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Folha de S.Paulo

Cirque du Soleil funde medieval e moderno em “Saltimbanco”

2.8.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, quarta-feira, 02 de agosto de 2006

TEATRO 
Em sua primeira turnê pela América do Sul, a companhia mostra em São Paulo e no Rio o espetáculo mais antigo em seu repertório

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Gerações acostumadas a ouvir e ver as aventuras de quatro animais, jumento à frente, a desbravar a cidade grande para virar artistas agora se deparam com um garoto nascido entre os néons da metrópole e, nela, tentado a melhorar a relação com o mundo. “Os Saltimbancos” de Chico Buarque, inspirado na escrita dos irmãos Grimm do conto “Os Músicos de Bremen”, dá passagem ao “Saltimbanco” singular do grupo canadense Cirque du Soleil.

Quatorze anos após sua estréia, em 1992, o mais antigo espetáculo do repertório da companhia multinacional serve como cartão de visita ao Brasil, com temporadas inéditas em São Paulo e no Rio, a ocorrer, respectivamente, entre esta semana e o início de dezembro -392 mil pessoas devem assistir ao espetáculo no país.

Nestas páginas, estão informações sobre algumas das 12 partes do espetáculo, um exemplo do moderno projeto de entretenimento ao vivo que o Soleil finca mundo afora.

Na concepção do diretor italiano Franco Dragone, que criou uma dezena de shows para a companhia entre os anos 1980 e 90, o que “Saltimbanco” sugere cenicamente é uma cidade imaginária com seus heróis anônimos, alguns saltimbancos, artistas que atuavam ao ar livre na Idade Média.

Abre com o número “Adágio”, em que uma família de origem ucraniana, os Vintilov, apresenta movimentos de contorcionismo e equilíbrio. Pai, mãe e filho -Maxsim, 10, que já passou metade da vida no posto que era da irmã, escalada para outra montagem- como que protagonizam o nascimento do garoto imediatamente engolfado pela vida adulta.

A partir daí, sucedem os quadros nos quais nem sempre se notará a trajetória desse personagem. Cabe ao espectador emendar sua própria narrativa, jamais linear, em meio a jogos de luz, som e figurinos multicoloridos, além da música ao vivo executada por uma banda.

Um pulo até o terreno ocupado pela trupe na Vila Olímpia dá conta da logística padrão alcançada em 22 anos de estrada.

Tudo destoa da visão do artista mambembe que salta de cidade em cidade. Na tenda principal não há serragens, mas piso de madeira; não há arquibancada de ripas, mas cadeiras de plástico; não há picadeiro, mas tablado que lembra uma semi-arena de teatro; não há trailer, mas contêineres.

Por cerca de uma hora no local, na semana passada, a reportagem não pôde falar com os artistas, todos concentrados em treinamentos sob uma lona reservada para isso. Cumprem de cinco a seis horas diárias.

A malabarista russa Maria Markova em nenhum momento desviou o olhar das bolinhas para as lentes do fotógrafo que a cercava. A chinesa Ren Jun improvisava a maquiagem em frente ao espelho (rito que dura até 90 minutos), antes de se equilibrar sobre um cabo de aço esticado num canto. Os gêmeos poloneses Daniel e Jacek Gutszmit também se ocupavam dos equipamentos para as paradas de mão e de cabeça.

A relações-públicas Pascale Ouimet, 31, explica que os 51 artistas tiveram seis semanas de folga após o final da temporada em Buenos Aires, no mês passado. Hospedados em hotel da região, passam boa parte do tempo ali para voltar à forma.

Segundo Ouimet, “Saltimbanco” é a melhor introdução ao Cirque du Soleil. “Um show honesto, simples e humano, pelo qual os fundadores da companhia têm muito carinho.”

É a primeira turnê do Soleil pela América do Sul -passou ainda por Santiago. O Rio será a 69ª cidade de “Saltimbanco”. E pode ser a última. Há dúvidas se o show continuará em repertório depois de tantos giros. 

Valmir Santos

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