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Folha de S.Paulo

Walmor Chagas critica poder da imagem

16.3.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quarta-feira, 16 de março de 2005

TEATRO 
Ator volta pela segunda vez à dramaturgia em “Um Homem Indignado”, monólogo em que critica a invasão dos “reality shows”

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

É uma peça semibiográfica, tanto que o gaúcho Walmor Chagas, 74, oscila entre o “ele” e o “eu” em vários momentos da entrevista. Fala sobre “Um Homem Indignado”, sua segunda experiência com dramaturgia -a outra foi “Isso Devia Ser Proibido”.

No monólogo que estréia amanhã no CCBB-SP, um ator veterano ruma para a morte anunciada, mas, antes, brada a morte da palavra em detrimento da imagem.

Dirigida pelo cineasta Djalma Limongi Batista, a encenação se apropria de recursos audiovisuais para criticar o poder da imagem na voga do “reality show”. Chagas “contracena” com Zé Celso e Ítalo Rossi por meio de vídeo.

Com 55 anos de palco, também homem de TV, Chagas critica o “Big Brother” e analisa o governo Lula. Para a gestão petista, o ator desarma o ceticismo.


Folha – Numa passagem, o Velho fala que aprendeu a fazer teatro por meio da literatura. Hoje, seria por meio da TV. Esse é o conflito?

Walmor Chagas
 Exatamente. Ele foi educado por meio da palavra. Hoje, quem educa é a imagem. Acredita que a imagem se tornou tão importante que arma um estúdio para filmar, como se fosse um “reality show”, no qual as pessoas morrem em cena. Esses programas são de uma morbidez danada, as pessoas ficam confinadas. Mesmo que tenha fantasia, bebida, comida e até um prêmio de R$ 1 milhão, é uma prisão. Ninguém diz, ninguém está a fim de ser contra a Globo, contra o público do mundo inteiro que acha o “reality show” genial, porque no “Big Brother” as pessoas dançam, trepam em cena, se casam… Essa é a destruição que o império americano faz contra a gente. Há uma correlação na peça quanto à destruição dos incas pelos espanhóis, que acabaram com aquela civilização. O [conquistador Francisco] Pizarro de agora, o Bush, quer cortar a cabeça das pessoas para tomar a terra delas.

Folha – A indignação converge para uma morte anunciada. Sinal de que não há saída?

Chagas
 Não tenho esperança alguma. Nós estamos indo para o abismo. Quem se atirou do décimo andar, por mais que vá passar pelo oitavo, acha que está tudo bem. O Velho sabe que está tudo mal e que irá se esborrachar.

Folha – O protagonista não vê saída nesta era da imagem, mas o próprio espetáculo se apropria dela. Um cineasta assina a direção, você atua na TV. Não é contraditório?

Chagas –
 É, claro que é. O público vai ver a contradição. Eu uso a imagem porque falo mal dela. A imagem já é a linguagem atual. Se não tiver, não interessa muito. Os espetáculos atuais fazem sucesso porque são os atores ao vivo da televisão em peças matrimoniais ou porque são espetáculos que também buscam uma imagem no palco, não estão na palavra.

Folha – Qual sua opinião sobre a Lei de Fomento ao teatro em SP?

Chagas
 Ainda é muito fraca a política cultural que existe, e, quando existe um pouco, acaba. É um desinteresse criminoso dos governos federal, estadual e municipal não darem ao teatro o suporte financeiro que ele precisa. Detalhe importante: todos os governos têm medo do teatro, porque é ao vivo. O ator pode cair na asneira de dizer verdades, fazendo tremer as bases políticas.

Folha – E o governo Lula?

Chagas
 Eu acho bom, ótimo, esperançoso para todos nós. Não acredito que [José] Dirceu e todas essas pessoas que viveram e sofreram a revolução, que tinham uma idéia socialista para o mundo, vão deixar passar em branco. Nem que seja na última hora, nem que dêem um golpe de Estado nas vésperas das eleições, eles vão decretar uma reforma agrária. Ou será que vão querer sair com o rabo entre as pernas daqui a dois anos? Tem muita gente com vontade de tirar o Lula. A Folha, então, parece que quer vê-lo na forca, uma postura que não tinha com Fernando Henrique Cardoso.



Um Homem Indignado
Onde:
 CCBB-SP (r. Álvares Penteado, 112, centro, tel. 0/xx/11/ 3113-3651) 
Quando: estréia amanhã (convidados); de qui. a sáb., às 20h; dom., às 19h; até 22/5 
Quanto: R$ 15
 

 

Valmir Santos

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