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O Diário de Mogi

O “enfant terrible” da cena brasileira

23.3.1997  |  por Valmir Santos

O Diário de Mogi – Domingo, 23 de março de 1997.   Caderno A – 3


VALMIR SANTOS

Curitiba – O 6° Festival de Teatro de Curitiba foi a prova de fogo do ator, autor e diretor Dionísio Neto. “Opus Profundum” polemizou com um linguagem seca, calcada sobretudo na música do Unidade Móvel. Incomodou, muitos levantaram e sobrou uma vaia considerável ao final. “Perpétua”, por sua vez, menos pretensiosa, teve melhor recepção. Ele participou ainda do elenco de “Os Reis do Iê-Iê-Iê”, direção de Gerald Thomas, concentrando com o próprio, maior influência confessa. Na entrevista a seguir, o maranhense de São Luís, nascido há 25 anos, desde os 9 morando em São Paulo, fala da temática urbana preponderante em seu trabalho, do excesso de holofotes dos dias que correm e do Movimento Desembestai, que assume “sem medo de ser feliz”.
O Diário – Do que trata a trilogia do Rebento, com “Perpétua”, “Opus Profundo” e “Desembestai”?
 
Dionísio Neto – A trilogia do Rebento é muito específica. Fala de seres humanos dentro de grandes metrópoles. Uma tendência no mundo atual, onde as pessoas estão indo para as metrópoles. Eu quero falar do ser humano, das pessoas que estão vivas hoje. Todos os grandes dramaturgos falaram do seu tempo e eu quero falar daqui também. Lá em Londres tem coisas maravilhosas na dramaturgia, como “Angels in America”, “Shopping anda Fucking”. Aqui parece que as pessoas estão condenadas à fazer apenas literatura no palco. Isso não me interessa. O teatro precisa de coisas urgentes, de coisas atuais, do aqui e agora. Ele só acontece uma vez na vida e nunca mais. Essa é a necessidade do teatro. Noventa por cento das pessoas que fazem teatro no Brasil estão condenadas ao passado e não levam em consideração as outras artes. Eu encaro o teatro como uma coisa total, que se relaciona com tudo. A trilogia é uma ficção autobiográfica. Coisas que aconteceram comigo. Jamais faria uma peça sob encomenda. Tenho que me fascinar pelo que escrevo. Quando vi o filme de Copolla sobre “The Doors”, tinha 16 anos e fiquei chocado. Sigo uma lição de Mário de Andrade: “Seja específico, fale muito da sua aldeia que você vai estar sendo universal”. Falando das suas coisas você acaba falando para todo mundo.
O Diário – O que você pretende com o teatro?
 
Dionísio – Eu busco comunicar. As minhas peças falam de preconceito, falam de possibilidades do homem ser feliz. Eu acredito nisso. Acho que as pessoas vivem embaixo de uma lei que poda a libido, o desejo. Todo mundo leva a sério demais os dez mandamentos. Falta humor, uma auto-ironia. Morei em São Luis até os 9 anos. Absorvi a cultura nordestina porque ela fez parte da minha infância. Mas não me interessa colocar nada folclórico no palco. É uma burrice isso. Me interessa colocar em cena a vida de um dançarino do bumba-meu-boi, de um brincante, mas nos moldes de hoje, de 1997, e tornar isso lírico, universal. É como Chico Science faz brilhantemente na música, pegando a influência do maracatu e jogando numa relação com a música mundial, Prince, Miles Davis, James Brown.
O Diário – Você se considera a vanguarda teatral em 97?
 
Dionísio – O que estou fazendo é único no teatro brasileiro, por isso, gera tanto amor e ódio, incomoda. Quem vaia é gente de teatro, porque o público mesmo não faz isso. A reação da estréia de  “Opus Profundo” no festival me surpreendeu. Achava que Curitiba fosse menos provinciana. Mas me parece que o Brasil é uma grande província mesmo.
O Diário – Onde entra o Gerald?
 
Dionísio – Eu não sei direito sobre a influência. Sei que é grande e admiro muito o que ele faz. Tenho crítica a ele, tem trabalhos dele que abomino. É assim que acontece com os bons artistas. No dia que se achar uma resposta definitiva, unânime, aí mata a arte.
O Diário – Como surgiu o convite para o festival?
 
Dionísio – O Gerald, o Antunes, o Guzik conhecem meu trabalho e fizeram chegar aos ouvidos dos organizadores. Não vou falar mal do festival. Ele tem defeitos e qualidades. Um dos principais defeitos é o desrespeito com os artistas, a falta de apoio, os cachês baixos, pagam muito mal. Parece que a gente está fazendo um favor para eles. É a coisa do Brasil não valorizar a própria cultura. Isso tem que acabar. O Brasil tem tudo para ser o grande barato cultural do próximo milênio.
O Diário – Como está lidando com a repercussão repentina do seu trabalho, a superexposição?
 
