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O Diário de Mogi

“Domésticas” varre “sujeira social”

23.8.1998  |  por Valmir Santos

O Diário de Mogi – Domingo, 23 de agosto de 1998.   Caderno A – 4

Discriminação de profissional é abordada com crueza e lirismo na montagem

VALMIR SANTOS

São Paulo – No imaginá­rio sócio-cultural do bra­sileiro, as empregadas domésticas são frequentemente aviltadas em seus direitos. Quer na vida real, quer na ficção (vi­de Olímpia em “Trair e Coçar, ÉSó Começar” ou Edileusa em “Sai Debaixo”). Essas profissi­onais são exploradas e tachadas de “burra” num piscar de olhos. E não se trata apenas de ranço machista. Numa definição ele­mentar, são mulheres humildes tratadas como escravas e relega­das à míngua.

Da ausência de registro na carteira profissional (uma luta sindical que ganhou visibilidade recentemente) até a relação sub-humano com patrões e patroas, a discriminação reflete a face mesquinha e hipócrita da socie­dade em especial, da sua classe média. É “sujeira” da grossa sob o tapete…

A relação de poder entre quem contrata e quem presta ser­viço reproduz a falta de respeito para com o próximo. Um salário injusto, um quartinho diminuto, uma sujeição de “pessoa menor” dentro da casa-senzala, enfim, os papéis hierárquicos como que justificam tal tratamento, desprezando-se direitos humanos uni­versais e infelizmente consa­grados mais no papel do que na vida como ela é.

Esse pensamento vem à tona por conta do espetáculo de dan­ça-teatro “Domésticas”, a nova montagem da atriz, bailarina, coreógrafa e diretora Renata Melo (“Bonita Lampião”, 94).

A partir de pesquisa com “jovens, idosas, mães, viúvas, solteiras, abandonadas, que a­mavam ou odiavam a profissão, seus patrões…”, Melo escreveu o texto e concebeu um espetácu­lo tocante e lírico em sua comicidade trágica.

O raio-X mostra quem são essas mulheres, seus desejos, sonhos e frustrações sem fim. A partir de três empregadas que ora se revezam e ora comparti­lham a cena, a peça mostra qua­dros independentes que, no en­tanto, complementam-se pela cumplicidade temática nos pla­nos da injustiça, da afetividade, da alegria, da tristeza, do desa­lento, enfim, da divagação diante do exercício de viver.

A própria Renata Meio, mais as atrizes-dançarinas Lena Ro­que e Cláudia Missura, são intérpretes meticulosas na condu­ção de suas personagens. O pressuposto rigor coreográfico harmoniza-se aqui com o espa­ço mais arejado do teatro. Po­rém, a imposição do verbo não descaracteriza, em momento al­gum, a fluência de gestos e mo­vimentos. Mesmo no “tim­ming” dos diálogos o espaço cê­nico é de alguma forma preen­chido, corporalmente falando.

“Domésticas” fura o univer­so feminista e também coloca em cena a figura masculina. Os personagens de Eduardo Estrela (chofer, pai, etc.) não contrapõ­em, mas revelam que são discriminados tanto quanto. Seu cho­fer, por exemplo, enamorado de uma empregada, confessa que seu sonho é fazer um crediário.

Os pequenos anseios e as grandes decepções vão, aos pou­cos, compondo o fio do espetá­culo. Para citar a frase obrigató­ria do início da peça: “Parece um trato que a gente faz: a gente limpa eles suja, a gente passa eles amassa, a gente arruma eles bagunça, a gente guarda eles joga, a gente põe eles tira, a gente tira eles põe. O serviço nunca acaba, o serviço acaba com a gente.”

Mais esta, que também consta do programa bem bolado, em forma de carteira profissional: “Quando a gente não pode fazer mais nada, então vai ser empregada. Come o que sobrou, se falta frita um ovo”. Tudo assim, a seco.

Elas, as empregadas, gostam de “música triste”, de fotonovelas, de novelas. Aliás, lêem faltando letras”. Esperam o “príncipe encantado”. Orgulham-se de mandar um dinheirinho para o pai e a mãe distantes. E gostam de preencher o pouco tempo de folga com digressões sobre o sol e a lua, satélites tão distantes quanto a realidade em que sobrevivem para o ganha-pão.

