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Folha de S.Paulo

Arte cigana

23.3.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quarta-feira, 23 de março de 2005

TEATRO 
Para participar do Fringe, companhias que vêm de outros Estados brasileiros se hospedam até em batalhão do Exército 

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba

Em plena manhã de segunda-feira, recrutas de um batalhão de infantaria do Exército carregam móveis do cenário de “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”.

Não se trata de uma ação de despejo ou repressão aos artistas, como na ditadura militar (1964-85). Esse teatro do absurdo, mais nos bastidores do que em público, acontece no Fringe, a mostra paralela do 14º Festival de Teatro de Curitiba (FTC), que segue até domingo.

Elenco e técnicos da montagem da peça do americano Edward Albee estão hospedados no 20º Batalhão de Infantaria Blindada, no bairro Bacacheri, na zona norte curitibana. A quadra do ginásio de esportes local serve de palco para o espetáculo que estréia hoje, sob direção de Hugo Rodas.

O batalhão abriu as portas para cerca de 30 atores e técnicos do Teatro Universitário Candango, ligado à Universidade de Brasília. Vieram apresentar quatro espetáculos no festival, um deles na própria “casa” dos militares.

É um exemplo do jogo de cintura necessário a conjuntos de outros Estados participantes do Fringe, um caldeirão com cerca de 180 peças. Em suma, uma batalha por visibilidade. No caso do batalhão, civis contracenam o tempo todo com soldados fardados e armados.

“Pensava encontrar um ambiente repressivo, por causa da relação de censura dos militares com o teatro brasileiro. Mas fomos tratados com atenção e educação”, diz o ator João Leal, 23, de “Quem Tem Medo…”.

Até a marcenaria do Exército foi colocada à disposição para construir os tablados usados no espetáculo. Mas a convivência implica regras. O café da manhã (incluído na diária de R$ 8) é servido entre 5h30 e 7h40, e há áreas restritas à circulação dos atores. Nada que comprometa o direito de ir-e-vir. Não há toque de recolher.

Já a dupla de atores do grupo baiano Cangalho (“Chão de Dentro”) conseguiu pousar em casa de amigos de Curitiba que conheceram em Recife, durante um encontro teatral. Leonardo França e Maurício Assunção foram convencidos a participar do Fringe e para cá desceram. “Colocamos o cenário num carrinho de encaixe e viajamos por quatro dias, de Salvador até aqui”, diz Assunção, 25.

A Cia. de Teatro Lua, de Fortaleza, ergueu produção cara para os padrões do Fringe. Para apresentar uma sessão diária da comédia “As Bondosas”, durante os dez dias do evento, gastou cerca de R$ 6.000. Vale a pena? Não, afirma o ator e diretor Ueliton Roncon, 40. “Visto de Fortaleza, o Fringe tem uma imagem fantasiosa. A mídia vende como o melhor festival de teatro do país, e a gente é atraído pelo canto da sereia.”

Ele representa uma parcela de grupos que volta frustrada. Um erro estratégico, diz Roncon, é que o teatro escolhido fica fora do circuito, é pouco conhecido.

Na mostra paralela, cada companhia paga à organização R$ 50 por apresentação em teatro convencional ou R$ 30 em espaço alternativo. Para a maioria, a bilheteria é a única salvaguarda.

Espetáculos de rua não pagam taxa. A equipe de “Exceção ou Regra”, projeto de formação UFMG, dormiu num albergue da juventude. Como emplacaram sessão extra, amanhã, ficam por mais alguns dias à própria custa.



O jornalista Valmir Santos, o crítico Sergio Salvia Coelho e a repórter fotográfica Lenise Pinheiro viajam a convite do 14º Festival de Teatro de Curitiba 

Valmir Santos

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