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Folha de S.Paulo

“Timão de Atenas” ri de mundo lobista

24.8.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 24 de agosto de 2006

TEATRO 
Na peça que estréia hoje em São Paulo, ator Renato Borghi encara seu primeiro Shakespeare, em caprichada produção 

Texto é um dos menos conhecidos do bardo inglês e aborda a ascensão e queda de um mecenas no meio de uma realidade mesquinha

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

Em dezembro de 1972, ao final da temporada de “As Três Irmãs”, do escritor russo Anton Tchecov (1860-1904), o ator e diretor Renato Borghi desligou-se do Oficina -grupo e depois teatro em que assentou tijolos nos seus primeiros 15 anos de história.

Discordava da linha então mais radical e antropofágica adotada pelo amigo também diretor José Celso Martinez Corrêa, nascido no mesmo dia, mês e ano em que ele (30/3/1937). Borghi mergulhou em outro autor clássico, Shakespeare. Chegou a cogitar “Ricardo 3º”, mas o texto que o mobilizou de chofre era dos menos conhecidos do bardo inglês, tanto sob a ditadura militar quanto o é agora: “Timão de Atenas”, peça que estréia hoje no Teatro Popular do Sesi. “Quando o li, a primeira coisa que me chamou a atenção era esquisita: soava como uma parceria de Shakespeare com Brecht”, diz Borghi. “Era uma sensação nítida de que continha a clareza que Brecht gostaria de transmitir a respeito do sistema capitalista, mas dentro de um Shakespeare de 400 anos antes. Parecia uma transmissão espiritual.” Recentemente, ele revolveu sua biblioteca e encontrou uma tradução da peça com anotações de 1973. Idas e vindas, Borghi, 67, atravessou mais de três décadas -numa carreira que já adquiriu espessura histórica- para finalmente aportar na dramaturgia com que a maioria dos intérpretes sonha. Na contracorrente dos estudiosos que torcem o nariz para o texto “menor” do autor de “Hamlet” (mas que Peter Brook dirigiu em 1974), Borghi e seu grupo, o Teatro Promíscuo, montam “Timão de Atenas” em produção profissional (16 atores, quatro músicos e pelo menos outros 30 nomes envolvidos no projeto) da qual o Brasil não teve notícias. Do final dos anos 80 para cá, sabe-se de montagens no Rio, com Aderbal Freire-Filho, com alunos da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), ou da junção do texto com “Troilus e Cressida”, também de Shakespeare, com o grupo Os Fodidos Privilegiados; e ainda uma adaptação da obra no circuito paulistano da Cultura Inglesa, com egressos da USP, por Marco Antônio Pâmio. 

Lobby
“É uma peça praticamente inédita”, exagera Borghi. Versa sobre ascensão e queda de um mão-aberta, o mecenas Timão (ou Timon). No primeiro ato, a ação se passa na pólis, Atenas, não por acaso o berço da civilização ocidental. É lá que o primeiro personagem shakespeareano de Borghi distribui sua riqueza a todos que lhe procuram. O assédio vem de senadores, negociantes, artistas, amigos… “A peça é lobby puro”, diz o ator protagonista. “Fala muito desse aspecto com o qual a gente tem se defrontado demais ultimamente, essa coisa mesquinha, corrupta, individualista, cada um querendo dar o seu golpezinho e se sair bem.” No segundo ato, o perdulário vai a pique. Sai a cidade, surge a floresta em que um esfarrapado Timão sonda o quão a sociedade que idealizara está enraizada na ambição pelo dinheiro, pelo ouro, o lucro perpétuo. “O segundo ato, para mim, é um gozo. É tesão total. É delirante”, diz Borghi. “O Timão paga o casamento de um, resolve a vida do outro, dá presente caríssimos. Em troca da dádiva absoluta, ele cria uma dívida absoluta, porque acredita que a qualquer momento a fortuna dele garantirá aquela sociedade idealizada. E, na verdade, quebra a cara, saca que estava completamente enganado.” 

Diretores
“Timão de Atenas” inclui dramaturgos e diretores na pele de atores. O diálogo de gerações passa por Mauricio Paroni de Castro (do Atelier Teatral de Manufactura Suspeita), que vive Apemanto, o único amigo que não bajula , ao contrário, solta-lhe impropérios a todo instante, alertando-o sobre os malefícios do “coração liberal”. Também está lá Marcelo Marcus Fonseca (Cia. Teatro do Incêndio), como Flavio, o fiel criado de escudeiro, que tampouco conseguiu que fechasse o cofre. Outros nomes, como Nilton Bicudo (como Poeta), Pedro Vicente (Pintor) e Alvise Camozzi (Joalheiro) também já dirigiram ou escreveram peças. “Ao contrário do que possa parecer, eles foram bastante solidários, não me aborreceram não”, diz Elcio Nogueira Seixas, 34, que co-assina a direção com Luciana Borghi, sobrinha do ator. O filho de Borghi, Ariel (como Alcebiades), também contracena com ele. 

Perdas
Com 48 anos de carreira, Borghi conhece os reflexos de um duro processo de criação de um espetáculo em seu próprio corpo. Nos últimos meses, passou por uma cirurgia na coluna e amargou outros cinco dias num hospital com gastroenterite aguda -acompanhada do baque da perde dos amigos Raul Cortez e Gianfrancesco Guarnieri, no mês passado. Lembra que atuou com Cortez em “Pequenos Burgueses” (1963/64), que também protagonizou um texto de sua autoria, “Lobo de Ray-Ban” (1967).

Com Guarnieri, atuou em “Pegue e Não Pague”, de Dario Fo (1982). “Dedico o espetáculo aos meus dois amigos”, conclui o ator. 



Timão de Atenas

Onde: Teatro Popular do Sesi (av. Paulista, 1.313, tel. 0/xx/11/3146-7405 
Quando: estréia hoje, às 20h; qui. a sáb., às 20h, e dom., às 19h. Até 15/12 
Quanto: entrada franca (qui. e dom., retirar ingresso na bilheteria entre 13h e 19h30; sex. e sáb., R$ 15) 

Valmir Santos

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