Menu

Assine nossa newsletter

Folha de S.Paulo

Italianos e Cacá Carvalho sondam Dom Quixote

17.8.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quarta-feira, 17 de agosto de 2005

TEATRO 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Quando Alonso Quijano, o bom, põe-se dentro de uma armadura para cavalgar o mundo em “Dom Quixote”, ele será mobilizado pelo conflito da realidade exterior com aquela que ocupa o vão entre o seu corpo e a couraça de metal -a despeito do fiel contraponto realista do escudeiro Sancho Pança.

A mediação de espaços da realidade e do imaginário fornece algumas pistas para sondar a obra de Miguel de Cervantes à luz, ou melhor, à sombra deste século 21.

Na gramática, como na vida, às vezes uma crase, ou a ausência dela, pode mover moinhos. Daí vem “A Sombra de Quixote”, a primeira produção da Casa Laboratório para as Artes do Teatro, que inicia temporada no sábado no Sesc Belenzinho e integra a Mostra Sesc de Artes Mediterrâneo.

O caminho escolhido pela equipe de criação foi o do questionamento dos interstícios desse conflito, que levou o engenhoso fidalgo a deixar sua casa e perseguir os ideais cavalheirescos de justiça, paz e amor (além de sua amada Dulcinéia), como nos livros que o seduziram.

“Um homem veste armadura para fugir da realidade, mas uma outra realidade o chama, a teatral. Abandona o que endossou para viver um cotidiano nu e cru, em que não há espaço para a fantasia”, diz o ator paraense Cacá Carvalho, 51, que co-assina a direção com o italiano Roberto Bacci, colega da Fondazione Pontedera.

Para adentrar essa realidade “marionética”, neologismo cunhado por Carvalho, a dramaturgia do italiano Stefano Geraci elegeu passagens e temas do romance de 400 anos. Dom Quixote não é denominado, mas está lá, plenamente identificável pelo espectador.

A metáfora da sombra na peleja com a luz é como a dança da literatura com o teatro. “Importa o que a literatura sugere para o teatro e não o que o teatro pode botar de literatura dentro da cena”, diz Carvalho. O trabalho em grupo o faz lembrar de “Macunaíma” (1978), de Antunes Filho.

No galpão 2 do Belenzinho, o diretor de arte Márcio Medina “tirou tudo o que não era espaço” e criou uma caixa mágica, um salão em que o vermelho domina cenografia e figurinos, sob desenho de luz de Fábio Retti.

O conjunto Casa Laboratório surgiu em São Paulo no ano passado, em intercâmbio de Brasil e Itália -a ponte é a Fondazione Pontedera, que existe há 30 anos e com a qual Carvalho colabora há 18. Atina com a estabilidade do núcleo e conseqüente produção, formação e troca com a comunidade em geral. “Queremos o simples, eficaz e transformador”, frisa ele. 



A Sombra de Quixote
Quando:
 estréia sáb., dia 20; sex., sáb. e dom., às 21h. Até 9/10. 
Onde: Sesc Belenzinho (av. Álvaro Ramos, 915, Belenzinho, tel. 0/xx/ 11/3095-9400) 
Quanto: R$ 7,50 a R$ 15
 

Valmir Santos

Quer receber mais artigos como este? Então deixe seu e-mail:

Relacionados