Dionísio – É punk. Eu ouço música, sinceramente… Me conforta muito. Eu leio poemas, ouço música, vejo filmes, falo com minha avó. Não vou dizer que é agradável levar vaia, isso é mentira. Eu quero que todo mundo celebre, que saia alegre, transformado. Eu acredito nisso. Odeio vaia, mas ela é importante também. É como dizia Nelson Rodrigues, a unanimidade é burra. O negócio é dopar o superego, colocar ele dormindo. Me esqueça, não me policie. E vamos embora, sem medo de ser feliz.
O Diário – Você tem uma metodologia nos ensaios? Como é a preparação?
 
Dionísio – A gente faz ensaios técnicos, sim, mas o nosso grande barato é o diálogo de nossa irresponsabilidade artística com nossa responsabilidade técnica. Todo mundo é disciplinado no fazer, mas é imperfeito e indisciplinado no criar. Acho que é isso.
O Diário – Fale um pouco da sua trajetória.
 
Dionísio – Sempre escrevi, desde criança. Aprendi a ler muito cedo. Sempre fui um solitário. Perdi minha mãe com seis anos, então sempre fui buscar em mim as coisas, sempre fui auto-centrado, no sentido de ficar sozinho e saber usar a solidão de uma maneira produtiva. Fiz teatro antes de ver teatro. Minha formação cultural, minha família que me adotou em São Paulo, não vem de uma tradição intelectual, a Marineide, que me adotou, ela que mais lia, que mais me apresentava as coisas; mas ela não vem de uma tradição familiar cultural de intelectuais. Muito pelo contrário. Minha mãe era funcionária pública. Sempre encenava na escola, no prédio levava toda a molecada para a minha casa fazer teatrinho. Mas acho que a grande mudança foi quando entrei no colégio Equipe, em São Paulo, e fui apresentado à cultura ocidental clássica. Porque até minha cultura era de desenho animado, Playcenter, vídeogame, parque de diversões, zoológico e rua. Nunca tinha entrado num museu até os 15 anos.
Colaborou Ivana Moura, do “Diário de Pernambuco”, especial para “O Diário de Mogi”. O jornalista Valmir Santos viaja a convite do FTC.
Autran vive homossexual em “Para Sempre”
Curitiba – Depois do desafio da tragédia, a comédia – ainda que cáustica. Depois de Rei Lear, seu primeiro Shakespeare, Paulo Autran sobe ao palco para viver um professor universitário homossexual na peça “Para Sempre”, de Maria Adelaide Amaral, a partir de hoje no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. A pré-estréia aconteceu no 6° Festival de Teatro de Curitiba (leia crítica abaixo).
 
“É uma história de amor e solidão”, resume Autran, 75 anos. Ele já interpretou outros papéis homossexuais na carreira, como em “A Regra do Jogo”, de Noel Coward, cerca de dois anos atrás. “Só que era um enrustido”.
 
Mas a homossexualidade não é o ponto centra da discussão. Em “Para Sempre”, segundo o ator, Maria Adelaide Amaral trata da dificuldade amorosa, da relação humana entre dois homens pertencentes a universos distintos. Max (Autran) leciona Literatura na universidade, enquanto Tony (Celso Frateschi) é um bancário. “Amor é amor, seja ele hetero ou não”, acredita Autran.
 
Vivien Buckup, 40 anos, preparadora corporal que desponta agora na direção (“Cenas de Um Casamento” e “Aguadeira”), evita o estereótipo na interpretação dos atores.
 
Ainda que a temática homossexual não predomine, Autran confessa que está “pouco preocupado” com a sua imagem. “Ao contrário dos filmes, por exemplo, que mostram as relações de pessoas mais em busca de aventura, menos de amor, denunciando-se a promiscuidade, como se não ocorresse o mesmo com os heterossexuais, a peça reflete exatamente o contrário disso”, explica. 
Para Sempre – De Maria Adelaide Amaral. Com Paulo Autran, Karin Rodrigues e Celso Frateschi. Estréia hoje (sábado), 21h; domingo, 18h. Teatro Cultura Artística (rua Nestor Pestana, 196, Capital). 
Crítica: Peça de Maria Adelaide se acomoda no exílio
Curitiba – Um triângulo amoroso desenhado num espaço de 18 anos – uma vida, portanto. “Para Sempre” é a incursão de Maria Adelaide Amaral pela temática homossexual. Uma das principais dramaturgas do Brasil, ela cometeu tramas marcantes sobre a impossibilidade amorosa entre homem e mulher. Agora, mostra a ascensão e queda de um relacionamento entre dois homens. Mas o mergulho aqui é raso, ao contrário do que se esperava em ternos de densidade.
 
