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Folha de S.Paulo

Autor esboça academia de dramaturgia

28.5.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, sábado, 28 de maio de 2005

TEATRO 
Hersch Basbaum reafirma idéia de uma entidade nacional nos moldes da ABL 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

A idéia vem em banho-maria desde 2003, mas agora o ex-diretor de marketing da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (2000-2003), Hersch Basbaum, 66, também ele inclinado à escrita para teatro, se diz mais articulado para a criação da Academia Brasileira de Dramaturgia.

Carrega debaixo do braço o esboço do estatuto da futura entidade que já teria apoio de Renata Pallottini, Lauro César Muniz, Consuelo de Castro, Maria Helena Küsher e Chico de Assis.

“Na Academia Brasileira de Letras não há dramaturgos desde que Dias Gomes [1922-99] se foi. Outros que escreveram teatro e que lá estão/estiveram não receberam a honraria por terem escrito peças teatrais”, diz Basbaum. Mas é preciso citar o imortal Ariano Suassuna (“O Auto da Compadecida”).

Para Basbaum, ainda há quem encare o teatro como “literatura menor”, porque implica a presença do ator e de outros elementos para fruí-lo. “De todas as artes, é o teatro, sem dúvida, quem melhor apresenta o ethos e o pathos de uma nação e, no conceito de Norberto Elias [sociólogo alemão, 1897-1990], a que traduz o verdadeiro “animus” da nacionalidade”, escreve Basbaum, que em 2002 organizou um congresso de dramaturgia no teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.

A idéia da ABD, diz, é “imortalizar aqueles que escreveram e consolidaram o nosso teatro, cultuar a sua obra e a sua pessoa”. Mais: discutir os gêneros, as relações com o governo, o suporte financeiro, criar um museu de imagem e som, orientar novos autores, organizar concursos etc.

“Gostaria que a escolha de um ocupante de uma cadeira, de tempos em tempos, causasse o mesmo frisson que ocorre na ABL”, diz. No momento, ele busca apoio de entidades e gostaria de sediar a ABD em algum espaço público em São Paulo, cidade onde mora.

A idéia repercute. “Não conheço os fundamentos do estatuto, mas se é para criar um centro de estudos e de difusão da dramaturgia, acho excelente. Agora, a ser um lugar onde se sepultam imortais, não vejo nenhum sentido”, diz o dramaturgo Alcione Araújo, 55, que integra o conselho diretor da Sbat, sediada no Rio.

“Em princípio, nada contra, mas há muito a se fazer pela dramaturgia brasileira antes de fundar uma academia. Como incentivar novos autores, montar novos textos, formar novas platéias e divulgar esses trabalhos. O teatro é mais vivo do que se imagina, e a formação de uma academia pode fortalecer justamente a idéia contrária”, diz Samir Yazbek, 37.

“Muitos autores regionais importantes são pouco conhecidos no eixo Rio-São Paulo e uma academia brasileira lhes daria projeção. Faço votos de que ela vá para frente”, diz Maria Helena Kühner, do Rio. “Se existe a ABL, por que não a ABD? As pessoas dão grande importância a esse tipo de entidade, mas é preciso consenso nacional”, diz Chico de Assis, 71, que integrou os históricos seminários de dramaturgia do Teatro de Arena em São Paulo, nos anos 50 e 60.

“No momento, a dramaturgia brasileira está procurando um caminho. Já teve um, que perdeu em 1964: o brilhante caminho em que buscou o homem e o fato brasileiros”, diz Assis. Seria a academia uma vereda da salvação? 
 

 

Valmir Santos

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