Adotando narrativa testemunhal em boa parte do espetáculo como num testemunho vivo para os espectadores, as empregadas fazem seus relatos sem interromper as tarefas cotidianas – acostumadas que estão a todo tipo de pressão. As­sim, as vassouras de piaçava são incorporadas à movimentação. O mesmo ocor­re com o balde e o pano de chão; com as flanelas; com o aspira­dor de pó; com os uniformezi­nhos indefectíveis.

A movimentação conjunta, ainda que às vezes propositada-mente desleixada, tem lá sua geometria. Outro destaque é o esforço intensivo para traduzir a mesma sonoridade produzida por gestos e objetos durante o trabalho de limpeza nos vários pontos de uma casa. Essa perspectiva sensorial confere mais vida à ação.

O cenário asséptico de Daniela Thomas e Marcelo Larrea, com suas paredes forradas por azulejos brancos, contrasta com a obsessão das empregadas em limpar e limpar o que não está sujo, num determinismo que, ao final das contas, limita suas próprias vidas à condição submissa em que se encontram.

Esse “folclorismo” é pincelado em “Domésticas”. Ainda quando tratadas “como cachorro”, custa a algumas mobilizar-se para reivindicar os direitos da profissão. A identidade não é só questão de “nome bonito”, mote do quadro de Raimunda e Antonio, ambos descontentes, sim, mas com respectivos prenomes, não com suas realidades.

Trata-se de um espetáculo de mão dupla: instiga o riso e cutuca a consciência dos espectadores, em sua maioria classe média. Os quatro intérpretes são envolventes. Renata Melo, em particular, é plena na introjeção da personagem, da voz à mão que amacia a roupa passada. Lena Roque, Claudia Missura e Eduardo Estrela também se entregam com a mesma energia, inclusive nos solos, garantindo o público nas mãos.

“Domésticas” acerta em não exceder na preocupação estética, procedimento comum em se tratando de dança-teatro (quando criadores querem fundir as linguagens com tanto virtuosis­mo que terminam por anulá­-las). O equilíbrio aqui é de tal monta que não se distingue propriamente um e outro teatro e dança conjugam-se a favor dos personagens e de suas histórias sem atropelo.

Nessa que é das melhores montagens em cartaz na Capital (fica até o final de agosto mas deve ser prorrogada), o entrete­nimento flui com a mesma in­tensidade da denúncia. Função mais do que louvável de uma ar­te verdadeira em tempos de tan­ta injustiça social.

Domésticas – Direção, coreografia e roteiro: Renata Melo. Com Cláudia Missura, Lena Roque e Renata Melo. Quinta a sábado, 21h30; domingo, 20h30. Centro Cultural São Paulo/Sala Jardel Filho (rua Vergueiro, 1000, Paraíso, tel. 277-3611). R$ 12,00. Duração: 70 minutos. Até 30 de agosto (há previsão de prorrogar temporada).

 

“Aqueles 2” voa sobre o chão da vida

São Paulo – Compositor dos destinos na voz de Caetano, o tempo serve de moto-contínuo para a história de Pedro e Joana, os personagens de “Aqueles 2”. A peça escrita e dirigida por José Geraldo Petean oscila presente e passado na vã tentativa de vislumbrar o futuro a partir de uma perspectiva onírica.
 

Essa diluição de tempo e espaço pode confundir no papel, mas é bem elaborada em cena. Entre montes de areia que forram o tablado montado numa sala do restaurante Piolim, tradicional reduto da classe teatral na rua Augusta, Eloisa Elena Joana) e Marcelo Góes (Pedro) recriam o lúdico e o trágico com sutileza distinta da realidade.

O que está em jogo – eis uma palavra-chave para se compreender a aventura do texto – é a impossibilidade amorosa. “Aqueles 2”, na essência, não está longe de “Romeu e Julieta” ou “Tristão e Isolda”, para citar os clássicos.

Se nas tragédias a intervenção do mundo externo constitui empecilho concreto para a união de seres enamorados, aqui, no âmbito particular – ainda que não se situe o tempo e o espaço -, os entraves são antes frutos das vicissitudes humanas do que de natureza outra.

Joana e Pedro, os personagens, deslizam suas vidas por um árido terreno em que aparentemente têm segurança, mas logo sucumbem ao primeiro imprevisto da vida.

