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Folha de S.Paulo

Peça em festival emerge de “pântano moral” de Koltès

2.6.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 02 de junho de 2005

TEATRO 
Lendário grupo alemão Volksbühne leva para Londrina “Luta de Negros e de Cães”, com Dimiter Gotscheff

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Um texto pouco conhecido entre nós do francês Bernard-Marie Koltès (1948-89) com uma companhia lendária da Alemanha, fundada em 1914 na antiga Berlim Oriental. “Luta de Negros e de Cães”, montagem de 2003 de Dimiter Gotscheff para o teatro Volksbühne, faz duas apresentações no Festival Internacional de Londrina na próxima semana.

Mais antigo evento do gênero no país (38 anos), o Filo 2005 começa amanhã e segue por 18 dias com 42 espetáculos balizados por grupos brasileiros e estrangeiros que buscam risco, ruptura e entretenimento. Com misto de cinismo e comédia, “Luta de Negros e de Cães” conta a história de Alboury, protagonista que é uma espécie de Antígona contemporânea: nativo africano, ele reivindica o corpo do irmão morto em um canteiro de obras francês.

Nesse local isolado, Alboury vai ao combate por meio das palavras com o chefe, ambos enredados ainda por uma parisiense desmemoriada e um engenheiro ensimesmado. O elenco é formado por Samuel Finzi, Wolfram Koch, Milan Peschel e Almut Zilcher. O búlgaro Gotscheff, 62, não vem ao Brasil, mas falou à Folha, por e-mail, sobre Koltès e uma Europa que também é abalada por seus Primeiro e Terceiro Mundos.

 
Folha – Na semana passada, a queda de um muro num condomínio nobre de São Paulo matou três operários. A África sugerida simbolicamente por Koltès está muito mais próxima dos países do chamado Terceiro Mundo. Qual a expectativa do sr. em apresentar o espetáculo pela primeira vez fora da Alemanha, em um país com fortes contrastes sociais como o Brasil?

Dimiter Gotscheff – 
Vem-me à mente uma história: um grupo de cientistas projetou vários filmes europeus para uma tribo africana, entre eles “O Gordo e o Magro” e imagens da libertação de Auschwitz. Os africanos riram destas, mas não acharam engraçado o primeiro filme. Até então, eles só tinham visto homens brancos gordos. Ver cadáveres esqueléticos os divertiam muito mais. Eis o nosso presente apocalíptico. É um trabalho que me deixou com dor no estômago: resulta demasiado fácil que no Primeiro Mundo, que se alimenta do terceiro, nos apropriemos dessa temática com uma espécie de desejo canibal, para elaborar a questão e dá-la por encerrada. Isso não funciona. Nossa moral se derrete e temos a obrigação de ser sinceros em relação a nosso lugar no sistema. O fato de termos escolhido um ator branco para o personagem negro resulta dessas reflexões.

Folha – Os personagens parecem todos exilados naquele mundo à parte em que são obrigados a conviver. O sr. acha que a imagem do “exílio” pode ser uma das fortes alegorias para esse texto?

Gotscheff – 
Certamente. Mas é uma ilusão acreditar que existam zonas que ofereçam proteção. Os colonizadores transformaram a África em um gueto, e não se deram conta de que eles mesmos estavam lá dentro. De nada servem muros ou cercas. Há quatro, cinco séculos de história colonial, a destruição das pessoas acontece no interior de seu próprio grupo. É uma das razões para que, inclusive na Europa, comece a haver um movimento semelhante.

Folha – Comente o processo de criação de “Luta de Negros e de Cães”. O que pediu aos atores?

Gotscheff – 
Bernard-Marie Koltès é um dos poucos autores contemporâneos cuja linguagem é suficientemente forte e poética para dar conta de uma temática como essa, apesar de sua breve vida. O risco dessa peça é se tornar demasiado doce. Os atores me ajudaram a colocar o texto de outra maneira e a sair dessa espécie de pântano moral em que me havia metido. Heiner Müller dizia: “Os diretores são mendigos que vivem das esmolas dos atores”.

Folha – O sr. tem algum conhecimento do teatro brasileiro ou latino-americano?

Gotscheff
– 
Uma das minhas maiores experiências teatrais foi com o teatro Piollin, do Nordeste brasileiro [João Pessoa]. Foi grandiosa. Era um tema brasileiro [o espetáculo “Vau da Sarapalha” fez turnê pela Alemanha em meados dos anos 90]. Um homem seminu atuava como um cachorro que sonhava. Isso era só o princípio. De Bogotá, conheço o La Candelária. Queríamos montar um romance de Gabriel García Márquez, mas não conseguimos os direitos. Então eles atuaram como atores tontos, estúpidos, que não conseguem chegar aos textos de Márquez. Genial. Quis contratar o ator do Piollin que fazia o cachorro [Servílio Holanda], para trabalhar na Europa, mas não deu certo. De qualquer forma, mando-lhe meus cumprimentos.

Valmir Santos

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