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Folha de S.Paulo

Pesquisadora francesa critica o “terrorismo do texto” no teatro

24.8.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quarta-feira, 24 de agosto de 2005

TEATRO 
Anne Ubersfeld deu palestras na ECA-USP

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Um dos nomes pioneiros na abertura das portas do teatro para a semiologia, sem descuidar da análise acurada da dramaturgia no século 19 ou na contemporaneidade, a pesquisadora francesa Anne Ubersfeld, 87, narra um divisor de águas em sua carreira.

Foi em 1952, quando lhe roubaram uma pasta com material de tese praticamente concluída sobre George Sand (1804-1876).

Diz que foi sua “sorte”. Meses depois, ganhariam corpo na academia as noções do estruturalismo (abordagem que define os fatos lingüísticos segundo sua estrutura e sistema).

Então, a pesquisadora teve mais convicção e mudou o eixo dos estudos para a escrita de mais um compatriota, Victor Hugo (1802-1885), autor de “Os Miseráveis”. Assentou jornada pessoal que atualmente conta seis décadas de dedicação à arte da representação e dos seus signos.

Na semana passada, em sua segunda visita ao país (a primeira aconteceu em 1994), Ubersfeld deu palestras na USP (Universidade de São Paulo).

Em três dias, falou da solidão e do trágico nas peças de Bernard-Marie Koltès (1948-1989); da cena contemporânea e a comunicação; e do teatro do final do século 19.

Em meio à prospecção dos temas, esbanjou simpatia para uma platéia sempre lotada de uma das salas do teatro-laboratório da ECA (Escola de Comunicações e Artes).

Quando citava versos ou lia trechos de peças, o fazia com invejável enunciação de voz para quem nunca atuou.

Ubersfeld veio ao Brasil a convite do Departamento de Artes Cênicas da ECA, com apoio do Consulado Geral da França. Foi ciceroneada pela professora Maria Lúcia Pupo, que a conheceu nos anos 80.

A editora Perspectiva lança, ainda em 2005, o primeiro livro da especialista no Brasil, “Para Ler o Teatro”. Publicado em 1966, o volume 1 de “Lire le Théâtre” foi traduzido pela equipe de José Simões de Almeida Junior.

A seguir, trechos da conversa de Ubersfeld com a Folha, na qual funde suas pesquisas com a vida, sempre com o texto no miolo do olhar.


O SÉCULO 20 “Os problemas colocados pelo teatro no século 20 ainda não estão resolvidos. As tendências atuais não são muito promissoras. O teatro pressupõe um texto no qual cada fala estabelece relação com algo ou alguém. Não tenho nada contra a mímica, por exemplo, mas ela por si não é teatro. A pura performance também não.”

A POÉTICA “Não existem autores dramáticos, mas poetas. Aqueles que não são poetas funcionam apenas para os seus contemporâneos. Depois, caem no mar. É o exemplo do teatro de Alexandre Dumas [1802-1870]. Quando digo poeta, falo de uma certa relação com o movimento de frase, aquilo que o tradutor pode levar em conta. Se um dia o teatro universal desaparecer e restar somente Shakespeare, o teatro não terá morrido.”

O LIVRO “As análises que fiz em “Para Ler o Teatro” continuam úteis. É um livro de cunho didático, cujo conteúdo trata do texto, não da encenação, daí o caráter atemporal. São conceitos suficientemente simples, mas que não haviam sido reunidos.”

A BAGAGEM“Se escrevi meus livros, é porque tive a sorte de passar por uma tríplice experiência: 1) fui pesquisadora em história literária; 2) comecei a trabalhar quando surgiu a semiologia, que me deu elementos de análise textual; e 3) jamais escreveria sobre o teatro se não tivesse feito 19 encenações com meus alunos. Criei e pintei cenários, desenhei figurinos, maquiei atores, operei som, luz etc. Bem ou mal, sei como funciona.”

O TERRORISMO DO TEXTO – “A expressão “terrorismo do texto” me parece uma besteira enorme. O texto é a palavra. Preciso enunciá-la, fazer com que seja escutada. O texto no teatro é de tal ordem que ele nunca é unívoco. Há um verso de Racine [1639-1699], só com monossílabos, no qual se lê: “O dia não é mais puro do que o fundo do meu coração”. Você pode me dizer que não há nada a fazer com esse verso óbvio. Negativo. Ele pode ser dito como uma espécie de confissão [repete em tom grave, baixo]. Ou como uma reivindicação violenta [tom firme, alto]. São diferentes. O terrorismo do texto acontece quando ele é muito ruim mesmo [risos].”

 

Valmir Santos

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