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Folha de S.Paulo

Antunes Filho desenterra a tragédia grega

19.5.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 19 de maio de 2005

TEATRO 
Em “Antígona”, que pré-estréia hoje, diretor põe deus Baco para reger a luta por liberdade no espaço da morte

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

O caixão é um objeto recorrente na obra de Antunes Filho. De “Romeu e Julieta” (84) a “Drácula e Outros Vampiros” (96), passando por “Vereda da Salvação” (93), estão lá os cadáveres da aventura humana em que procura converter todo o seu teatro.

Em “Antígona”, que pré-estréia hoje no Sesc Anchieta, em São Paulo, o diretor “ressuscita” os personagens. Os corpos do rei Creonte e das irmãs Antígona e Ismene são retirados das gavetas de uma espécie de mausoléu e trazidos à cena.

Na peça de Sófocles (século 5º a.C.), a protagonista, por ordem de Creonte, é impedida de enterrar o corpo de seu irmão, Polinices, morto em duelo com outro irmão, Etéocles. Antígona transgride a lei e é condenada a ser enterrada viva numa caverna.

Na perspectiva de Antunes, há um deus a guiar esse enredo: Dionísio (ou Baco, em latim). De seu nicho, à esquerda do palco, ele dispara a sirene, os sinos. E também contracena, um tanto cabisbaixo, como a alertar que os tempos não são de alívio.

A seguir, trechos da entrevista de Antunes à Folha.

 
Folha – No espetáculo, Antígona e Creonte soam mais equilibrados. Não é a mera disputa da heroína, em defesa da justiça absoluta, contra o seu antípoda.

Antunes Filho –
 Eles têm contradições. Só que dou muito mais valor a ela, evidentemente. Eu gosto dela, porque é muito contemporânea. Você vê o mundo aí estourando o tempo inteiro, as mulheres-bomba. O instinto de liberdade antecede o instinto de sobrevivência. É isso que eu quero dizer através de Antígona. A lei não escrita é o instinto, está no DNA. Já o Creonte, ele é das regras, quer regular. Ele está certo no seu erro, no erro dos homens, na falácia. Ele representa todas essas leis que estão aí, o Congresso, os acordos que contrariam o instinto superior do homem, que é a liberdade.

Folha – Quando Creonte discursa preocupado com os rumos de Tebas…

Antunes
 Há um certo altruísmo nisso…

Folha – Ele está preocupado com as raízes amaldiçoadas da família de Antígona, fala em preservar a nação.

Antunes
 Ele está preocupado com as responsabilidades, mas esse altruísmo é perigoso, é assassino. Os grandes fascistas que existem no mundo são altruístas, de certa maneira. Tenho medo de qualquer tipo de altruísmo.

Folha – O mausoléu cenográfico é, ao mesmo tempo, o espaço da morte, da memória e do museu?

Antunes
 É tudo isso. E também o espaço do inconsciente, do porão. Não é acrópole [local mais alto das antigas cidades gregas], é necrópole [cemitério].

É bonita essa idéia de que Baco está sempre representando em “Antígona”, retirando as pessoas dos seus caixões e lhes dando vida para representar. São os arquétipos. Eu gosto muito da sirene que ele dispara. É um alerta. “Gente, acorda, acorda, estamos em perigo!” É uma espécie de despertador. Já usei isso em “Nelson Rodrigues, o Eterno Retorno” [81].

Folha – Aliás, há vários signos que retornam em sua obra. Como a movimentação do coro, o uso de chapéu, os caixões…

Antunes
 A turma fala das minhas marcas. Adoro guarda-chuva, por exemplo [foi descartado em “Antígona”]. Não o uso apenas como elemento estético, mas dramático, psicológico. Eu gosto de abafar o drama, pôr em ebulição. Dá mais intensidade interior. Não é por esteticismo babaca.

Folha – Você diz que quer fazer “Antígona” para a molecada. Como pretende sincronizar o tempo acelerado do jovem com o clássico?

Antunes
 Quero que o jovem se interesse. Não cortei uma metáfora, não soneguei nada. Vai ser ótimo. Ele vai ver Creonte de um lado e Antígona de outro. São duas línguas. É a verdadeira dialética que o jovem precisa aprender. Os valores estão aqui e lá. Não é falar: “Isso está certo, isso está errado”. Pode até torcer por um lado, mas tem que ser dialético. Eu não consigo fazer uma coisa que não tenha um profundo sentindo humano. A discussão sobre a aventura humana, isso me interessa, eu gosto. Fora disso, é bobagem.

Folha – Você sempre bateu na tecla da voz em cena. Qual o estágio?

Antunes
 É uma questão técnica dos atores. Eles são flautas falando a língua portuguesa, que é tão bonita. A tragédia é “mélos”, você não concebe tragédia sem melodia, sem música. A língua portuguesa é muito maltratada. Criamos uma série de exercícios para chegar onde estamos. Isso pode ser chamado de método, mas não quero consagrá-lo, quero que o método se dane. É muito mais importante os atores terem uma cultura de futuro, porque vou morrer uma hora e eles é que têm que passar isso adiante. No Brasil, sempre se falou da cultura da projeção de voz. Não quero mais a projeção, quero a ressonância.

O que você acha mais importante, um espetáculo meu ou esse tipo de cultura que dou aos atores? As pessoas cobram uma coisa, eu estou em outra. O espetáculo acaba, tchau. A cultura fica.

Folha – “Fragmentos Troianos” [99], “Medéia” [2001/2002] e agora “Antígona”. Essa trilogia foi traçada intencionalmente? A primeira tinha como pretexto o crescimento dos conflitos étnicos; a segunda retratou a potência da mãe natureza diante das devastações causadas pelo homem…

Antunes –
 E esta fala de liberdade. No final, os atores vão fazer o agradecimento com a “Nona Sinfonia”, de Beethoven. Eu não tinha traçado isso. Queria era sair do complexo de inferioridade que nós, brasileiros, temos no teatro. Podíamos fazer teatro, menos tragédia, porque não sabíamos. Não temos cultura trágica, como fazer? Tanto que comecei a ensaiar diversas vezes, com elenco bom, e não saía do lugar porque a voz emperrava. Devagar, com os anos, fomos aprendendo. “Fragmentos” ainda era um drama. O fato em si era trágico, mas a forma, não. “Medéia” foi mezzo alichi, mezzo mozarela, mas já tendia para a tragédia. Com “Antígona”, eu digo, puxa vida, é agora: acho que já dá para dar um passo, sair do meu complexo brasileiro de inferioridade cultural.

 

Valmir Santos

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