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O Diário de Mogi

Um “Vestido de Noiva” correto

18.8.1994  |  por Valmir Santos

O Diário de Mogi – Quinta-feira, 18 de agosto de 1994.   Caderno A – capa

 

Grupo Tapa é fiel ao quebra-cabeça cênico de Nelson Rodrigues; Denise Weinberg está impecável com Alaíde

 

VALMIR SANTOS 

O diretor do grupo Tapa, Eduardo Tolentino de Araújo, consegue atualizar e, ao mesmo tempo, manter-se fiel ao quebra-cabeça cênico criado por Nelson Rodrigues e Ziembinski há 50 anos, quando “Vestido de Noiva” inaugura a fase moderna do teatro brasileiro.

Rascunhado por Nelson, radicalizado por Ziembinski e concretizado por Santa Rosa, o cenário original trazia três planos: realidade, alucinação e memória. O “Vestido…” do Tapa mantém os três planos na narrativa, mas apresenta uma nova perspectiva de espaço.

Em 1943, as cenas da operação de Alaide, atropelada no Largo da Glória, Rio de Janeiro, se davam no plano superior, correspondendo à realidade. Na montagem do Tapa, as cenas se passam no porão e são vistas pelo público através de um espelho móvel, que lembra um telão.

Esse mecanismo é a principal novidade estética. Memória e alucinação mesclam-se tanto na cena propriamente dita, como ao fundo do palco (urdimento). Numa das peças cenografia mais complexa, Tolentino trilha os labirintos propostos por Nelson, porém, sem abrir mão da presença do ator, marca registrada do Tapa.

Desta forma, o jogo de xadrez “Vestido…” ganha impulso com movimentos fundamentais. A atriz Denise Weinberg, a Catarina de “A Megera Domada”, premiada montagem do grupo, volta a brilhar no papel de Alaíde, personagem-eixo da trama.

Impondo comicidade na dose certa, sem prejuízo da densidade trágica, psicológica, Denise sai-se muito bem. Sua interpretação destaca-se, sobretudo, porque é mais orgânica e espontânea. O elenco do tapa possui uma técnica apurada, com precisão inglesa nos gestos e movimentos. Esse rigor, por vezes, transparece e ofusca a força dos personagens.

Ocorre, por exemplo, com Clara Carvalho (Lúcia) e Zécarlos Machado (Pedro), cujas atuações se prendem à marcação. Denise vai um pouco além, e consegue dar intensidade a Alaíde. Sonia Oiticica, a veterana atriz (foi a primeira Zulmira de~“A Falecida”) transcende a nostalgia.

Sonia é a tradução perfeita do teatro rodrigueano na pele de Madame Clessi, a cafetina que freqüenta as alucinações de Alaíde. O espectro do autor ronda a montagem do Tapa na interpretação de Sonia. A “misturada” que ele produziu em sua peça, já è época impregnada de aspectos recorrentes (morbidez, traição, incesto, cinismo, etc.) foi absorvida com maestria por Tolentino e seu grupo.

Vale registrar, ainda, o impecável figurino que Lola Tolentino – mãe do diretor – concebeu para o espetáculo. Com a colaboração da luz de Roberto Lima, onde a penumbra é regra surge um “Vestido de Noiva” dos anos 90 com a cara dos anos 40. É uma equação difícil do tempo, mas que surge transparente no palco.

Vestido de Noiva – De Nelson Rodrigues. Direção: Eduardo Tolentino de Araújo. Com o grupo Tapa (Elnat Falbel, Guilherme Sant’Anna, Lulu Pavarin, Mika Winlaver, Paulo Glardini, Tony Giusti e outros). Quinta a sábado, 21h; domingo, 19h. Teatro Aliança Francesa (rua General Jardim, 182, Centro, tel. 259-0086). Duração: 1h30. Ingressos: R$ 15,00. Preço único.
 

Tapa também encena comédia “O Noviço”

Brian Penido, que também atua em “Vestido de Noiva”, assina a direção de “O Noviço”, texto de Martins Penna, que volta ao cartaz. A montagem inaugurou em abril o projeto Panorma do Teatro Brasileiro, onde o grupo Tapa pretende encenar quatro autores nacionais. Depois de Nelson e Marins Penna. Vem “A Casa de Orates”, de Arthur e Aluízio Azevedo. O quarto texto ainda não foi definido.

Penido estreou com firmeza na direção. Conserva o contexto português do original sem passadismo. O que se vê em “O Noviço” é um rico intercâmbio entre os “poderes” da palavra e da interpretação.

Ana Lúcia Torre, também no elenco de “Vestido…” é uma comediante de fato. Sua Florência atinge o público em cheio; uma comunicação possível, graças a um brilho de olhar, um gesto minúsculo.

Mesmo intensidade se dá com Luiz Santos Baccelli no papel de Ambrósio. O ator faz da caricatura um combustível para a farsa. Ambrósio, ambicioso, se casa com a viúva Florência por interesse. Não mede esforços para ficar com o dinheiro dela, se envolvendo num atrapalhado embate com o sobrinho e a enteada, culminando com o aparecimento da sua ex-esposa. Uma comédia bem lapidada.

