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Folha de S.Paulo

Peça recria travessia para Borges

17.2.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

TEATRO 
Estréia de Ignácio de Loyola Brandão na dramaturgia evoca mito argentino

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

O teatro sempre atentou Ignácio de Loyola Brandão, 68. Nascido em Araraquara (SP), como Zé Celso, ele dividiu pensão com o diretor do Oficina em São Paulo. Era espectador assíduo do Oficina e do Arena. Quando assistiu ao espetáculo “Jornada de um Longo Dia para Dentro da Noite” (1958), no Rio, saiu tão emocionado que dizia para si que um dia escreveria uma peça com o fôlego daquele clássico de Eugene O’Neill.

Depois de lançar 27 livros, o romancista, contista e cronista finalmente reata com o sonho da dramaturgia. Acaba de escrever sua primeira peça, “A Última Viagem de Borges”, uma evocação ao homem e à obra do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986).
A montagem de Sérgio Ferrara, com cenografia e figurinos da artista Maria Bonomi, estréia dia 17/3 no Festival de Teatro de Curitiba e entra em cartaz em 25/3 no Sesc Anchieta, em São Paulo.

Não é um texto biográfico, tampouco adaptação. Instigado por Bonomi e Ferrara, Brandão encontrou uma porta livre na obra de Borges para a recriação.

A partir das chaves da palavra e da memória, tão caras ao autor de narrativas como “História Universal da Infâmia”, “O Aleph” e “O Livro de Areia”, Brandão chegou à seguinte gênese: certo dia, Borges descobriu a palavra perfeita, aquela que contém todas as outras, tal o Aleph, acesso infinito aos fatos e circunstâncias do mundo; mas, da mesma forma que encontra a palavra-mor, Borges a perde, a esquece, e o único lugar no qual pode tentar reavê-la é a Biblioteca de Babel.

“As palavras são astuciosas e armam ciladas para nos desafiar. A minha palavra fugiu. Escapou e se ocultou. Eu a construí durante um longo tempo com sílabas articuladas cheias de ternuras e temores”, diz o personagem Borges (Luiz Damasceno), emparelhado com o escritor do conto “A Biblioteca de Babel”.

Em plena maturidade, Borges decide então partir em busca da palavra perdida. A sua mulher, María Kodama (viúva na vida real, personagem interpretada por Flávia Pucci), entende a demanda espiritual, existencial, mas teme por uma viagem sem volta. Respeita-o, no entanto. Deixa-o partir em seu caminho solitário.

Para acompanhá-lo na expedição, Borges escolhe três nomes entre personagens e autores que o marcaram para sempre: o aventureiro inglês “sir” Richard Francis Burton (1821-1890), tradutor de “As Mil e Uma Noites” (interpretado por Fernando Pavão); a sedutora Sherazade (Pucci), contadora de histórias; e Funes (Olayr Coan), aquele que contém em si a memória de todas as coisas e nutre certo ódio pelo seu criador, Borges, que o deixa paralítico sobre uma cama no conto “Funes, o Memorioso” (na peça, surge em cadeira de rodas).

Há um quarto agregado, o jovem guia de Borges (Rodrigo Bolzan), “olhos e movimentos” do escritor cego, espécie de Tirésias, o adivinho das tragédias gregas.

Tal qual Homero ou Gulliver, Borges cumprirá uma rota plena de obstáculos, saindo de Buenos Aires. Brandão joga com o duplo, com espelhos, labirintos -recursos borgeanos.

Para Ferrara, “A Última Viagem de Borges” carimba auto-conhecimento no rito de passagem. “Enquanto ele acha que a palavra que busca é só dele, fica desconectado do mundo. Na hora em que entende que a palavra é comum a todos, aí entra em contato com o cosmos; aí ele pode morrer”, diz Ferrara, 37, que teve apoio do diretor Fauzi Arap no projeto.

Sobre a contemporaneidade do homenageado, Maria Bonomi, 69, fala em “abertura ao mistério”, em “transformação do olhar”.

“O possível e o impossível estão extremamente trançados. Em Borges, a imaginação torna-se uma forma conhecimento. Ao recolocar as questões do destino do homem, ele não substitui a intuição, a paixão e o lúdico na grande aventura que é a vida”, diz a cenógrafa, que já trabalhou com Antunes Filho, Flávio Rangel, Ademar Guerra e agora volta a trabalhar com Ferrara (“Tarsila”).

Para “tocar o intocável no tempo-espaço lúdico”, Bonomi lança mão de projeções. As imagens de filmes (“O Espelho”, do russo Andrei Tarkovski, por exemplo) e quadros (o argentino Xul Solar, o belga Magritte) bailam entre palavras no universo sideral.

“Será um espetáculo muito sensorial. As pessoas vão perder a respiração. Como se pegássemos o público pelas mãos e disséssemos: feche os olhos que nós vamos pular.”

Valmir Santos

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