Não funciona bem a estrutura oscilante do texto, drama e comédia. Quando Max ajoelha aos pés de Tony, num dos momentos da maior dramaticidade, corta abruptamente seu clamor choroso e passa a citar cultura de Quinta, como Rambo e rock sertanejo, investindo na chantagem para ter seu parceiro de volta.
Há tentativas psicológicas de compreender a manifestação da paixão pelo mesmo sexo. “Ás vezes me pergunto por que viado gosta tanto da mãe?”, ironiza Max, depois de mais um desentendimento com seu pupilo.
 
Em outra passagem, o arremate é mais revelador: “Homossexualidade é um exílio”, emplaca Ma, vértice de “Para Sempre”. É o exílio em que a peça parece submetida. Não há manifestação de carinho, um beijo sequer, entre os dois. Aliás, toque de afeição ausente inclusive entre o casal heterossexual.
 
Um exílio do qual Max só consegue escapar quando assume a relação com Eva, sua principal amiga, convidando-a para se casar – uma união digna de final de vida. O desfecho é cômodo.
 
Paulo Autran faz uma interpretação contida de Max. Aparece o egocentrismo do professor universitário, do ditador de regras, do “patrão”, mas a oposição, o sentimento, a insegurança, enfim, ficam aquém. Celso Frateschi encontra melhor o eixo do submisso Tony; ressalvando-se apensa os excessivos roer de unhas e mão no cotovelo, “muletas” de cena. Karin Rodrigues é irrepreensível e parece encaixar-se perfeitamente com os textos da autora.
 
A direção de Vivien Buckup é linear, delimitada pelo texto, e deixa os atores bastante à vontade no palco. O cenógrafo Gringo Cardia montou uma sala-de-estar “clean”, com o inevitável sofá, mais o computador bastante solicitado nas falas.

