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Folha de S.Paulo

Espetáculos “off” consolidam espaço em SP

30.10.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, domingo, 30 de outubro de 2005

TEATRO

Associação estima que 60% dos “palcos” são ocupados por grupos alternativos como Jogando no Quintal e Folias

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O público liga para o telefone celular da produção do espetáculo, pergunta se ainda há lugares, o preço do ingresso e, por fim, pede um ponto de referência. A geografia do teatro paulistano mudou nos últimos anos.

Há muito o que ver em outras regiões da cidade, além-bairro Bela Vista. Brotam espaços no centro e nas zonas oeste e leste.

É o vigor do chamado teatro “off”, aquele que transita fora do palcos convencionais, conforme noção importada da Broadway norte-americana.

Presume-se que os grupos alternativos ou experimentais se arrisquem mais na criação dos textos e no modo de encená-los, por exemplo, do que os congêneres do circuito comercial, o dito “teatrão”. O que não impede de ter coisas boas e ruins dos dois lados.

O ator Carlos Meceni, 54, presidente da Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo (Apetesp), estima que dos 98 espaços da cidade, pelo menos 60% são off, “com média de 30 lugares”.

É o caso do Café Sarajevo, na rua Augusta, onde está em cartaz “O Confessionário do Sultão”, com dramaturgia e supervisão de Maurício Paroni de Castro
.
No mesmo Sarajevo, espaço que também é uma casa noturna, o diretor apresentou, em 2004, “Pornografia Barata”, com seu Atelier Teatral Manufactura Suspeita. Também um ano atrás, levou “Confraria Libertina” a um clube de sadomasoquismo, no bairro da Aclimação.

“Na Itália, esse movimento é chamado de “teatro de porão”, no qual os artistas às vezes trabalham em condições precárias, mas com resultados estéticos bastante sofisticados”, diz o encenador Paroni de Castro, 44.

Casos de sucesso
Com premiações e indicações ao Prêmio Shell, o grupo Folias d’Arte montou há quase seis anos o seu espaço, o Galpão do Folias, que fica em Santa Cecília, na região central.

“Tínhamos receio no início, por causa da região degradada, com mendigos, usuários de drogas. Mas isso não nos atrapalhou”, diz a atriz Patrícia Barros, 37.

Depois da popularidade conquistada por “Otelo” (2003), o espetáculo mais recente, “El Dia que Me Quieras”, segue lotando as arquibancadas móveis do galpão, agora com 57 lugares.

“Se me detivesse à questão da violência, do medo, então não iria a nenhum teatro na cidade”, diz a bancária aposentada Maria Cristina Costa, 50, que acompanha as peças do Folias.

Outro caso emblemático da tendência off é a trajetória do espetáculo “Jogando no Quintal”. Atualmente, ele acontece numa escola do Butantã, na zona oeste, para onde arrasta uma invejável “torcida” de cerca de 600 espectadores por noite, todo primeiro final de semana do mês.

Dois times de palhaços-atletas disputam a supremacia nas improvisações que têm de durar segundos e são sugeridas e julgadas pelo público.

A mediação é feita por um árbitro-palhaço que não tem a mínima chance de ser corrompido diante da platéia atenta.

O primeiro jogo aconteceu em outubro de 2002, num quintal da rua Cotoxó, na Pompéia. Havia cerca de 50 espectadores na casa do palhaço César Gouvêa, 33, um dos idealizadores do projeto, ao lado de Márcio Ballas, 33.

Para Gouvêa, a movimentação off reflete um “cansaço” do circuito convencional. “O que é esse circuito? Como sobreviver diante da dificuldade de divulgação?”, questiona.

A Lei de Fomento (cerca de R$ 9 milhões repassados aos grupos desde 2002 pela prefeitura) também serviu de alavanca.

No próximo final de semana, a Companhia Jogando no Quintal comemora o terceiro ano do espetáculo com participação do elenco de “Terça Insana”, cuja carreira também despontou num espaço off por excelência, o Núcleo Experimental de Teatro, N.Ex.T, na rua Rego Freitas, no centro. Meses depois, conquistou o espaço nobre do bar Avenida Club, em Pinheiros.

O conceito de off muda com o tempo. Em 1979, por exemplo, havia um teatro chamado Off no Itaim Bibi, na zona sul, hoje um bairro “in”, de acordo com o produtor cultural Celso Curi, atual diretor do Centro Cultural São Paulo. Há nove anos Curi edita o “Guia Off de Teatro”, em formato de bolso e distribuído gratuitamente (20 mil exemplares).

“O fato de pipocarem tantos espaços é bom, mas o trabalho artístico muitas vezes não consegue incorporar uma boa administração, e o público escorre pelas mãos”, diz Rafael Schiesari, 22, produtor artístico do Galpão Raso da Catarina, na Vila Madalena, que desde 2000 realiza, mensalmente, o “Sarau do Charles”.

Valmir Santos

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