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O Diário de Mogi

Londrina “preenche” palco e rua

6.6.1996  |  por Valmir Santos

O Diário de Mogi – Quinta-feira, 06 de junho de 1996.   Caderno A 

Na 9ª edição, Festival Internacional de Teatro reúne 17 grupos estrangeiros na cidade paranaense, até o próximo domingo

 

VALMIR SANTOS


Apesar do recuo de última hora do seu principal patrocinador – o Bamerindus -, o Festival Internacional de Londrina (Filo) superou dificuldades e traz à tona a sua 9ª edição. Desde 28 de maio, até o próximo domingo, 17 grupos estrangeiros, além de quatro companhias brasileiras, estão se apresentando na cidade paranaense. São espetáculos de palco e de rua.

Para os últimos quatro dias do evento, estão programados os grupos Jácara (Espanha, com “El Aumento”; François Kahn (França/Itália), “La Veduta di Delt”; De La Guarda (Argentina), “Período Villa Villa”; Ilotopie (França), “La Gens de Couleurs”; Biuro Podrózy (Polônia), “Carmem Funebre”; David Dorfman Dance (EUA), com várias coreografias; Flash Marionettes (França), “La Cour de Tous les Miracles”; Camaleó (Espanha), “Medusa”; e a atriz brasileira Márcia Duarte, “Reta do Fim do Fim”. O Diário entrevistou algumas atrações, por escrito.

A companhia de David Dorfman chega com a bandeira da vanguarda norte-americana. Foi fundada há dez anos. O coreógrafo de define como um atleta transformado em dançarino. Combina “arriscados movimentos atléticos com um delicado vocabulário gestual”.

Dorfman não vê com tanta definição a divisão entre a dança e a prática esportiva. “Ambos têm seu objetivo”, acredita. O atleta quer vencer. No palco, o ator-bailarino quer comunicar-se. “Na tentativa de alcançar esses objetivos, são atraídos pelo movimento puro, honesto, econômico, detalhado, explosivo, passional e revelador”, enumera o coreógrafo. “Quando isso acontece com atletas ou atores dançarinos, é muito expressivo”. Traz cinco coreografias.

O grupo russo Derevo já foi rotulado pela crítica como trabalho de “butô”, “teatro silencioso”, “nova dança”, “teatro da crueldade”, entre outras definições. Segundo a produtora, Maria Zagar, é uma situação comum. Tudo começou em 1988, numa proposta que se opunha ao método stanislaviskiano. É um processo que tem muito a ver com a linguagem do clown, com a fisicalidade, a pantomima”, diz.

Seus atores só conheceram Kazuo Ohno, o criador do butô. Há cerca de dois anos. “Temos muito do cômico, absurdo, grotesco, com muita associação visual”, descreve. A miscelânea é um campo fértil para a criação, mas também constitui empecilho em se tratando de mercado. A não-especificidade nem sempre é bem aceita por causa do “cabresto” da expectativa de público. Em “The Rider”, o Derevo conta a história tragicômica de um velho palhaço, em suas últimas horas de vida.

Um dos destaques do Filo 96 é a trupe argentina De La Guarda, que faz do espaço cênico a sua principal razão de ser. Em “Período Villa Villa”, espetáculo que encena pela primeira vez no Brasil, utiliza vários recursos. O De La Guarda esteve no Brasil, no final de 1994, participando do projeto “Ópera Mundi – Um Sonho Bom”, encenado no Maracanã.

A recorrência mais imediata, em se tratando de proposta cênica, são as performances do grupo catalão La Fura Dels Baus, também conhecido do público brasileiro.

Gabriella Balberio, uma das atrizes do De La Guarda, afirma que as semelhanças entre seu grupo e o La Fura estacionam em alguns elementos em comum. Exemplo: o grupo argentino busca a ocupação total do espaço (não necessariamente teatro), enquanto o catalão se baseia principalmente no chão e no alto. “Compará-los é como comparar Shakespeare a Beckett”, ironiza Gabriella, referindo-se aos dramaturgos inglês (clássico) e irlandês (contemporâneo). Outro detalhe: ao contrário da La Fura, o De La Guarda não estiliza a violência na relação com o espectador.

 

Paralelos

Entre os eventos paralelos, acontecem os workshops com os próprios encenadores participantes, como o português João Fiadeiro, o americano David Dorfman e a brasileira Maura Baiocchi, especializada na dança butô.

O Filo 96 também abriga, neste fim de semana, reunião com o chamado Grupo dos 11. São personalidades do meio teatral brasileiro que vão discutir melhorias nas leis de incentivo à cultura.

Valmir Santos

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