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Folha de S.Paulo

Armazém cede à “castidade obscena” de Nelson Rodrigues

1.12.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 01 de dezembro de 2005

TEATRO

Cia. estréia no Rio “Toda Nudez Será Castigada”, primeira incursão pela obra do autor marcado pela obsessão

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

“Herculano, quem te fala é uma morta. Eu morri. Me matei.” A peça começa pelo fim, com a voz de Geni rodando no gravador. Sucedem as cenas em flashback, como se os dois personagens “conversassem” sobre a história deles, a do homem que, “por humanidade”, quer tirar a musa-prostituta da zona, ou do “rendez-vous”, e tudo termina em tragédia.

A estrutura narrativa de “Toda Nudez Será Castigada” (1960), que sustenta uma espécie de memória seletiva, seduziu a Armazém Cia. de Teatro em sua primeira vez com Nelson Rodrigues (1912-1980).

O repertório da Armazém é caracterizado pela dramaturgia própria, feita de parcerias do diretor Paulo de Moraes com o poeta Maurício de Arruda Mendonça (como nos últimos “Pessoas Invisíveis” e “A Caminho de Casa”). Exceção feita a “Esperando Godot”, obra-prima do irlandês Samuel Beckett, montada assim que a companhia migrou de Londrina para o Rio de Janeiro, em 1998. Agora, é hora e vez de Nelson.

“Toda Nudez Será Castigada” estréia hoje no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio.

O viúvo Herculano é chefe de família quarentão. Anda depressivo. Seu filho, Serginho, 18, tenta o suicídio e faz um pacto com o pai para que jamais substitua sua mãe por outra.

De olho no dinheiro de Herculano, seu irmão, o ardiloso Patrício promove a aproximação entre Geni e Herculano, “semi-virgem” que estaria condenado “ao papai-e-mamãe de luz apagada”.

Geni vai romper a castidade da família, para desespero das três tias solteironas que também cuidam de Serginho (por Sérgio Medeiros) na mesma casa -uma delas lhe dá banho religiosamente, enquanto as outras assistem. Afinal, “o casto é um obsceno”, sustenta Patrício.

“A Geni subverte por meio do sexo”, diz Patrícia Selonk, 37, que interpreta o papel. Geni é movida por instinto, pulsão de vida, ao mesmo tempo que acha que vai morrer de câncer, obsessiva com a ferida que surgirá no seio (praga rogada pela mãe).

Não é por acaso que Nelson Rodrigues adota para a peça o subtítulo “obsessão em três atos”. O fantasma da morte ronda o tempo todo enquanto o desejo se impõe, mas com ele a impossibilidade amorosa.

“A trama parece se construir toda na cabeça do Herculano”, diz Moraes, 40. O encenador vê no viúvo interpretado por Thales Coutinho um herói expressionista, oscilando entre ciência e a fé. Daí a sua interlocução pendular com o médico e o padre. Brande os princípios, mas sucumbe à carne. A hipocrisia e o cinismo também campeiam.

O autor conduz Herculano como protagonista, mas, lá pelas tantas, converge para Geni, “expondo a trajetória clássica de ascensão e queda de uma heroína”, segundo Moraes.

São personagens universais, inclusive os coadjuvantes, desprendidos de uma época, de um lugar. “Não montamos uma tragédia carioca, mas uma obsessão em três atos”, diz o diretor.

A cenografia sugere a gaveta da memória de Herculano por meio de portas giratórias que compõem no palco uma caixa inteiriça de acrílico e ferro. As transparências marcam os vitrais coloridos da igreja e do bordel. Sagrado e profano.



Toda Nudez Será Castigada 
Onde: CCBB-RJ (r. Primeiro de Março, 66, centro, tel. 0/xx/21/3808-2020)
Quando: estréia hoje, às 19h; de qua. a dom., às 19h. Até 19/2
Quanto: R$ 10

Valmir Santos

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