O Noviço – De Martins Penna. Direção: Brian Penido. Com o grupo Tapa (Fabiana Vajman, André Garolli e outros). Segunda e terça, 21h. Teatro Aliança Francesa (leia endereço acima). Duração: 1h15. Ingressos: R$ 10,00.

Peça de Nelson estreou em 1943 e marcou época

“Vestido de Noiva” foi encenada pela primeira vez em 28 de dezembro de1943. Ao final da apresentação, a platéia do Teatro Municipal do Rio aplaudiu durante minutos. Mas entendeu muito pouco do que viu. Não era para menos. Além dos três planos de ação (realidade, memória e alucinação), o espetáculo contava com 140 mudanças de cena, com 32 personagens (incluindo duas noivas) interpretados por 35 atores.

A peça marcou a história do teatro brasileiro. O texto de Nelson Rodrigues (1912-1980), a direção do polonês Ziembinski (1908-1978), que trouxe novos conceitos de encenação, e o ousa cenário de Tomás Santa Rosa Júnior, fizeram com que “Vestido…” já nascesse madura.

Ordem cronológica é o que menos importa na história. Na mesa de operação, após ter sido atropelada, Alaíde delira. Mescla memórias e alucinações. Lembra-se de Lúcia, a irmã de quem “roubou” o namorado, Pedro continua a manter caso com Lúcia.

Alaíde havia encontrado um diário no sótão de sua casa. Pertenceu a Madame Clessi, cortesã assassinada em 1905 (a peça se passa em 1943). E Clessi também povoa a cabeça de Alaíde, que “vê” Pedro transformado em namorado da cafetina.

No campo da alucinação, ela discute com Pedro, suspeitando de que planeja sua morte com Lúcia. Pensa, então, tê-lo matado com uma barra de ferro. Em outra passagem, Alaíde conversa com Madame Clessi diante do próprio cadáver (dela; Alaíde) no bordel.

Por fim, encontra-se com Lúcia, ambas vestidas de noiva. Discutem sobre Pedro. No final, Alaíde assiste à cerimônia de casamento da irmã com o próprio. Entrega o buquê a Lúcia, ao som de marcha fúnebre.

 

Quem assistiu ao espetáculo “Brincante”, que fez temporada em São Paulo ano passado e agora está em cartaz no Rio de Janeiro, conferiu um dos trabalhos mais bonitos do teatro nacional contemporâneo. O pernambucano Antônio Nóbrega encantou com a brasilidade mostrada no palco: um cadinho do folclore nordestino em meio à dura realidade de um povo, acostumado a sobreviver combatendo principalmente a fome.
“Brincante” já se mostrava com potencial religioso. O personagem de Nóbrega, o funâmbulo Tonheta, antes de mais nada, tinha fé na alegria de viver. O amor lhe movia montanhas. Um dos responsáveis pelo sucesso de “Brincante”, o artista plástico Romero de Andrade Lima, autor do belo cenário, agora brinda o público com uma montagem própria, “Auto da Paixão”, onde mistura teatro, artes plásticas e canto.
A idéia de “Auto da Paixão” surgiu quando Lima teve de criar uma encenação para a vernissage de uma exposição sua, realizada em maio. As três noites de apresentação se transformaram em sete, por causa da grande procura. Limam, então, decidiu montar uma companhia com As Pastorinhas, um coro formado por 12 meninas.
Elas percorrem 12 retábulos/esculturas de lima que representam a Paixão de Cristo, com narração (feita pelo próprio autor) e cânticos sobre a vida de Jesus. O espetáculo recria procissões, reisados e pastoris, resgatando o espírito da festa popular nordestina, combinando sagrado e profano.
“Auto da Paixão” é como uma procissão. O público acompanha o coro que percorre as obras de Lima, instaladas em pontos diferentes do galpão Brincante, uma cria de Nóbrega, em plena Capital. Guardadas as devidas proporções, a polêmica peça encenada na Igreja Santa Ifigênia.
O espetáculo de Romero de Andrade Lima só é prejudicado pelo excesso de espectadores. As cem pessoas tornam a movimentação das pastorinhas um tanto tensa. A cada cena, elas são obrigadas a se espremer entre o público para se deslocar.
Ademais, “Auto da Paixão” é um deleite para olhos e alma. O repertório é composto de toadas populares que Lima escutava na casa do tio Ariano Suassuna, mentor do movimento Armorial na década de 70. O clima barroco (cenários, iluminação, figurino) transporta a um estado delicado do ser, a uma contemplação do divino de perto. Um espetáculo imperdível.
Auto da Paixão – De Romero de Andrade Lima. Com As Pastorinhas. De quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. Cr$ 200 mil (quinta a sábado) e Cr$ 250 mil (domingo). Teatro Brincante (rua Purpurina, 428, tel. 816-0575). Até dia 15 de agosto.
Valmir Santos

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