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Folha de S.Paulo

Vertigem abre ensaios de seu “Fitzcarraldo” no rio Tietê

24.11.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 24 de novembro de 2005

TEATRO 
Como no filme de Werner Herzog, grupo enfrenta desafios locais e de produção para levar à cena o espetáculo “BR3”

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

O marinheiro de convés Fábio Augusto Soares Vargas, 23, nunca foi ao teatro. Há três anos trabalhando nas obras de rebaixamento da calha do rio Tietê, o teatro vai até ele.

Nascido em Presidente Epitácio (SP), onde costumava cabular aulas para tomar banho num dos braços do rio Paraná, Vargas ensinou um dos atores do grupo Teatro da Vertigem a pilotar o bote (ou voadeira) na peça “BR3”, que, a partir de amanhã, tem ensaios abertos.

Esta fase tem ingressos gratuitos por conta da Lei de Fomento ao Teatro. A data da estréia ainda não foi definida.

A bordo do barco Almirante do Lago, 40 espectadores vão acompanhar as cenas que acontecem na própria embarcação ou lá fora, em pequenas plataformas, estruturas de pontes ou nos terrenos inclinados das margens. São cerca de 4,5 km entre o Cebolão de Pinheiros e o viaduto da rodovia Bandeirantes.

Com dramaturgia de Bernardo Carvalho, estréia do romancista e colunista da Folha no teatro, o espetáculo acompanha a saga de três gerações de uma família de origem nordestina.

Vai do canteiro de obras de Brasília, no final dos anos 50, até o salve-se-quem-puder do tráfico nas periferias dos anos 90, como a de Vila Brasilândia, na zona norte paulistana. No enredo, a voragem alcança ainda a selva, na fronteira do Brasil com Bolívia.
Carvalho integrou extenso processo colaborativo, que teve como eixo a chamada Expedição BR3, realizada em 2004, em que o Vertigem conheceu in loco os territórios e as gentes de Brasilândia, Brasília e Brasiléia (AC).

No mês passado, a reportagem assistiu a dois ensaios das primeiras cenas de “BR3”. É, de longe, a produção mais complexa do grupo, que já venceu desafios na ocupação de espaços como igrejas (“O Paraíso Perdido”, 92), hospitais (“O Livro de Jó”, 95) e presídios (“Apocalipse 1,11”, 2000).

Aqui, não é o Vertigem que determina o espaço, mas o espaço que se impõe. O grupo “negocia” com ele desde agosto. Exemplo: o barco usado nos primeiros ensaios, o Explorer, “descia” o rio sem problemas. Quando foi incorporado o barco oficial (26 m de comprimento x 7 m de largura), descobriu-se que era impossível manobrar com agilidade em alguns pontos em que precisava atracar. Resultado: inverteu-se o curso da navegação, já que é mais fácil “subir” o rio.

Ponta de iceberg da empreitada que remete o diretor Antônio Araújo ao “Fitzcarraldo” (1982), do cineasta alemão Werner Herzog. O filme mostra a obsessiva aventura do personagem-título em levar a ópera para o coração da selva amazônica.

De volta ao trabalhador do Tietê, Vargas sente-se entusiasmado em contribuir com o espetáculo. “Com o teatro, as pessoas vão prestar mais atenção ao rio. O povo da cidade tem nojo, mas é sujeira dele mesmo. Se cada um se conscientizasse, ele estava mais limpo”, afirma Vargas.



Ensaios abertos de “BR3”
Onde:
rio Tietê 
Quando: a partir de amanhã, às 22h; de qua. a sex., às 21h; sáb. e dom., às 20h 
Quanto: entrada franca. Cada pessoa pode retirar dois ingressos na secretaria do Teatro da Vertigem (r. Roberto Simonsen, 136-B, tel. 0/xx/11/ 3241-3132 e 0/xx/11/7608-5338), de seg. a sex., das 14h às 18h, e sáb., das 10h às 14h. 40 lugares. Classificação: 12 anos. 
Duração: 180 min. Haverá transporte do público até o local, com saídas uma hora antes da peça. O ponto de encontro fica na r. Dr. Leo Ribeiro de Morais, 66, esq. com marginal Tietê, estacionamento do Núcleo de Ação Educativa (NAE). Se chover, não haverá cancelamento

Valmir Santos

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