Luis Damasceno, o primeiro-ator de Gerald Thomas , é homenageado pelo diretor em “Nowhere Man”, espetáculo que estréia amanhã no Festival de Teatro de Curitiba (FTC). “Fui o último que resisti 10 anos na companhia, desde o início”, ironiza Damasceno, 54 anos, em entrevista a O Diário.
Espontâneo, simpático, Damasceno confessa que é mais conhecido no meio teatral como “o tortinho do Gerald”. Até o terceiro ano na Ópera Seca, recebeu alguns convites pra montagens paralelas, depois, necas.
Não se incomoda com as polêmicas em torno da figura de Thomas. “Importante é que ele busca a qualidade como obsessão, não se satisfaz com o comum, sempre busca o novo”, defende.
O primeiro contato para o “Casamento” com o diretor surgiu há 11 anos, quando participou da montagem de “Carmem com Filtro”, na primeira versão que teve Antonio Fagundes e Clarisse Abujamra no elenco. Desde então, participou de todas as montagens. “Quando o Gerald pede uma cena, ele já sabe como vou reagir”, diz.
A intimidade a favor do processo. O diretor de “Trilogia Kafka”, “The Flash and Crash Days”, “UnGlauber”, “Império das Meias-Verdades”, entre outras montagens, tem no work in progress uma característica do seu trabalho. “Isso para o ator é maravilhoso, porque ele não fica parecendo um funcionário público”.
De formação stanislavskiana, Damasceno tem uma forte queda pela comédia (clown, pastelão). “Me preocupo muito com o gesto, procuro não “sujar” as informações para que elas cheguem claras, precisas”, diz.
Gaúcho de Porto Alegre, Damasceno formou-se em Artes Cênicas nos anos 60. Atualmente leciona na escola de Artes Dramáticas da USP.
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Damasceno, niilista e esperançoso
Gerald Thomas busca no “Fausto” de Goethe os personagens de “Nowhere Man”. É a primeira vez que peguei um texto dele e gostei logo na leitura”, admite Luis Damasceno. O ator destaca o enfoque humano que o autor e diretor dá ao novo trabalho.
Daí, a empatia do público já em “Don Juan”, espetáculo anterior, com Ney Latorraca, (aliás, Latorraca está em “Quartel”, de Heiner Müller, que será encenada em Curitiba após o festival). Quem assistiu aos ensaios garante que “Nowhere Man” é das montagens mais claras e emocionantes de Thomas.
Na história aparentemente nonsense, o personagem Fausto está na fila de um banheiro público. De repente, uma explosão. Surge um punk em disparada. Caído no chão, Fausto se esquiva e ri de mais uma peça que consegue pregar.
Thomas transpõe Fausto para o século 21, no seu aqui-agora. Faz uma crítica à voga da similaridade das coisas, da nivelação dos valores. “É quase niilista, mas ao final ele lança alguma esperança”, salienta Damasceno.
A montagem traz Milena Milena e Marcos Azevedo, ambos também da Ópera Seca, além de atores curitibanos, somando nove pessoas no elenco. A estréia mundial será na Dinamarca, em setembro.
Além de “Nowhere Man”, Curitiba também vai ver na semana que vem, a montagem de “Quartet”, de Heiner Müller. No elenco, Ney Latorraca, que já trabalhou com o diretor em “Dom Juan” e Edilson Botelho, conhecido de outras montagens da Cia. Ópera Seca. Thomas havia montado o texto de Müller, com Tônia Carrero. (VS)
Um novo Villela em “O Mambembe”
Minas de Gabriel Villela cede terreno para outros cantos do País em “O Mambembe”, de Arthur Azevedo, que o diretor montou na comemoração dos 50 anos do Teatro Popular do Sesi (TPS). A estética barroca, uma peculiaridade do seu teatro (“Vidas É Sonho”, “Guerra Santa”, “Rua da Amargura”, por exemplo), surge em segundo plano.
Na abertura das cortinas, o cenário uma vez assinado por Villela, expõe uma preocupação com espaços vazios, ao contrário da minuciosidade que outrora, às vezes, provoca uma certa poluição cênica. Uma mala gigante, suspensa, e as sete portas emparedadas, numa espécie de arena, ampliam a presença dos 25 atores que passam pelo palco durante a encenação.
“O Mambembe”, obra que Azevedo escreveu no início do século, é uma homenagem apaixonada ao teatro – àqueles que dedicam suas vidas a percorrer cidades interioranas para levar sua arte às populações locais. O formato é musical e, na montagem em cartaz no TPS, uma grupo regional, comandado por Fernando Muzzi, dá conta do instrumental.
As melodias originais do compositor Assis Pacheco foram substituídas por fragmentos de peças da música popular brasileira, como “Trenzinho Caipira”, de Villa-Lobos, mescladas a clássicos eruditos, como a ópera “Carmen”, de Bizet, e “Aída”, de Verdi.
Como se vê, a intenção de Villela foi desprezar o tom saudosista. O espetáculo, desta forma, ganhou em termos de sátira e paródia. Também o texto de Azevedo ganhou alguns enxertos.
No terceiro ato, o diretor e adaptador criou um concurso de teatro, emprestando uma aura popular à cena. A mineridade ganha projeção no quadro em que a trupe mambembe interpreta um trecho de “Romeu e Julieta”, se Shakespeare, aqui transformada em “Goiabada com Queijo”, para agradar aos censores do festival imaginário.
Eis que de repente surge a figura  de uma Veraneio, numa lembrança à premiada montagem de “Romeu e Julieta”, que Villela dirigiu com o grupo mineiro Galpão. Também executado um tema da trilha daquele espetáculo, neste aspecto, usou-se de o saudosismo em maior grau: ao final, uma tela projeta imagens de nomes fundamentais da história do teatro brasileiro (de Cacilda Becker a Ziembinski, por exemplo, passando por Wanda Fernandes, atriz, do Galpão que vivia Julieta e morreu em um acidente.
A primeira parte de “O Mambembe”, pelo menos na estréia, ainda denotava um rigor na marcação coreográfica que lhe tirava o brilho. A partir da metade, porém, o espetáculo embala. São, ao todo, dez coreografias, assinadas por Vivian Buckup.
Não há propriamente grandes estrelas no elenco. Percebe-se em “O Mambembe” uma nova perspectiva no teatro de Villela, tende à “limpeza” cênica, – como se encerrasse uma fase da carreira -, priorizando-se o trabalho de ator. “Mary Stuart”, sua outra montagem em cartaz, com Renata Sorrah e Xuxa Lopes, já trazia esta preocupação. Agora, no musical de Azevedo, está em busca da síntese (interpretativa e cenográfica).
Pena que falte um grande ator ou atriz. Raul Barreto (do grupo Parlapatões, Patifes e Paspalhões) está lá, porém minimizado. (VS)
O Mambembe – De Arthur Azevedo. Adaptação e direção: Gabriel Vilela. Teatro Popular do Sesi (avenida Paulista, 1.313, tel. 284-9787). De quarta à sexta-feira, às 20h30; sábados, às 17 horas e 20h30 e aos domingos, às 17 horas. Ingressos gratuitos devem ser retirados com uma hora de antecedência.


Valmir Santos

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