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O Diário de Mogi

Ator vive personagem-espelho

24.10.1998  |  por Valmir Santos

O Diário de Mogi – Domingo, 24 de outubro de 1998.   Caderno A – 2


Antonio Fagundes volta ao cartaz como professor aposentado em “Últimas Luas”

VALMIR SANTOS


São Paulo – Antonio Fa­gundes, 50 anos, é das raras estrelas da televi­são que enveredam pe­lo teatro com intimidade e respeito que o ofício pede. Para ele, um galã de novela, seria fácil arrebanhar o públi­co. Mas quando esse ator en­cabeça a produção e o elenco de uma montagem, não se es­pere o riso fácil das comédias de sala-de-estar. O Fagundes do palco é, antes de tudo, um vigia de si mesmo. Diante da construção de um personagem, ele parece exigir um ri­gor correspondente ao cum­primento do horário dos es­petáculos (um relógio ajusta­do com Brasília está postado sobre a bilheteria, para que o espectador não tenha dúvida da pontualidade).


Soa exagero para o “jeiti­nho brasileiro”, mas é apenas o exercício milimétrico da plenitude ética que deveria pautar as relações humanas nessa virada de século, quan­do os valores remam contra a maré. “Últimas Luas”, o texto que Fagundes escolheu para retornar aos palco, quatro anos depois, foi escrito pelo i­taliano Furio Bordon, um dos mais elogiados dramaturgos da nova safra italiana.

 

A peça aprofunda a questão do abandono da terceira idade, um fenômeno verificado em vários países, e a trata com fí­ligramas de protesto engajado. O mérito de Bordon, que faturou vários prêmios na Europa com sua primeira peça, escrita em 1993, é sondar o problema social acrescentando-o a potência do ser humano em superar os desafios.

 

Conta a história de um ex-professor de literatura apo­sentado, por volta dos seus 70 anos, em meio a uma crise de relacionamento com o filho e, ao cabo, consigo mesmo. Vi­úvo, independente e bem su­cedido na vida profissional, ele decide abandonar a casa onde mora com o filho e a mulher deste. Muda-se para uma casa de repouso, eufe­mismo para asilo.

 

Entre o conflito pai e filho – o orgulho é o principal estor­vo ao diálogo – e a reclusão do professor, desenvolve-se um painel ora delicado, ora muito cruel da incomunicabilidade e seus efeitos colaterais em vida. Para um papel de contornos tão difíceis, que passa a segunda parte da peça na vertigem de um solilóquio  interior, Fagundes agarra-se com determinação. A peça é dele, e sua escolha faz jus ao talen­to e ao carisma (como em “Fragmentos de Um Discurso Amoroso” ou mesmo no pro­fessor de “Oleanna”).

 

Quando caminha arrastan­do os pés; feito “velho engo­mando o chão, como formi­gas de chinelo”; quando ouve os “sons líquidos” dos “mor­tos cantando nos canos d’á­gua”; ou quando devota seu amor à plantinha, enfim, não são poucas as imagens de for­te expressão poética, bem ex­ploradas com aquela aura e­mocional que o ator emprega em seus papéis – uma carga e­mocional não exagerada, mas equilibrada.

 

Na medida em que condiciona o protagonista de “Últimas Luas” nessa perspectiva pessoal, numa espécie de papel-espelho, Fagundes ainda tateia para costurar os tempos da fala e da ação, o que prejudica certas passagens, como se viu na primeira semana da temporada. Talvez seja uma equação em mãos do diretor Jorge Takla, um encenador na acepção maior do termo, com um cenário de sua autoria que poderia ser resumido assim, e aliás o é: a profundidade vazia de uma tempestade de neve…

 

Takla soube transpor as contradições que Bordon im­prime em sua tragicomédia. A densidade flui como um sorri­so maroto no canto da boca de Fagundes, ainda que imerso na solidão, exemplo dos tipos criados pelo dramaturgo ir­landês Samuel Beckett.

No papel da esposa que morreu faz 30 anos, mas com quem o professor aposentado conversa no presente – a atemporalidade é outra característica marcante da peça, fundindo vários planos -, a atriz Mara Carvalho cumpre com elegância a brevidade que o papel lhe confere. Petrônio Gontijo, como o filho, é um contraponto um tanto melodramático, se comparado à performance suave de Fagundes – já se escreveu que o espetáculo é dele, pois não?

