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Folha de S.Paulo

“Honestamente” faz mutirão artístico no centro de SP

8.10.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, sábado, 08 de outubro de 2005

TEATRO

Peça baseada em contos de Monteiro Lobato leva 120 criadores ao largo da Memória para discutir uso do espaço público

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Na São Paulo da década de 20, a polícia era dada a combater o “parasitismo urbano”. Até engraxate tinha de apresentar licença aos fiscais da prefeitura para “exercer legalmente a sua profissão”. Enquanto isso, a vestal administrativa era carcomida pela corrupção em seus mais variados graus. Ontem como hoje.

Um recorte da “imoralidade pública” na obra de Monteiro Lobato (1882-1948) inspira a peça “Honestamente”, âncora de uma intervenção coletiva de mesmo nome que ocupa o centro paulistano amanhã, na região do Anhangabaú, com produção do vizinho Instituto Cultural Capobianco.

Cerca de 120 artistas estão envolvidos no projeto que prevê a saída de dois cortejos às 11h, um da Biblioteca Mário de Andrade e outro do Teatro Municipal, que convergem para o Largo da Memória, onde a peça será encenada por volta das 12h de um domingo de ruas mais vazias.

“Honestamente” é resultado de oficina de dramaturgia ministrada pela tradutora Christine Röhrig em 2004. Trata-se de livre adaptação de dois contos de Lobato, “Um Homem Honesto” e “O Fisco”, escritos nos anos 20.

No primeiro, humilde funcionário de repartição pública, que atende por João Pereira, é motivo de chacota na família e entre amigos porque encontra um pacote de dinheiro no trem e o devolve à polícia. Em casa, não suporta a pressão e a zombaria da mulher, uma doceira, e das filhas “desejosas” de tudo que o dinheiro pode. Bem e Mal materializados para um desfecho trágico.

Já em “O Fisco”, o narrador associa a cidade a um organismo humano, no qual os passantes, por exemplo, formam a artéria, e os gatunos são micróbios perturbadores da ordem.

A dramaturgia traz à tona face menos conhecida de Lobato, autor consagrado pelas historias infanto-juvenis.

A relação do morador com a cidade e as fissuras antiéticas nos planos público e privado compõem a narrativa de “Honestamente”, chapiscada pelas denúncias de corrupção que abalam o governo Lula e pelas ações “higienistas” que a gestão José Serra pratica, segundo críticos à sua administração.

“São Paulo era muito diferente no início do século 20, mas a desonestidade não mudou”, diz Röhrig, 47. “A peça é um grito entalado. Basta ver os cidadãos que estão sendo expulsos dos espaços públicos, e os moradores cada vez mais isolados em seus bunkers ou atrás dos vidros fumês.”

Não por acaso, a apresentação tem cume no largo da Memória, espaço praticamente abandonado e um literal mictório público.

Coube ao ator e diretor Alvise Camozzi, 31, italiano que vive em São Paulo, dar liga ao emaranhado de participações em “Honestamente”. Constam os núcleos da Cia. Paidéia de Teatro (dirigida por Amauri Falseti, que já encenara a peça no ano passado); a Cia. Zaum (formada por pacientes do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental da Água Funda, dirigido por Cássio Santiago); e Cia. Elevador de Teatro Panorâmico (de Marcelo Lazaratto).

“O projeto impulsiona o questionamento da nossa relação com o dinheiro”, diz Alvise.

O mutirão artístico soma o maracatu do grupo O Imaginário da Percussão Popular, o coral da Paidéia, a orquestra Olho d’Água e atores e músicos do Centro Cultural Monte Azul.

A intenção é desenhar um percurso trágico por asfalto e calçadas. Antes, serpenteia a serenidade, a festa e a simetria. Ao fim, há a conseqüente implosão da harmonia e vem a última parada do bonde de João Pereira. Tudo por causa de alguns mil-réis.



Honestamente
Onde: largo da Memória, s/ nº, região central (mais informações pelo tel. 0/xx/ 11/3237-1187) 
Quando: amanhã, às 12h. Única apresentação 
Quanto: entrada franca

Valmir Santos

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