Toda a história, percebe-se depois, tem como eixo a imprudência. Em flashback, os dois desfrutam de uma noite de  amor, bebem bastante e ele, já bastante debilitada, insiste em ir embora e dirigir pela estrada madrugada adentro.

O acidente quase lhe provoca a morte. Joana fica com um sério problema na perna e, pior, é obrigada a romper com seu objeto do desejo por conta da ameaça do pai, que enxerga nele, Pedro, a causa de toda a desgraça do ponto de vista familiar e francamente burguês.

De volta para o futuro – um movimento que ora insistem em levar adiante e ora insistem em levar adiante e ora recuam -, os dois vêem-se obrigados a lidar com o real. Não há mais incosciência de viver por viver.

Joana aprende a pôr os pés nos chão. É assim que Pedro a reencontra, anos depois. Ele, claro, tenta cavucar a poesia de suas vidas, num passado remoto. Mas não encontra guarida. A não ser nas lembranças, das quais ambos parecem nutrir-se o tempo todo.

O texto de Petean, bem como sua direção, não se esquivam de assumir esse alheamento de almas apaixonadas que, de qualquer ponto de vista que não o dos envolvidos, pouco interessa. Mas não é bem assim.

“Aqueles 2” exala o sabor do desprendimento, do poder da aventura, de um extinto de liberdade, de permissão, enfim, que dificilmente se depara em vida – ou depois dela, como se queira. O problema, demasiado humano, é que tanta leveza não sobrevive para contar suas glórias. Num átimo de segundo, a vida branda sua fiel balança para compensar, para guindar os filhos alados para o chão da estrada.

As atuações perseguem o mesmo conceito de alteridade. Eloisa Elena e Marcelo Góes estão integrados em cena. Seus personagens se movimentam com leveza.

Todos os seres que estão ao redor de Joana e Pedro não ficam suficientemente claros para o espectador. Esses “vultos” não importam para o enredo que celebra a possibilidade do indivíduo em sua plenitude e relega normas ditas familiares, sociais. Os laços, aqui, são de outra ordem: a do coração.

Num tempo em que as noções de romance perdem-se em pós-isso, pós-aquilo, a montagem impõe-se como resgate de uma entrega menos oblíqua.

Joana e Pedro não foram felizes para sempre. Mas a felicidade revela-se um meio, e não um fim, quando as partes envolvidas são mais honestas consigo. “Aqueles 2”, ele e ela, pelo menos tentaram.

Aqueles Dois – Texto e direção: José Geraldo Petean. Com Eloisa Elena e Marcelo Góes. Quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. Espaço Piolim (rua Augusta, 902, Cerqueira César, tel. 256-9356 e 244-4587). R$ 15,00 (estacionamento gratuito e 50% de desconto no jantar do Restaurante Piolim, mediante apresentação do canhoto do ingresso). Duração: 70 minutos.