 

Últimas Luas – De Furio Bordon. Direção: Jorge Takla. Com Antonio Fagundes, Mara Carvalho e Petrônio Gontijo. Teatro Cultura Artística/Sala Esther Mesquita (rua Nestor Pestana, 196, Consolação, tel. 258-3616). Quinta a sábado, 21h; domingo, 18h. R$ 20,00 a R$ 40,00. Duração: 90 minutos. Até 28 de novembro.

Homenagem a João Pacífico em CD

São Paulo – Nesses quatro anos afastado do teatro, Antonio Fagundes dedicou-se a “n” projetos – foram duas novelas vive atualmente Gumercindo em “Terra Nostra”) e quatro filmes (está em cartaz com “O Tronco”, de João Batista de Andrade). Porém um dos projetos mais inusitados foi a gravação do recém-lançado “Tributo a João Pacífico”, um CD em homenagem o compositor de “Cabocla Tereza” morto no ano passado, aos 89 anos.

 

São 12 sucessos de Pacífico, onde Fagundes empresta sua voz num exercício mais solidário do que propriamente profissional. Afinal, o ator não possui voz de chegada para levar a música dolente do autor cujas interpretações de Adauto Santos, Rolando Boldrin e Pena Branca e Xavantinho, para citar alguns, são memoráveis e sedimentaram a música raiz do homem sertanejo.

 

As participações especiais de Oswaldinho do Acordeon, Joao Mulato e Duo Fel, mais a direção de arranjos de Luiz Schiavon chancelam o acabamento nusical, capricham na melodia, mas a voz não reverbera com tamanha empreitada.

 

Fagundes topou o projeto sugerido por um filho do novelista Benedito Ruy Barbosa, na época de “O Rei do Gado”. Lamenta não ter conhecido Pacífico pessoalmente – que viveu seus últimos três anos de vida em Guararema, na casa do músico Freddy-, o que confere um tom de celebração póstuma ao “Tributo”.

 

Não há dúvida de que o CD dá – e daria, se vivo – maior visibilidade ao compositor João Pacífico, tão destratado pela mídia e pelo esquema da indústria fonográfica que não lhe surrupiou pouco. Mas ninguém ouve “Pingo D’Água” ou “Chico Mulato” indiferente, ainda mais com esforço sincero de um Fagundes. Uma ressalva: pena que a capa trai a própria idéia do projeto ao privilegiar somente a imagem e o nome do artista famoso sem qualquer referência àquele que, afinal, é alvo do tributo.

Amor filial às últimas consequências

 

São Paulo – Incensado co­mo um dos bambas da dramaturgia britânica no fim de milênio, Maartin McDonagh, 29 anos, chega ao Brasil por conta da atriz e pro­dutora Xuxa Lopes. Ela assis­tiu à peça “A Rainha da Bele­za de Leenane” e comprou os direitos do texto para montá­-lo em primeira mão.

E uma história corrosiva sobre a relação filial. Se em “Últimas Luas”, de Furio Bordon [leia crítica acima] a ponte pai e filho servia de pa­no de fundo, aqui ela é via única para a depauperação hu­mana levada às últimas conse­quências.
 
Xuxa Lopes está no papel da incandescente Maureen, filha insatisfeita com a vida por causa da “missão” de sub­meter-se aos ditames da mãe, Mag, a megera fanfarrona nu­ma das interpretações mais felizes de Walderez de Barros nos últimos tempos.

 

Ainda que a filha capitali­ze até o título da peça – “a rai­nha da beleza de Leenane”, a cidade onde moram, confor­me elogio descarado de Pato Dooley (Chico Diaz), homem com quem a quarentona perde a virgindidade, ainda assim é a supermãe Mag quem enfei­xa os contrastes da tragédia e da comédia que vão pontuan­do uma história difícil de ser imaginada numa casinha lo­calizada no topo de uma mon­tanha.

