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Folha de S.Paulo

Epopéia de um esteta

18.9.2004  |  por Valmir Santos

São Paulo, sábado, 18 de setembro de 2004

TEATRO 
Encenador italiano Gianni Ratto, no Brasil há 50 anos, é tema de documentário

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Em 1954, Gianni Ratto deixou a Itália movido por duas paixões: o teatro e as mulheres.

“Ele veio por amor a Luciana [Petrucelli, figurinista com quem viajou para o Brasil, mas depois ela voltou]”, afirma uma das suas ex-mulheres, Kati de Almeida Braga, mãe de Antonia Ratto, co-diretora de um documentário sobre o pai .

A declaração está no longa-metragem “Gianni Ratto” (título a ser confirmado), confluência da vida e da obra do diretor e cenógrafo de 88 anos, casado com a socióloga Vaner Maria Birolli Ratto.

Ele é remanescente da geração de italianos que chegou entre os anos 40 e 50 e ajudou a esquadrinhar a modernidade do teatro brasileiro (Adolfo Celi, Ruggero Jacobbi etc).

Quando saiu da Itália, há 50 anos, Ratto já era um respeitado cenógrafo no meio da ópera e do teatro. Trabalhou com Giorgio Strehler (1921-97) e Paolo Grassi (1919-81), fundadores do Piccolo Teatro de Milão. Fez criações para montagens com a cantora de ópera Maria Callas, por exemplo.

“O Gianni Ratto nos deu essa consciência cultural e educacional do teatro”, diz Fernanda Montenegro, que foi dirigida por ele na mocidade.

O filme procura alinhavar a condição de esteta do homem que aprendeu a captar o belo numa obra de arte, mas também numa flor, num animal. “A beleza é uma meretriz que se entrega facilmente a santos e assassinos”, escreveu no livro de memórias “A Mochila do Mascate” (1996), uma das referências do roteiro da dupla Antonia e Gabriela Greeb, que encabeça a direção do documentário,

“Gravamos pelo menos duas seqüências, uma com uma criança lendo o livro dele e outra noturna, com uma mulher nua, fora de foco. São metáforas estéticas para momentos de silêncio”, diz Greeb, 37, que assina seu primeiro longa-metragem, depois de curtas como “A Ilusão” e “Floreados do Repique”.

O próprio Ratto é o narrador, por assim dizer. “É um filme com ele, não sobre ele”, diz Antonia, 27, que estréia no cinema. Segunda dos três filhos do encenador, ela tem formação em design gráfico; no teatro, fez assistência para Denise Stoklos no espetáculo “Calendário da Pedra”.

O filme
O documentário abre com reunião de amigos e familiares nos 87 anos de Ratto, em 27 de agosto de 2003, na casa do bairro paulistano do Pacaembu. Na ocasião, o pianista Achile Picchi executa uma rara partitura que a mãe do encenador, Maria Ratto, criara nos anos 50. Segue-se uma viagem que casa depoimentos de amigos e do próprio Ratto, numa perspectiva que dispensa cronologia e joga com fusões de imagens do mar. O agito ou mansidão das ondas sempre o seduziram.

Afinal, foram 14 dias em navio, do terminal de Crociere, em Gênova, até o cais da praça Mauá, no Rio de Janeiro, ou o porto de Santos, destinos finais naquele janeiro de 1954.

O documentário como que refaz a travessia. Acompanha Ratto ao terminal de Crociere. Testemunha encontros carregados de afetividade. Um café com os amigos Nino e Luciano, com os quais prestou serviço militar numa Itália sob regime fascista.

Conversa com o primo Corrado, que não via há meio século e com o qual compartilha uma carta, emocionado. Vai ao colégio de padres onde estudou. Recebe o beijo e o sorriso maroto do comediante Dario Fo, no intervalo de um ensaio.

Ouve as lembranças sinceras de Nina Vinchi Grassi, 94, diretora-artística do Piccolo, sobre as parcerias nos primeiros anos do teatro fundado em 1947.

Edifícios como o Piccolo e o Alla Scalla, ambos em Milão, e o Carlo Felice, em Gênova, são revisitados pelo homem que cultivou ali intimidade com a arquitetura cênica. “Não existe cena tão importante quanto o palco vazio. A partir daquele momento, tudo pode acontecer”, afirma Ratto na película.

Ainda que, no fundo, entenda como o edifício “ideal” a praça pública, como aquela do Jardim de Boboli, em Florença, onde participou da montagem de “A Tempestade”, de Shakespeare, por Strehler.

No filme, Ratto surge no mesmo local, a descrever o cenário que o marcou porque integrado à paisagem formada por lago, árvores, esculturas e uma fonte.

Artesão do teatro
Salto para o Brasil. Depoimentos de Maria Della Costa, que conheceu Ratto durante viagem à Itália, com o marido e empresário Sandro Polloni, e o convidou para dirigir “O Canto da Cotovia”, de Jean Anouilh.

Ratto se distinguia porque não se fixava apenas nas inflexões de voz para os atores, mas em sugestões mais construtivas para os personagens, como confessa um dos participantes da roda de veteranos do grupo carioca Teatro dos Sete (1959-66), reunidos especialmente para o filme.

Outras vozes vão compondo o perfil desse artesão do teatro que não gosta de ser tratado por mestre: Millôr Fernandes, Tatiana Memória (do extinto grupo Teatro Novo, que Ratto também dirigiu no Rio), Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Lauro César Muniz, Eduardo Tolentino, Celso Frateschi, Umberto Magnani, Marcos Caruso, Ariclê Perez, Kalma Murtinho, Ariela Goldmann etc.

Com produção da Homemadefilms (recém-criada por Greeb) e da Tibet Filme, “Gianni Ratto” teve patrocínio inicial da Petrobras e agora capta recursos para finalização. Deve estrear em 2005.

“Eu comi muito teatro na minha vida”, deixa escapar Gianni Ratto, sentado numa cadeira de rodas (uma neuropatia afeta movimentos das mãos e dos pés, o que não o impede de andar). A frase e a cena foram gravadas justamente quando estava dentro de um teatro italiano.

A fome de teatro continua. Há pouco, criou a iluminação (ele é um faz-tudo!) da premiada montagem de “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, texto de Bosco Brasil. E segue na curadoria do projeto Formação de Público da Secretaria Municipal da Cultura, em São Paulo.

Valmir Santos

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