Curitiba – Aos 52 anos, 47 de teatro, 26 de crí¬tica, o jornalista Alberto Guzik experimenta uma situação nova em sua carreira. Às vésperas da estréia de “Um Deus Cruel”, no 60 Festival de Teatro de Curitiba, prevista para ontem, ele confes¬sou o “frio na barriga” característico dos atores.
Trata-se da sua primeira peça levada ao palco. “Acho que consegui fazer uma coisa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro”, define seu texto. Não é exatamente novidade para quem debutou no romance ano passado, com “Risco de Vida”, também uma futura adaptação de Gerald Thomas – até 98. Dos mais influentes da cena brasileira contemporânea, o crítico do “Jornal da Tarde”, que antes passou pelo “Última Hora”, de Samuel Werner, é ator formado pela atual Escola de Artes Dramáticas da USP, antes Alfredo Mesquita; pós-graduado pela ECA-USP com tese sobre o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). A seguir, Guzik fala das suas expectativas e perspectivas de autor.
O Diário – Do que trata “Um Deus Cruel”? Tem fundo autobiográfico?
Alberto Guzik – Não tem nada de autobiográfico, é um exercício de ficção. Tem a ver com minha vida no teatro. Comecei a fazer teatro com 5 anos, não parei mais. Primeiro como ator amador, depois como estudante de teatro, depois como professor, jornalista, crítico. Quer dizer, efetivamente tenho uma vida no teatro e escrevo obsessivamente sobre teatro. Então não há como não fazer essa experiência derivar quando ponho a escrever sobre teatro, em ficção. Agora, a peça não tem nada que eu pessoalmente tenha vivido. Acontece como em “Risco de Vida”, que tem uma base autobiográfica maior do que a peça, mas mesmo assim acabou sendo pequena, porque acabou uma coisa onde a ficção acabou dominando muito mais amplamente do que qualquer idéia autobiográfica ou coisa parecida. A ficção está na ponta, a ficção invade. É muito poderosa e  isso que é legal, é isso que é divertido.
O Diário – Como foi a transição do crítico para a dramaturgia?
Guzik – Não é uma passagem, é uma soma, um acréscimo; eu continuo crítico, continuo escrevendo crítica e continuarei fazendo isso enquanto eu achar que estou podendo manter a minha isenção e a minha neu¬tralidade em relação aos espetáculos que vejo. O fato de estar me aproximando cada vez mais da prática do teatro não está afe tando esse outro lado. No dia que sentir que ele está sendo afetado eu paro. Acho que dei a minha contribuição para a críti¬ca brasileira, tenho 26 anos de função e acho que já foi um bom exercício. Eu gos¬to do que eu faço não pretendo pa¬rar, mas se um dia sentir que o traba¬lho está sendo afe¬tado pelo exercício da ficção, aí eu vou me afastar, é isso que tem que ser feito. Na verdade, eu acho que o grande salto eu dei quando escrevi o ro¬mance “Risco de Vida”. Desta¬pei um alçapão e deixei sair um ficcionista que estava latente lá dentro, há muitos anos. E a peça é um desdobramento do romance¬, na medida em que nasceu do interesse do Alexandre Stockler do meu romance. Ele ficou mu¬ito interessado pelo livro. Quis fazer uma adaptação teatral, mas ficou sabendo que o Gerald Thomas já estava interessado, que eu já tinha dado os direitos, e  é uma adaptação que vai sair, que vai ser realizada, já estamos ¬conversando sobre isso.
O Diário – Como nasceu “Um Deus Cruel”?
Guzik – O projeto nasceu ano passado, a partir do segundo romance que estou escrevendo, que se chama “Era um palco iluminado”, a história de uma companhia de teatro São Paulo, dos anos 60 aos anos 90 – acho que um período deslumbrante e é a história da minha geração no teatro, acompanha a trajetória de uma companhia ao longo de 30 anos, com saltos no tempo, é claro, senão vai ficar do tamanho do “Em Busca do Tempo Perdido”, do Proust, como oito volumes. Vou ¬fazer um volume só, do tamanho do “Risco de Vida”; umas 500 páginas, e já estou mais ou menos na metade. Quando o Alexandre começou a me sondar para escrever um texto para ele, tinha gostado muito do risco, achei que só ia escrever a peça em 98, quando terminasse o romance, porque tinha material que podia usar, que estava sobrando, algumas variantes de personagens. E daí a coisa cami¬nhou. Houve uma série de coincidências para que a peça surgisse. Tive um computador quebra¬do em Avignon (cidade francesa que abriga um grande festival) no passado, o romance estava no computador, escrevia todo dia. Tentei recuperar o romance – num caderno escrito, mas não consegui lembrar exatamente onde tinha parado, resolvi não arriscar. Então, ficção é feito dança, é uma coisa que requer uma disciplina, você tem que se dedicar àquilo todo dia num determinado horário ou dança. Lembrei-me então de uma conversa com o Alexandre, de que se fossa escrever a peça iria começar com a frase “Como assim”, e alguém respondendo “Como assim?”