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Folha de S.Paulo

Antunes Filho dança samba e butô no Festival de Curitiba

15.3.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, terça-feira, 15 de março de 2005

TEATRO 
Mostra de teatro começa com evocação aos laços culturais de Brasil e Japão em “Foi Carmen Miranda”

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Kazuo Ohno com Carmen Miranda dá samba ou dá butô? Os dois, sugere Antunes Filho. Ou de como a efusão desliza para a melancolia, e vice-versa, no curso da vida para a morte.

Antunes assina seu primeiro espetáculo francamente híbrido de teatro e dança, “Foi Carmen Miranda”, no qual celebra os 99 anos do dançarino japonês e lembra o cinqüentenário da morte da cantora luso-brasileira, ambos em 2005.

Vinte e cinco anos após conhecer a obra-homem Kazuo Ohno, num festival em Nancy, na França, e torná-lo referência obrigatória no seu trabalho de ator, Antunes concebe um projeto de evocação que pré-estréia amanhã na abertura para convidados da 14ª edição do Festival de Teatro de Curitiba (FTC) e voa em seguida para o Japão, onde participa de evento dedicado ao mestre Ohno.

“Eu gosto muito dessa brincadeira que fiz. É minha primeira tentativa. Vi muito balé na vida”, diz Antunes, 75, um admirador da dança contemporânea da alemã Pina Bausch. “Gosto muito do ritmo, do tempo, dos silêncios desta “Carmen”. Tem alguma coisa nova aí, só não sei ainda o quê.”

Quem assistiu a Juliana Galdino (“Medéia”) e Arieta Corrêa (“O Canto de Gregório”) em montagens recentes do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) vai deparar com as atrizes em marcações coreografadas, registros de quem convoca mais o corpo que a palavra. Às vezes, desponta o conhecido rigor de Antunes para a disposição de um coro em cena, explorando perpendicularidades.

O teatro antunesiano se retro-alimenta ainda do recurso do “fonemol”, como em “Nova Velha Estória” (1991). Trata-se de fala desconexa, inventa-língua que Galdino dispara num momento ou outro, masculinizada em terno, calça e chapéu brancos, como a figura do malandro de inspiração chapliniana, espera o encenador.

A densidade, o lirismo e as trevas do butô são expressadas sobretudo pela presença da bailarina e coreógrafa convidada Emilie Sugai, integrante da Cia. Tamanduá de Dança-Teatro, fundada em 1995 por Takao Kusuno (1945-2001), nome-chave na introdução no Brasil da dança gestada por Kazuo Ohno e Tatsumi Hijikata (1928-1986) no Japão pós-guerra, nos anos 50.

“Como tenho ascendência japonesa, questionava-me se conseguiria alcançar o universo da Carmen Miranda, artista que pouco conhecia”, diz Sugai, 39. O desafio foi vencido aos poucos.

Completa o elenco a atriz Paula Arruda, recém-ingressada no CPT. Ela surge no início do espetáculo como a Carmen criança e aparece no fechamento brandindo a bandeira brasileira, cena que não incorre em nacionalismo, diz Antunes, antes reafirma os laços culturais entre Brasil e Japão.

“Não estou discutindo o que a Carmen fez ou deixou de fazer com os americanos, com Getúlio Vargas. Discuto o arquétipo do brasileiro vencedor fora das fronteiras”, diz o diretor, de ascendência portuguesa.

Símbolos cênicos
Mas há a apropriação de signos carmenianos, como o vestido prateado, as lantejoulas, os balangandãs, os sapatos plataforma, o turbante ornado com frutas tropicais (bananas à frente), o pandeiro, uma boneca, uma rosa vermelha, enfim, o “kitsch” espetacular do sucesso internacional do mito.

Fazia quase dez anos que Antunes não ia a Curitiba. Ele está na Mostra Oficial ao lado de artistas que influenciou profundamente, casos do ator Luís Melo, que criou na capital paranaense o seu Ateliê de Criação Teatral (ACT) e atua em “Daqui a 200 Anos”, de Anton Tchecov, e do diretor Sérgio Ferrara, que leva à capital paranaense “A Última Viagem de Borges”, estréia de Ignácio Loyola Brandão na dramaturgia.

Em meio ao baile de máscaras de “Foi Carmen Miranda”, Antunes e o CPT preparam ainda sua segunda tragédia grega, “Antígona”, de Sófocles, e mais um “Prêt-à-Porter”, o sétimo, ambos com estréia neste ano.

Valmir Santos

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