Menu

Assine nossa newsletter

Folha de S.Paulo

Montagem busca arquétipos do pai em Franz Kafka

15.8.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, terça-feira, 15 de agosto de 2006

TEATRO 
Antônio Januzelli dirige a partir de hoje, em teatro em Pinheiros (SP), “Querido Pai”, livre adaptação de texto autobiográfico do escritor tcheco 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

“Eu não consegui me salvar da sua influência”, escreve Kafka a seu pai, frase que a maioria dos filhos endossaria sem pestanejar. Franz Kafka (1883-1924) não finge suas angústias e alegrias em “Carta ao Pai”, páginas autobiográficas que escreveu aos 36 anos e jamais foram lidas pelo comerciante tido como autoritário que o trouxe ao mundo. 

Os altos e baixos da relação pai-filho são levados ao pé da letra no “pensamento corporal” desequilibrado (conforme a preparadora Patrícia Noronha) do quarteto de atores que encena “Querido Pai”, livre adaptação da obra do autor tcheco que entra em cartaz hoje no Viga Espaço Cênico. 

“Carta ao Pai” chega com a assinatura de Antônio Januzelli à frente daquele que vai se alicerçando como grupo, o Arquipélago, união das “ilhas” pelas quais o professor da USP e diretor transita em sua pesquisa contínua sobre a expressão dramática do ator. 

Não espere as convenções do olhar psicológico sobre culpas e ressentimentos. “Estamos falando de um filho que escreveu para o pai no início do século 19 [mas nunca lhe mostrou a carta]. Não dá para supor como era a relação, ficar analisando aos olhos de hoje; isso empobreceria o texto”, afirma o ator Henrique Schafer, 39, do elogiado solo “O Porco” (2004), dirigido por Januzelli. 

“Trazemos “Carta ao Pai” pelo valor que ela tem em si, pela contundência dessa relação à flor da pele”, diz Schafer. A partir dessa condição humana, o desejo é abrir as portas para um pai mítico, um pai opressor, um pai dos pobres; por fim desfilam os arquétipos na galeria. Schafer, Frederico Foroni, Eduardo Ruiz e Patrícia Ermel constroem narrativa em que ora aludem a depoimentos pessoais nascidos de jogos de improviso ora dão voz a Kafka, ao pai e a outros membros da família judia (mãe e duas irmãs), sem consolidá-los como personagens, como diz Foroni, 29, idealizador do projeto. 

À livre adaptação do livro traduzido por Modesto Carone, Ruiz imprimiu o processo de dramaturgização (em que o texto ganha corpo na ação dos atores). Inclusive, há citações a outras obras de Kafka. 



Querido Pai
Quando:
ter. e qua., às 21h; até 11/10 
Onde: Viga Espaço Cênico (r. Capote Valente, 1.323, Pinheiros, SP, tel. 0/ xx/11/3801-1843) 
Quanto: R$ 20 

Valmir Santos

Quer receber mais artigos como este? Então deixe seu e-mail:

Relacionados