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Folha de S.Paulo

Cia do Latão atualiza fábula de Brecht

9.8.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, quarta-feira, 09 de agosto de 2006

TEATRO 
Encenação de “O Círculo de Giz Caucasiano” discute ocupação da terra; diretor crê que socialismo está “em reconstrução’ 

Cinqüentenário da morte do autor alemão é lembrado com outras montagens e debates que envolvem também a obra de Górki 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

A militância política pode estar em baixa, mas dá sinais de sobrevida no teatro. Apesar da crise das utopias, do esfacelamento do socialismo e da arte engajada, grupos do país seguem devotos ao pensamento e à obra de Bertolt Brecht (1898-1956) na tentativa de interpretar a realidade.

No próximo dia 14 se completam 50 anos da morte do autor alemão, referência mundial do teatro político no século 20 e, ao que se vê, ainda neste que corre. É reverenciado por grupos como Galpão (MG), que montou “Um Homem É um Homem” em 2005; Companhia Fábrica São Paulo, que anuncia um ciclo para relacioná-lo com a obra de Górki; e Grupo dos 7, que articula suas canções com sambas-de-roda no espetáculo “Teatrosamba do Caixote”, em cartaz em São Paulo.

A efeméride fez com que a Companhia do Latão, das mais brechtianas e marxistas equipes do país, interrompesse período de seis anos com dramaturgia própria e voltasse à fonte em que se autobatizou.

Convidado pelo CCBB a dirigir um Brecht, o diretor Sérgio de Carvalho atravessou a ponte aérea com “O Círculo de Giz Caucasiano” e estendeu a empreitada ao próprio grupo e a artistas ligados a outros coletivos, como o Folias d’Arte, a Cia. São Jorge de Variedades, o Núcleo Argonautas e o Teatro do Pequeno Gesto (RJ). A montagem é apresentada hoje para convidados e entra em cartaz amanhã no CCBB do Rio. O Latão já montou “Santa Joana dos Matadouros” (98) e “Ensaio sobre o Latão” (97).

Traduzida no anos 60 por outro poeta, o anticomunista Manuel Bandeira, “O Círculo de Giz Caucasiano” foi concluída por Brecht em 1945, final da Segunda Guerra, quando estava exilado nos EUA, também ali perseguido por causa dos ideais comunistas.
“O Bandeira aceitou porque sentia o texto como uma crítica fortíssima à desumanização”, afirma Carvalho, 39, que pôs em cena um espetáculo com dez atores e 21 canções originais (por Martin Eikmeier).

Atualidade
“O Círculo” abre e fecha falando de terra. Questiona em que medida sua ocupação é justa ou legal, prato cheio para uma companhia que busca pensar Brecht no contexto do capitalismo atual e do Brasil, sociedade da periferia do mundo, no dizer de Carvalho.

No prólogo original, dois grupos de camponeses soviéticos discutem quem vai ficar com a terra: se aqueles que nela trabalham ou os antigos donos que a abandonaram. O início da peça traz uma interação em vídeo com participação do grupo Filhos da Mãe Terra, formado por crianças e adolescentes do assentamento Carlos Lamarca, do MST, em Sarapuí (SP).

Em seguida, vem a fábula sobre Gruxa (Helena Albergaria), a criada que decide abdicar de tudo para cuidar de um menino cujo pai, um governador, é assassinado e cuja mãe o abandona após a revolta local. “A Gruxa age não por uma espécie de heroísmo, mas pela tentação da bondade”, diz Carvalho.

Anos depois, baixada a poeira política, a mãe retorna e quer reaver o filho. Surge o juiz Azdak (Ney Piacentini). Com fama de corrupto e beberrão, “um revolucionário frustrado”, decide quem vai ficar com a criança. Ele traça um círculo de giz no chão, coloca o menino no centro e pede às duas mulheres que o puxem cada uma delas por um braço. Aquela que o tirasse do círculo ficaria com a guarda. “Azdak encarna o desejo de uma era em que a justiça fosse verdadeira”, diz Carvalho.

A contradição, recurso tão afeito ao teatro épico, também espreita a ocupação do CCBB pela Cia. do Latão. O braço cultural de uma instituição bancária serve como plataforma para comemoração dos dez anos do grupo, em julho de 2007. Estão previstos lançamentos de sete DVDs, três livros e o volume dois do CD “Canções de Cena”.

“Quem produz arte dentro de um ambiente em que ela está sujeita a compra e venda, estabelece algum nível de diálogo com o mercado. O importante é mostrar a contradição dessa produção com esse mercado. Fingir que ela não existe é também sair do debate. Como artista de esquerda, não posso sair do centro radiador desse sistema. Não queremos abastecê-lo com produtos culturais, mas trazer reflexões artísticas na contramão”, diz Carvalho.

O diretor não considera que o socialismo tenha acabado. “É um momento de reconstrução e acúmulo de forças do projeto socialista.” Para Carvalho, Brecht não tinha a ilusão do Estado socialista, mas de um movimento humanístico. “Ele escreveu “O Círculo” nos EUA, em pleno olho do furacão do capitalismo e da indústria cultural em formação. É um sujeito perturbador por isso, propõe as coisas dinamicamente.” 

Valmir Santos

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