. Estava na praça de Avignon, num café, e aí abri o caderno e as anotações imediatamente se tornaram falas, personagens ganharam nomes, uma situação de ensaio, um di¬retor brigando com um ator, o a¬tor não entendendo direito o que é que ele faz e a peça começou a nascer, e em dois meses estava pronta a primeira versão.
O Diário – Fale um pouco sobre a história da peça?
Guzik – Uma companhia de teatro, uma garotada que sai da universidade, de uma cidade que presume-se que seja São Paulo. Ao contrário da minha ficção, esta peça não está situa¬da em nenhum momento historicamente muito preciso, mas a problemática dela data dos anos 80 para cá. É uma época sem censura, mas com censura eco¬nômica cada vez maior e que fa¬la das atividades, das dificulda¬des e das maravilhas, de fazer teatro. São cinco atores e um di¬retor que vivem o dia-a-dia de uma companhia. Então, o que o público vai ver são pedaços de ensaios, a mecânica dos ensai¬os, os bastidores, as brigas, os e¬gos, os delírios, as vaidades, as exacerbações, a generosidade, as maravilhas, as derrotas. E a¬cho que consegui fazer uma coi¬sa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro.
O Diário – Como é sua relação com a classe artística?
Guzik – Na verdade, não te¬nho amigos íntimos no teatro. Conheço todo mundo, me dou com todo mundo, mas não sou um crítico de fequentar casa. Vou a um jantar quando sou convidado, mas não sou famili¬ar das pessoas do teatro. Não é porque não gosto. Falta tempo. Em geral tendo a dormir mais cedo. Já fui muito de badalação. Tenho que escrever minha fic¬ção, trabalhar no jornal e isso toma muito tempo. Uma boa noite de sono, para ter uma boa manhã de trabalho antes de ir para a redação, porque eu escrevo de manhã antes de sair de casa, não tem o que pague. E muito mais importante que jogar conversa fora num boteco. Adoro atores, adoro diretores, adoro estar no meio deles, não tenho rigorosamente nada contra, ao contrário, mas não sou íntimo das pessoas. Nunca tive um caso de amizade tão grande com um artista que me impedisse de refletir sobre a obra dele. Quer dizer, até hoje tenho conseguido efetivamente manter essa isenção com muita tranquilidade. A crítica é um exercício de poder muito fugaz e a gente tem que saber disso com muita destrez e muita consciência do processo.
O Diário – Você chegou a viver um pouco da fase, pode-se dizer, romântica da crítica, com espaço maior nos jornais em relação ao que vemos hoje. Esse “aperto” não angustia um pouco?
Guzik – Na verdade, a gente aprende a fazer o que tem que fazer. A crítica sempre fez isso, você tem que aprender a se adaptar, o jornalismo mudou, a crítica tem que mudar. Nem eu tenho mais paciência de ficar lendo…Confesso que fiz grandes digressões sobre coisas… Era lindo, era maravilhoso, era o máximo. Você lê as críticas do Décio de Almeida Prado com um prazer extraordinário, o ho¬mem é um dos maiores estilis tas da língua, entre os autores contemporâneos. È admirável a maneira como ele escreve, in¬dependentemente de qualquer outra coisa. O único jeito de vo¬cê fazer crítica é saber que você está lá, para dar a cara pra bater e pra errar. Você erra o tempo todo, é um exercício de erro. A crítica detém um poder completamente ilusório, que é poder nenhum, na verdade você é es pancado de um lado e do outro não tem nehuma regalia, na verdade, com o fato de ser crítico. As pessoas podem achar que tem, mas não há glamour nenhum. E uma responsabilidade do tamanho de um bonde, porque o que você fala pode não levar público nenhum ao teatro, mas mexe pra danar na cabeça do artista. Então você tem que saber muito bem o que você está falando porque não é brincadeira. Acho que minha vantagem nessa passagem, se existe alguma, é que sei como a crítica é feita. Então sei como receber crítica. Já soube como receber crítica, até bordoada no romance “Risco de Vida”, espe¬ro que em “Um Deus Cruel” continue sabendo receber por que vai ser necessário. Vai ter gente que vai gostar, vai ter gente que vai odiar, vai ter gente que não vai com minha cara, então vai ter o maior prazer em revidar. Vai ter de tudo isso. A vida é isso e a gente tem que estar preparado.