 

Pois é lá, entre as quatro paredes rarefeitas de uma co­zinha, sob testemunha de talheres, panelas e fogão – espaço iminentemente das mulhe­res -, que mãe e filha vão ca­librando o embate ensaiado em anos de convivência. Intri­gas e rancores são passados à limpo assim que as figuras masculinas penetram o terri­tório da normalidade aparen­te.

 

Antes de Pato, o galantea­dor, é seu irmão quem vai ba­ter à porta. Ray Dooley (Marcelo Médici) sintetiza arro­gância juvenil, gratuidade e desprezo por tudo (inclusive pessoas) que não digam res­peito ao umbigo.

 

Para uma platéia tipica­mente classe média alta, em sua maioria composta de se­nhoras mamães, “A Rainha da Beleza de Leenane” desfere um golpe certeiro na hipocri­sia dos lares, colhendo e des­pejando seus frutos sem pie­dade ou senões.

 

E aí entra o texto e a dispo­sição de McDonagh, impetuoso e afetivo. Realista, numa só palavra, mas costurando com a matéria-prima de que é composta o ser humano quando se arroga o direito de de­pender e fazer-se dependente do outro. O autor britânico tem o mérito de promover es­se debate sem lançar julga­mento.

 

Dando seus primeiros pas­sos na direção teatral, Cana Camurati surpreende pela amarração das cenas e pelo dedo na interpretação de grandes intérpretes. Xuxa Lopes e Walderez de Barros, cada uma a seu modo, estão entra­nhadas em seus papéis mas nunca “domadas”, voláteis. São visíveis os recursos técni­cos que manejam, quer na postura corporal, quer no an­dar displicente ou no venenoso desdém mútuo das perso­nagens.

 

Nessa história, os homens entram como meros figurantes. Até quando deveriam ser determinantes – Pato é um ga­lã de meia tigela e seu irmão não passa de um poço de abobrinhas -, quem dita as regras são as mulheres, mãe e filha. Pelo menos elas pensam as­sim, umbilicais, e imaginam matar a fome (de amor) com bolachas, como quer a pobre Maureen. E como quer o escárnio do autor.

A Rainha da Beleza de Leenane – De Martin McDonagh. Tradução: Adriana Falcão e Tatiana Maciel. Com Xuxa Lopes, Walderez de Barros, Chico Diaz e Marcelo Médici. Direção: Carla Camurati. Teatro Alfa/Sala B (rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, tel. 5693-4000). Sexta, 21h; sábado, 19h e 21h30; domingo, 19h. R$ 30,00 e R$ 35 (sábado). Duração: 95 minutos. Até 19 de dezembro.

