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Folha de S.Paulo

Monólogo de Koltès traz “estrangeiro” à deriva

17.2.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

TEATRO 
“A Noite Antes da Floresta” estréia com direção de Francisco Medeiros

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O embate de dois homens em “Na Solidão dos Campos de Algodão”, contrapondo mercado e desejo, e a trajetória de um jovem assassino em “Roberto Zucco”, que depois comete suicídio, são as histórias que o espectador brasileiro mais conhece do dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès, sobretudo depois das elogiadas encenações de Gilberto Gawronski, no Rio, e de Nehle Franke, alemã radicada no Brasil, em Salvador.

Chegou a vez de “A Noite Antes da Floresta” (“La Nuit Juste Avant les Forêts”; na tradução literal, “A Noite Logo Antes das Floresta”), monólogo com assinatura do diretor Francisco Medeiros e interpretação de Otávio Martins. A montagem estréia hoje no Espaço dos Satyros, em São Paulo.

O texto de 1977, anterior às obras que o consagraram, já apontava as marcas de uma dramaturgia ligada a questões universais como a exclusão, a solidão e o desejo do homem contemporâneo. O próprio Koltès o encenou pela primeira vez naquele mesmo ano, no Festival Off de Avignon, na França. A partir dali, ele despertou a atenção da crítica e do público, sendo considerado um dos autores europeus mais importantes da segunda metade do século passado.

“A Noite Antes da Floresta” seria um “quase monólogo”, como definiu a pesquisadora francesa Anne Ubersfeld durante palestra na USP em 2005. Um homem expõe sua angustiante condição de estrangeiro (não só imigrante, mas de não-pertencimento à sociedade que o põe à margem por meio de preconceitos de toda ordem). Ele conversa o tempo todo com um interlocutor que não aparece, mas pode ser e estar projetado no espectador da peça ou no duplo do próprio personagem.

Sob chuva, numa esquina de um centro urbano qualquer, esse homem busca um rumo (pode ser o quarto de um hotel); busca afeto (na relação com o outro); e busca principalmente tocar o que seria a humanidade.

“Eu fui feito para a defesa, eu ia me dedicar totalmente pra isso, eu ia ser o executor no meu sindicato internacional, defendendo os filhotes que não são muito fortes, aqueles cujas mães deixam andando por aí e se viram sozinhos”, diz o personagem em um momento do seu jorro verbal, na tradução de Martins. O texto da peça é como que uma longuíssima “frase”, com cerca de 60 páginas, que não encontra ponto final.

“As situações enunciadas pelas falas não são de hermetismo, mas de poesia sem versos. Há ritmo, melodia, sonoridade. Você encara a palavra com o efeito físico que ela provoca em si e no outro”, diz Medeiros, 57.

Lápide
O gestos e movimentos de Otávio Martins foram estudados com atenção. “Quando iniciamos os ensaios, há quatro meses, a primeira percepção foi abordar o texto pelas sensações do corpo”, diz Martins, 35, que raspou o cabelo e emagreceu nove quilos para compor o personagem.

Ele atua sob um pedaço de chão cenografado, rachado, a sugerir ainda um asfalto, um bueiro ou “uma lápide”, conforme o intérprete. A concepção é de Maria Duda, com desenho de luz de Domingos Quintiliano, trilha de Aline Meyer, figurino de Elena Toscano e preparação de corpo de Thiago Antunes .

Medeiros afirma que recorreu a duas imagens no trabalho corporal: um ser à deriva e um ser imerso num labirinto.

“O labirinto tem limites estabelecidos, mas não tem rumo. Já à deriva, não se tem rumo ou limites, fica-se ao sabor das forças externas”, diz o diretor.



A Noite Antes da Floresta
Onde:
Espaço dos Satyros (pça. Franklin Roosevelt, 214, centro, tel. 3258-6345) 
Quando: estréia hoje, às 21h30; sex. e sáb., às 21h30. Até 8/4 
Quanto: R$ 20 e R$ 5 (classe teatral)

Valmir Santos

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