O Diário – E como você es¬tá encarando a estréia?
Guzik – Estou nervoso e muito curioso. Torço muito, a cho que tem uma turma jovem, talentosa. Aposto neles. Eles estão apostando na peça. Acho este encontro de gerações maravilhoso. O Alexandre tem 23 anos, eu tenho 52. Acho o máxi¬mo isso que está acontecendo.
A gente está dando uma lição de cooperação porque no Brasil as gerações são tão comportamentadas e o trabalho entre elas tornou-se tão raro que acho que isso pode acontecer, com lucros pa¬ra ambas as partes.
Colaborou Ivana Moura, do “Diário de Pernambuco”, especial para “O Diário de Mogi”. O jornalista Valmir Santos viaja a convite do 6º FTC.
Gerald reencontra Bete Coelho em “evento”
Curitiba – Todo ano é sem¬pre igual. Foi assim, por e¬xemplo, em “Império das Meias-Verdades”, em “Nowhe¬re Man”. Gerald Thomas cercou “Os Reis do lê-lê-lê” de segre¬dinhos. Às 2 horas da madruga¬da da última sexta-feira, dia da estréia, ligou para a assessora de Imprensa do Festival de Teatro de Curitiba comunicando o adi¬amento para ontem.
Na entrevista coletiva, na tarde de quinta, já adiantava problemas com a preparação do palco e outros detalhes técnicos. “Mas o evento está pronto”, ga¬rantia após 12 dias de ensaios. “Com 53 espetáculos nas cos¬tas, 20 anos de teatro, é preciso muita razão para tomar a decisão de estrear num palco que a organização prometeu entregar na terça-feira e já está atrasado em pelo menos 36 horas”, se queixava Thomas, justificando com antecedência o adiamento.
É “evento” e não peça que marca o reencontro, cerca de seis anos depois, de Thomas com Bete Coelho, ex-primeira-atriz da Companhia de Ópera Seca. Nos últimos anos ela seguiu carreira paralela, atuando em “Rancor” e “Pentesiléias” – esta há dois anos, dividindo a direção com Daniela Thomas.
Também estão no elenco Lu¬iz Damasceno, na Ópera Seca desde o início, 11 anos atrás, e Domingos Varella; Raquel Riz¬zo, curitibana que vem desde “Unglauber”; mais o polêmico diretor e ator Dionísio Neto (“Opus Profundum” e “Perpé¬tua”) e sua primeira-atriz Rena¬ta Jesion.
Ao contrário das aparições em espetáculos anteriores, desta vez Thomas veste efetivamente a camisa de ator. “Não sou ator, mas faço papel do Gerald Tho¬mas”, ironiza. Ele define seu “evento” – que além das duas apre¬sentações no festival deve ter somente mais uma em São Pau¬lo – como um “laboratório de clonagem”.
“Não simplesmente genéti¬ca, como no caso da ovelhinha, mas clonagem semântica”, tenta explicar.
Para Thomas, a contracultu¬ra pós-anos 60, que contestava o behaviorismo, o comportamen¬to diante da sociedade, desem¬bocou “nesta ignorância, boba¬geira que começou com ‘she’s love yeah, yeah”’, na sua opini¬ão “o mais imbecil de todos os refrões”.
“Os Reis do lê-lê-lê” é uma crítica ao mundo pop, do qual os Beatles foram ícone? Sim e não. Em princípio, o “evento” não pretende dizer muito sobre os rapazes de Liverpool. Apropria-se dos nomes – Thomas é Len¬non, Bete Coelho, McCartney – e de algumas canções na trilha. Mas o encenador, que diz ter le¬vado “porrada” em Londres por não gostar do Beatles e amar os Rolling Stones, no tempo em que morou por lá, prefere desta¬car mais o “prazer do reencon¬tro” com a atriz com quem vi¬veu um affaire de quatro anos.
Em tese, não existe um fio. A sinopse que entregou para di¬vulgação, o próprio diretor con¬fessa, tem pouco ou nada a ver com o que será visto no palco. A mutação é uma das característi¬cas deste “obcecado pela for¬ma”. Thomas adora as coisas feitas pelo Homem, a beleza concreta das cidades, e dispensa as providências da natureza. Ve¬nera o asfalto, o pneu e está pre¬ocupado com quem dirige o car¬ro.
Sobre desperdiçar um bom elenco para apenas duas ou três apresentações, Thomas aponta a “efemeridade” do teatro. “Tanto faz dias ou meses”. O próximo trabalho no Brasil será em agosto, com a companhia de dança Primeiro Ato, de Belo Horizon¬te. Depois da experiência – e das divergências – com o bailarmno e coreógrafo Ivaldo Bertazzo, pa¬rece ter tomado gosto pelo mo-vimento.

Valmir Santos

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