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Folha de S.Paulo

Peça de Mishima lança olhar feminino sobre Sade

13.10.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 13 de outubro de 2005

TEATRO 
Roberto Lage dirige drama do escritor japonês protagonizado por Bárbara Paz e inspirado na mulher do marquês

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

 

A mulher mantém-se fiel a todo custo. O marido passa 18 anos na prisão, acusado pelos crimes de “sodomia e corrupção de costumes”. Tratou mendigas, prostitutas e quejandos com bombons e chicotes. Mas, quando Donatien Alphonse François, o marquês de Sade, é colocado em liberdade, a marquesa Renée o abandona em troca da reclusão de um convento. Por quê? A prisão aliviava o ciúme? A mulher via nisso um auto de fé? Masoquismo?

O escritor japonês Yukio Mishima especula o enigma em “Madame de Sade” (trad. de Darci Kusano), drama que ganha montagem de Roberto Lage em São Paulo, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-SP).

Tomando como base o livro “A Vida do Marquês de Sade”, de Tatsuhiko Shibusawa (1928-87), Mishima intuía que algo incompreensível, mas revelador da verdadeira natureza humana, estava por trás daquele gesto de Renée.

Elegeu-a protagonista, aqui em interpretação da atriz Bárbara Paz, desafiada a outro registro que não o do conhecido talento como comediante. A marquesa surge ao lado de outras duas personagens reais: sua mãe, madame de Montreuil (por Imara Reis), o império da lei e da moral; e sua irmã, Anne (Jerusa Franco), a candura e a falta de princípios. Mishima criou ainda mais três papéis fictícios para projetar um olhar feminino sobre o pensamento de Sade, entre o sagrado e o profano: a religiosa baronesa de Simiane (por Maria do Carmo Soares); a pervertida condessa de Saint-Fond (Tania Castelo); e a criada Charlotte (Denise Cecchi), representante do povo nessa história de nobrezas nem tantas.

Trajes de razão
“Senti-me obrigado a dispensar totalmente os efeitos de cena comuns e triviais e controlar a ação exclusivamente através dos diálogos; as colisões de idéias tiveram que criar a forma do drama; as de sentimentos tiveram que ser inteiramente exibidos em trajes de razão”, diz Mishima no prefácio da peça que escreveu cinco anos antes de cometer o haraquiri (matar-se com uma espada no ventre), em 1970.

Os três atos compreendem 18 anos do século 18, até meses depois da Revolução Francesa. A ação se passa no salão de madame de Montreuil, em Paris. Desenrola-se um jogo de dissimulações e alianças espúrias que Lage recorta para o plano da estilhaçada política brasileira e seus vícios. A criada fica o tempo todo em cena, como se o povo espreitasse constantemente os acordos e discussões da aristocracia. 



Madame de Sade
Quando:
 estréia amanhã (para convidados); sáb. e dom., às 19h30. Até 11/12 
Onde: CCBB-SP (r. Álvares Penteado, 112, centro, tel. 0/xx/11/3113-3651) 
Quanto: R$ 15
 

Valmir Santos

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