anos estudando com os três maiores nomes do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC): Ziembinski, Adolfo Celli e Gianni Ratto. Um dos papéis mais marcantes desses 39 anos de carreira foi Artaud, em monólogo homônimo que estreou em 1986 e continua sendo apresentado esporadicamente. Aliás, depois de Artaud, ficou difícil para público, crítica e para o próprio ator dissociá-lo de personagens que têm na loucura sua razão de ser. Em entrevista coletiva na véspera da estréia de “O Futuro Dura Muito Tempo”, Corrêa admitia que isso não o preocupa mais.

 

Pergunta – O que o Sr. está achando do papel de Althusser?

Rubens Corrêa – Está sendo surpreendentemente sublime. Ele tinha o gosto pelo raciocínio, pela matemática, pela razão e, ao mesmo tempo, atingia o delírio. É um ato de ser, existir. E a história é extraordinária. A união de dois esquisitões, Althusser e Hélène. Eles tinham um amor animal pela vida.

 

Pergunta – Althusser é mais um personagem com a aura de louco. Isso vem se tornando uma rotina em sua carreira, principalmente depois de Artaud?

Corrêa – No começo, isso me preocupava. Pensei: “Chega de fazer louco.” Mas depois acabei assumindo, e acho que os personagens são mesmo fascinantes. Lembro de minha infância em Aquidauana (MS), onde nasci. Lá também tinha os louquinhos de rua e as crianças tinham uma relação muito legal com eles, sem preconceito. Não tenho medo de pirar por causa dos personagens.

 

Pergunta – Em suas interpretações, percebe-se a força que o Sr. coloca nos personagens em cena. Há uma espécie de transe. Isso implica que o ator fica tomado e não tem consciência do que está fazendo.

Corrêa – Não é bem isso. Tenho a consciência de ser e de ver. Não estou totalmente alheio. É que os personagens exigem muito. Artaud, por exemplo, ensaiei durante algum tempo em um sítio, em Friburgo (RJ), sozinho, em contato com a natureza. Já Althusser, fiz algumas pesquisas, como o livro “Diário de Um Louco”, de Gogol.

 

Pergunta – Ano passado, a montagem de “Colombo”, da qual o Sr. era protagonista, ficou apenas duas semanas em cartaz em São Paulo, apesar do elogio da crítica. O que aconteceu?

Corrêa – “Colombo” foi uma produção equivocada, mal-organizada. A gente ficou em cartaz em um teatro de difícil acesso, o Arthur Rubenstein, na Hebraica. Faltou público. Só encheu na última semana, depois que a Imprensa divulgou a saída de cartaz. A peça foi para o Rio, onde a crítica considerou “um fracasso”, que não deu certo em São Paulo. Contudo, a turnê nacional. Por algumas capitais, vingou nosso trabalho.

 

Pergunta – Quando o Sr. descobriu que queria ser ator?

Corrêa – Percebi que, quando lia jornal, “Correio da Manhã”, no Rio, me detinha mais na coluna de teatro do Paschoal Carlos Magno do que na coluna de música, pois estava música. Inclusive, tinha planos de seguir para o Exterior. Só não fui porque o Exército me chamou. E quando ouvia Bach, Chopin, Beethoven e outros, sempre construía uma história na minha cabeça. Em 1955, depois que servi o Exército, surgiu a oportunidade de atuar no Tablado.

 

Pergunta – Como o Sr. encara o momento atual do teatro brasileiro?

Corrêa – O nosso teatro dá sinal de vitalidade no pós-Collor. É um momento bonito, inclusive com vários convites para levar nossas montagens para fora.

 

Pergunta – Thomas ou Antunes?

Corrêa – Eu já trabalhei com o Gerald Thomas. Tanto ele como o Antunes filho desenvolvem pesquisas muito interessantes, só que vaidosas. Depois, dizem que os atores é que são vaidosos…Mas as peças de Antunes e Zé Celso são para ver duas ou quatro vezes…

 

Pergunta – E o ator brasileiro?

Corrêa – Minha geração era contida pelo amor e respeito ao texto. O texto era como uma partitura. Levava-se dois meses, com todo o grupo sentado em volta da mesa, para se chegar à empostação correta da voz. Era uma verdadeira orquestra de vozes e emoções. Nos anos 70, descobre-se o corpo, a expressão corporal. Hoje, os atores são extraordinários, inventivos, têm paciência para a fala. Um dia, eles vão encontrar esse equilíbrio, entre palavra e corpo.

Quem assistiu ao espetáculo “Brincante”, que fez temporada em São Paulo ano passado e agora está em cartaz no Rio de Janeiro, conferiu um dos trabalhos mais bonitos do teatro nacional contemporâneo. O pernambucano Antônio Nóbrega encantou com a brasilidade mostrada no palco: um cadinho do folclore nordestino em meio à dura realidade de um povo, acostumado a sobreviver combatendo principalmente a fome.
“Brincante” já se mostrava com potencial religioso. O personagem de Nóbrega, o funâmbulo Tonheta, antes de mais nada, tinha fé na alegria de viver. O amor lhe movia montanhas. Um dos responsáveis pelo sucesso de “Brincante”, o artista plástico Romero de Andrade Lima, autor do belo cenário, agora brinda o público com uma montagem própria, “Auto da Paixão”, onde mistura teatro, artes plásticas e canto.
A idéia de “Auto da Paixão” surgiu quando Lima teve de criar uma encenação para a vernissage de uma exposição sua, realizada em maio. As três noites de apresentação se transformaram em sete, por causa da grande procura. Limam, então, decidiu montar uma companhia com As Pastorinhas, um coro formado por 12 meninas.
Elas percorrem 12 retábulos/esculturas de lima que representam a Paixão de Cristo, com narração (feita pelo próprio autor) e cânticos sobre a vida de Jesus. O espetáculo recria procissões, reisados e pastoris, resgatando o espírito da festa popular nordestina, combinando sagrado e profano.
“Auto da Paixão” é como uma procissão. O público acompanha o coro que percorre as obras de Lima, instaladas em pontos diferentes do galpão Brincante, uma cria de Nóbrega, em plena Capital. Guardadas as devidas proporções, a polêmica peça encenada na Igreja Santa Ifigênia.
O espetáculo de Romero de Andrade Lima só é prejudicado pelo excesso de espectadores. As cem pessoas tornam a movimentação das pastorinhas um tanto tensa. A cada cena, elas são obrigadas a se espremer entre o público para se deslocar.
Ademais, “Auto da Paixão” é um deleite para olhos e alma. O repertório é composto de toadas populares que Lima escutava na casa do tio Ariano Suassuna, mentor do movimento Armorial na década de 70. O clima barroco (cenários, iluminação, figurino) transporta a um estado delicado do ser, a uma contemplação do divino de perto. Um espetáculo imperdível.
Auto da Paixão – De Romero de Andrade Lima. Com As Pastorinhas. De quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. Cr$ 200 mil (quinta a sábado) e Cr$ 250 mil (domingo). Teatro Brincante (rua Purpurina, 428, tel. 816-0575). Até dia 15 de agosto.
Valmir Santos

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