Curitiba – Aos 52 anos, 47 de teatro, 26 de crí¬tica, o jornalista Alberto Guzik experimenta uma situação nova em sua carreira. Às vésperas da estréia de “Um Deus Cruel”, no 60 Festival de Teatro de Curitiba, prevista para ontem, ele confes¬sou o “frio na barriga” característico dos atores.
Trata-se da sua primeira peça levada ao palco. “Acho que consegui fazer uma coisa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro”, define seu texto. Não é exatamente novidade para quem debutou no romance ano passado, com “Risco de Vida”, também uma futura adaptação de Gerald Thomas – até 98. Dos mais influentes da cena brasileira contemporânea, o crítico do “Jornal da Tarde”, que antes passou pelo “Última Hora”, de Samuel Werner, é ator formado pela atual Escola de Artes Dramáticas da USP, antes Alfredo Mesquita; pós-graduado pela ECA-USP com tese sobre o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). A seguir, Guzik fala das suas expectativas e perspectivas de autor.
O Diário – Do que trata “Um Deus Cruel”? Tem fundo autobiográfico?
Alberto Guzik – Não tem nada de autobiográfico, é um exercício de ficção. Tem a ver com minha vida no teatro. Comecei a fazer teatro com 5 anos, não parei mais. Primeiro como ator amador, depois como estudante de teatro, depois como professor, jornalista, crítico. Quer dizer, efetivamente tenho uma vida no teatro e escrevo obsessivamente sobre teatro. Então não há como não fazer essa experiência derivar quando ponho a escrever sobre teatro, em ficção. Agora, a peça não tem nada que eu pessoalmente tenha vivido. Acontece como em “Risco de Vida”, que tem uma base autobiográfica maior do que a peça, mas mesmo assim acabou sendo pequena, porque acabou uma coisa onde a ficção acabou dominando muito mais amplamente do que qualquer idéia autobiográfica ou coisa parecida. A ficção está na ponta, a ficção invade. É muito poderosa e  isso que é legal, é isso que é divertido.
O Diário – Como foi a transição do crítico para a dramaturgia?
Guzik – Não é uma passagem, é uma soma, um acréscimo; eu continuo crítico, continuo escrevendo crítica e continuarei fazendo isso enquanto eu achar que estou podendo manter a minha isenção e a minha neu¬tralidade em relação aos espetáculos que vejo. O fato de estar me aproximando cada vez mais da prática do teatro não está afe tando esse outro lado. No dia que sentir que ele está sendo afetado eu paro. Acho que dei a minha contribuição para a críti¬ca brasileira, tenho 26 anos de função e acho que já foi um bom exercício. Eu gos¬to do que eu faço não pretendo pa¬rar, mas se um dia sentir que o traba¬lho está sendo afe¬tado pelo exercício da ficção, aí eu vou me afastar, é isso que tem que ser feito. Na verdade, eu acho que o grande salto eu dei quando escrevi o ro¬mance “Risco de Vida”. Desta¬pei um alçapão e deixei sair um ficcionista que estava latente lá dentro, há muitos anos. E a peça é um desdobramento do romance¬, na medida em que nasceu do interesse do Alexandre Stockler do meu romance. Ele ficou mu¬ito interessado pelo livro. Quis fazer uma adaptação teatral, mas ficou sabendo que o Gerald Thomas já estava interessado, que eu já tinha dado os direitos, e  é uma adaptação que vai sair, que vai ser realizada, já estamos ¬conversando sobre isso.
O Diário – Como nasceu “Um Deus Cruel”?
Guzik – O projeto nasceu ano passado, a partir do segundo romance que estou escrevendo, que se chama “Era um palco iluminado”, a história de uma companhia de teatro São Paulo, dos anos 60 aos anos 90 – acho que um período deslumbrante e é a história da minha geração no teatro, acompanha a trajetória de uma companhia ao longo de 30 anos, com saltos no tempo, é claro, senão vai ficar do tamanho do “Em Busca do Tempo Perdido”, do Proust, como oito volumes. Vou ¬fazer um volume só, do tamanho do “Risco de Vida”; umas 500 páginas, e já estou mais ou menos na metade. Quando o Alexandre começou a me sondar para escrever um texto para ele, tinha gostado muito do risco, achei que só ia escrever a peça em 98, quando terminasse o romance, porque tinha material que podia usar, que estava sobrando, algumas variantes de personagens. E daí a coisa cami¬nhou. Houve uma série de coincidências para que a peça surgisse. Tive um computador quebra¬do em Avignon (cidade francesa que abriga um grande festival) no passado, o romance estava no computador, escrevia todo dia. Tentei recuperar o romance – num caderno escrito, mas não consegui lembrar exatamente onde tinha parado, resolvi não arriscar. Então, ficção é feito dança, é uma coisa que requer uma disciplina, você tem que se dedicar àquilo todo dia num determinado horário ou dança. Lembrei-me então de uma conversa com o Alexandre, de que se fossa escrever a peça iria começar com a frase “Como assim”, e alguém respondendo “Como assim?”