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Folha de S.Paulo

Castorf põe “bonde” nos trilhos da história

14.9.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quarta-feira, 14 de setembro de 2005

TEATRO 
Diretor do Volksbühne traz ao Brasil adaptação de “Um Bonde Chamado Desejo” e recebe Oficina no espaço em Berlim

VALMIR SANTOS
Em Buenos Aires

No início, os atores entoam uma bela e triste canção de Lou Reed sobre um dia perfeito. Duas mulheres estão na cozinha. Ovos mexidos. O cheiro vai impregnar o espetáculo durante cerca de duas horas e meia. Mas a viagem de “Endstation Amerika” não será tão bucólica quanto pintada.

A atmosfera vai pesar ao som de Nirvana. Afinal, estamos falando do norte-americano Tennessee “Um Bonde Chamado Desejo” Williams, encontrado morto há 22 anos asfixiado com a tampa de um tubo de remédios.

E estamos falando de um espetáculo assinado por Frank Castorf, 54, alemão de afinidades marxistas, que não concebe o fazer artístico sem impregná-lo de forte conteúdo político e social.

Faz 13 anos que está à frente do Volksbühne am Rosa Luxemburg Platz, fruto de movimento operário de 91 anos atrás, cravado no centro antigo de Berlim. É um espaço com vocação para resistir (foi destruído na Segunda Guerra), abrigar experimentos radicais já praticados por nomes como os do diretor Erwin Piscator, do dramaturgo Heiner Müller e, doravante, do brasileiro José Celso Martinez Corrêa.

Numa confluência típica de um mundo que se diz globalizado, a semana combina a estréia de “Os Sertões”, do grupo Oficina, hoje, em pleno Volksbühne, e a chegada ao Brasil de “Endstation Amerika” (2000), com apresentações amanhã e sexta, no 12º Porto Alegre em Cena, e dias 23 e 24, no Sesc Pinheiros, em São Paulo.

Prepare-se para ver uma Blanche Dubois (por Silvia Rieger) despida daquela ensimesmada tentativa desesperada de glamour com a qual parecia imortalizada. Ou um Stanley Kowalski (por Henry Hübchen), embrutecido, sim, mas que não perde a ternura, flanando como um moleque irado cujo brinquedo lhe é subtraído: o direito de sonhar.

“Quando lia “Um Bonde”, ficava deprimido por causa da desesperança de seis pessoas que convivem num espaço diminuto”, diz Castorf, sobre o texto, que ganhou última montagem em São Paulo por Cibele Forjaz, da Cia. Livre. “O que fizemos foi tentar dar uma visão mais política e social.”

No texto de 1946, tudo se passa numa espelunca em Nova Orleans. Agora, o lugar é indefinido. O imigrante polonês Stanley, que foi “fazer a América” e casou-se com Stella, agrega ao seu passado, na versão de Castorf, uma luta pela legalidade do Solidariedade, partido que alçou o sindicalista Lech Walesa à política nos anos 80. “Ou seja, o passado dele traz algum pedaço de esperança.”

Em suas referências aos signos de um mundo em colapso, nas suas palavras, Castorf usa imagens em vídeo para espiar a voracidade do “Grande Irmão” orwelliano. Uma câmera posicionada no interior do banheiro da casa capta cenas, diálogos inteiros. Na sala, o televisor retransmite ao vivo para os (tel)espectadores.

Convidado a criar um novo espetáculo, há cinco anos, Castorf decidiu-se por Williams, porque enxergou no clássico potencial para provocar. “Tennessee Wiliams usou drogas, era homossexual, praticamente precedeu o movimento beatnik. Ele não seria um americano modelo na era Bush, por exemplo”, ironiza.

Há uma balança que a montagem faz pender. “Há uns 20 anos, a identidade era medida pelo entorno, pelo que vinha de fora. Hoje, no que já se diz ser o final da estação no sistema capitalista, que leva à depressão, o indivíduo atrai a culpa para si”, diz Castorf.

Durante o Festival Internacional de Buenos Aires, na semana passada, o diretor participou de encontros com o público. Foi indagado sobre o poder do teatro numa sociedade que tem metade da população abaixo da linha da pobreza, como questionou um espectador argentino.

“O teatro tem de que oferecer um ponto de reflexão, advogar e interceder por aqueles que vivem à margem”, diz Castorf, que trabalhou durante dez anos com sem-tetos. Em “Endstation Amerika”, por enquanto, acena com luz no fim do túnel.



O jornalista 
Valmir Santos viajou com apoio da organização do Festival Internacional de Buenos Aires

Endstation Amerika
Quando:
amanhã, às 21h, e sex., às 19h, no 12º Porto Alegre em Cena – reitoria da UFRGS (av. Paulo Gama, 110) Quanto: R$ 20 
Quando: dias 23 e 24, às 21h, no Sesc Pinheiros – teatro (r. Paes Leme, 195, SP, tel. 0/xx/11/3095-9400) 
Quanto: R$ 20 a R$ 40 

Próximo Ato – Mesa-Redonda com Castorf e Fátima Saad (RJ)
Quando:
dia 18/9, às 21h
Onde: Itaú Cultural (av. Paulista, 149, SP, tel. 0/xx/11/2168-1776) 
Quanto: entrada franca

Valmir Santos

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