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Folha de S.Paulo

SP acolhe intimismo de Clarice Lispector

2.7.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, domingo, 02 de julho de 2006

TEATRO 
Peça “Clarices” está em cartaz no CCSP e “Se Eu Fosse Eu…” estréia no sábado 

Espetáculos se inspiram nas palavras da autora de “A Paixão Segundo G.H.” e experimentam silêncios e improvisos nos palcos 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Para Clarice Lispector (1925-77), escrever assenta mais tentativa do que realização, daí também o prazer. “Pois nem tudo eu quero pegar. Às vezes, quero apenas tocar. Depois, o que toco apenas floresce e os outros podem tocar com as duas mãos.” 

O teatro que o diga. São Paulo tem mais duas montagens inéditas inspiradas na obra da autora e com vocação para experimentar em cena. Há “Clarices”, com a cia. As Graças, que estreou sexta no Centro Cultural São Paulo. No sábado que vem, é a vez de “Se Eu Fosse Eu…”, primeiro trabalho da cia. Simples de Teatro, no Tusp. 

Entre as produções recentes que investiram nesse diálogo lítero-dramático, estão “A Pecadora e os Anjos Harmoniosos”, encenada por José Antônio Garcia, cineasta devotado à autora; “A Paixão Segundo G.H.”, por Enrique Diaz; e “Que Mistérios Tem Clarice?”, por Luiz Arthur Nunes. 

Segundo a atriz Flávia Melman, 27, da cia. Simples, a recorrência com que o teatro e outras artes visitam o universo de Lispector aponta, em muitos casos, para “regras sobre o existencialismo”. É disso que “Se Eu Fosse Eu…” quer fugir. 

“No fundo, percebemos que Clarice é muito irônica em relação ao recorte existencial. Ela falava muito sobre, mas era também uma dona-de-casa, criava os filhos, tinha medos”, afirma. 

O espetáculo é livremente inspirado no romance “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, publicado em 1969, um ano depois que o seu diretor, Antônio Januzelli, começou a dar aula na Escola de Artes Dramáticas. 

“É a conjugação da literatura da Clarice, esse corpo sem pele, totalmente à mostra, com o trabalho que desenvolvo no Laboratório Dramático do Ator [núcleo da USP], onde assimilamos que limpar é melhor que acumular quando se trata de buscar o ser”, diz Januzelli, 65, que já experimentou tal despojamento em “O Porco” (2005), solo de Henrique Schafer. 

“Se Eu Fosse Eu…” expõe em fluxo não-linear, como nas páginas, os conflitos íntimos da protagonista, Lóri, para alcançar Ulisses e se deixar levar pelo sentimento amoroso. 

Guiados pelas “mãos-mestres” de Clarice, como diz Melman, os demais atuadores também emendaram suas dramaturgias pessoais. São narrativas fragmentadas ou improvisadas por Daniela Duarte, Luciana Paes de Barros e Otávio Dantas. 

“O desafio é: como ser íntimo na arte sem ser pessoal.” Essa esfera do intimismo também é pretendida pela cia. As Graças, que vem de se apresentar em ruas e praças. 

“Quando me convidaram, as atrizes disseram que queriam um trabalho mais voltado para o silêncio, exercitar um outro lado do grupo”, diz Vivien Buckup, 49, sobre “Clarices”, parceria inaugural com As Graças. 

Seu nome é mais comumente associado à direção de movimento de atores, o que às vezes, segundo Buckup, pode indicar prolongamento da direção, ofício que reveza na carreira desde meados dos anos 90, com “Cenas de um Casamento”, de Ingmar Bergman. 

Com roteiro de trechos de obras, crônicas e depoimentos da autora, Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Daniela Schitini surgem como três vozes ou faces do universo ficcional de Lispector; três velhinhas que, em meio ao cotidiano, trocam lembranças, paixões e também desejos secretos. 



Clarices

Quando: sex. e sáb., às 21h; e dom., às 20h; até 6/8 
Onde: Centro Cultural SP (r. Vergueiro, 1.000, tel. 3883-3400) 
Quanto: R$ 10 

Se Eu Fosse Eu… 
Quando:
estréia dia 8/7, às 21h; sáb., às 21h, e dom., às 20h; até 13/8 
Onde: Tusp (r. Maria Antônia, 294, tel. 3255-7182) 
Quanto: R$ 15 

Valmir Santos

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