. Estava na praça de Avignon, num café, e aí abri o caderno e as anotações imediatamente se tornaram falas, personagens ganharam nomes, uma situação de ensaio, um di¬retor brigando com um ator, o a¬tor não entendendo direito o que é que ele faz e a peça começou a nascer, e em dois meses estava pronta a primeira versão.
O Diário – Fale um pouco sobre a história da peça?
Guzik – Uma companhia de teatro, uma garotada que sai da universidade, de uma cidade que presume-se que seja São Paulo. Ao contrário da minha ficção, esta peça não está situa¬da em nenhum momento historicamente muito preciso, mas a problemática dela data dos anos 80 para cá. É uma época sem censura, mas com censura eco¬nômica cada vez maior e que fa¬la das atividades, das dificulda¬des e das maravilhas, de fazer teatro. São cinco atores e um di¬retor que vivem o dia-a-dia de uma companhia. Então, o que o público vai ver são pedaços de ensaios, a mecânica dos ensai¬os, os bastidores, as brigas, os e¬gos, os delírios, as vaidades, as exacerbações, a generosidade, as maravilhas, as derrotas. E a¬cho que consegui fazer uma coi¬sa que queria há muito tempo: uma grande declaração de amor ao teatro.
O Diário – Como é sua relação com a classe artística?
Guzik – Na verdade, não te¬nho amigos íntimos no teatro. Conheço todo mundo, me dou com todo mundo, mas não sou um crítico de fequentar casa. Vou a um jantar quando sou convidado, mas não sou famili¬ar das pessoas do teatro. Não é porque não gosto. Falta tempo. Em geral tendo a dormir mais cedo. Já fui muito de badalação. Tenho que escrever minha fic¬ção, trabalhar no jornal e isso toma muito tempo. Uma boa noite de sono, para ter uma boa manhã de trabalho antes de ir para a redação, porque eu escrevo de manhã antes de sair de casa, não tem o que pague. E muito mais importante que jogar conversa fora num boteco. Adoro atores, adoro diretores, adoro estar no meio deles, não tenho rigorosamente nada contra, ao contrário, mas não sou íntimo das pessoas. Nunca tive um caso de amizade tão grande com um artista que me impedisse de refletir sobre a obra dele. Quer dizer, até hoje tenho conseguido efetivamente manter essa isenção com muita tranquilidade. A crítica é um exercício de poder muito fugaz e a gente tem que saber disso com muita destrez e muita consciência do processo.
O Diário – Você chegou a viver um pouco da fase, pode-se dizer, romântica da crítica, com espaço maior nos jornais em relação ao que vemos hoje. Esse “aperto” não angustia um pouco?
Guzik – Na verdade, a gente aprende a fazer o que tem que fazer. A crítica sempre fez isso, você tem que aprender a se adaptar, o jornalismo mudou, a crítica tem que mudar. Nem eu tenho mais paciência de ficar lendo…Confesso que fiz grandes digressões sobre coisas… Era lindo, era maravilhoso, era o máximo. Você lê as críticas do Décio de Almeida Prado com um prazer extraordinário, o ho¬mem é um dos maiores estilis tas da língua, entre os autores contemporâneos. È admirável a maneira como ele escreve, in¬dependentemente de qualquer outra coisa. O único jeito de vo¬cê fazer crítica é saber que você está lá, para dar a cara pra bater e pra errar. Você erra o tempo todo, é um exercício de erro. A crítica detém um poder completamente ilusório, que é poder nenhum, na verdade você é es pancado de um lado e do outro não tem nehuma regalia, na verdade, com o fato de ser crítico. As pessoas podem achar que tem, mas não há glamour nenhum. E uma responsabilidade do tamanho de um bonde, porque o que você fala pode não levar público nenhum ao teatro, mas mexe pra danar na cabeça do artista. Então você tem que saber muito bem o que você está falando porque não é brincadeira. Acho que minha vantagem nessa passagem, se existe alguma, é que sei como a crítica é feita. Então sei como receber crítica. Já soube como receber crítica, até bordoada no romance “Risco de Vida”, espe¬ro que em “Um Deus Cruel” continue sabendo receber por que vai ser necessário. Vai ter gente que vai gostar, vai ter gente que vai odiar, vai ter gente que não vai com minha cara, então vai ter o maior prazer em revidar. Vai ter de tudo isso. A vida é isso e a gente tem que estar preparado.
O Diário – E como você es¬tá encarando a estréia?
Guzik – Estou nervoso e muito curioso. Torço muito, a cho que tem uma turma jovem, talentosa. Aposto neles. Eles estão apostando na peça. Acho este encontro de gerações maravilhoso. O Alexandre tem 23 anos, eu tenho 52. Acho o máxi¬mo isso que está acontecendo.
A gente está dando uma lição de cooperação porque no Brasil as gerações são tão comportamentadas e o trabalho entre elas tornou-se tão raro que acho que isso pode acontecer, com lucros pa¬ra ambas as partes.
Colaborou Ivana Moura, do “Diário de Pernambuco”, especial para “O Diário de Mogi”. O jornalista Valmir Santos viaja a convite do 6º FTC.
Gerald reencontra Bete Coelho em “evento”
Curitiba – Todo ano é sem¬pre igual. Foi assim, por e¬xemplo, em “Império das Meias-Verdades”, em “Nowhe¬re Man”. Gerald Thomas cercou “Os Reis do lê-lê-lê” de segre¬dinhos. Às 2 horas da madruga¬da da última sexta-feira, dia da estréia, ligou para a assessora de Imprensa do Festival de Teatro de Curitiba comunicando o adi¬amento para ontem.
Na entrevista coletiva, na tarde de quinta, já adiantava problemas com a preparação do palco e outros detalhes técnicos. “Mas o evento está pronto”, ga¬rantia após 12 dias de ensaios. “Com 53 espetáculos nas cos¬tas, 20 anos de teatro, é preciso muita razão para tomar a decisão de estrear num palco que a organização prometeu entregar na terça-feira e já está atrasado em pelo menos 36 horas”, se queixava Thomas, justificando com antecedência o adiamento.
É “evento” e não peça que marca o reencontro, cerca de seis anos depois, de Thomas com Bete Coelho, ex-primeira-atriz da Companhia de Ópera Seca. Nos últimos anos ela seguiu carreira paralela, atuando em “Rancor” e “Pentesiléias” – esta há dois anos, dividindo a direção com Daniela Thomas.
Também estão no elenco Lu¬iz Damasceno, na Ópera Seca desde o início, 11 anos atrás, e Domingos Varella; Raquel Riz¬zo, curitibana que vem desde “Unglauber”; mais o polêmico diretor e ator Dionísio Neto (“Opus Profundum” e “Perpé¬tua”) e sua primeira-atriz Rena¬ta Jesion.
Ao contrário das aparições em espetáculos anteriores, desta vez Thomas veste efetivamente a camisa de ator. “Não sou ator, mas faço papel do Gerald Tho¬mas”, ironiza. Ele define seu “evento” – que além das duas apre¬sentações no festival deve ter somente mais uma em São Pau¬lo – como um “laboratório de clonagem”.
“Não simplesmente genéti¬ca, como no caso da ovelhinha, mas clonagem semântica”, tenta explicar.
Para Thomas, a contracultu¬ra pós-anos 60, que contestava o behaviorismo, o comportamen¬to diante da sociedade, desem¬bocou “nesta ignorância, boba¬geira que começou com ‘she’s love yeah, yeah”’, na sua opini¬ão “o mais imbecil de todos os refrões”.
“Os Reis do lê-lê-lê” é uma crítica ao mundo pop, do qual os Beatles foram ícone? Sim e não. Em princípio, o “evento” não pretende dizer muito sobre os rapazes de Liverpool. Apropria-se dos nomes – Thomas é Len¬non, Bete Coelho, McCartney – e de algumas canções na trilha. Mas o encenador, que diz ter le¬vado “porrada” em Londres por não gostar do Beatles e amar os Rolling Stones, no tempo em que morou por lá, prefere desta¬car mais o “prazer do reencon¬tro” com a atriz com quem vi¬veu um affaire de quatro anos.
Em tese, não existe um fio. A sinopse que entregou para di¬vulgação, o próprio diretor con¬fessa, tem pouco ou nada a ver com o que será visto no palco. A mutação é uma das característi¬cas deste “obcecado pela for¬ma”. Thomas adora as coisas feitas pelo Homem, a beleza concreta das cidades, e dispensa as providências da natureza. Ve¬nera o asfalto, o pneu e está pre¬ocupado com quem dirige o car¬ro.
Sobre desperdiçar um bom elenco para apenas duas ou três apresentações, Thomas aponta a “efemeridade” do teatro. “Tanto faz dias ou meses”. O próximo trabalho no Brasil será em agosto, com a companhia de dança Primeiro Ato, de Belo Horizon¬te. Depois da experiência – e das divergências – com o bailarmno e coreógrafo Ivaldo Bertazzo, pa¬rece ter tomado gosto pelo mo-vimento.

Valmir Santos

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