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Folha de S.Paulo

Elogio da loucura

30.10.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, segunda-feira, 30 de outubro de 2006

TEATRO 
Aos 83 anos, Cleyde Yáconis protagoniza a primeira montagem brasileira de “A Louca de Chaillot”, do autor francês Jean Giraudoux 

VALMIR SANTOS
Da reportagem Local 

“Eu, Cleyde Yáconis, sou meio metida a besta, auto-suficiente, [alguém que] não quer ajuda, o sangue calabrês, entende? Como mulher, sou tímida no sentido feminino, não gosto de renda, de babadinhos. No teatro, sempre me deram papéis fortes, violentos, enérgicos, por causa da minha voz, do meu tipo físico. A feminilidade tem sido um treino maravilhoso, que deveria ter ocorrido aos 30, mas só o faço agora, aos 83. Tudo bem, nunca é tarde.”

Pouquíssimos artistas do país dariam depoimento tão desarmado como a dona do vozeirão acima, protagonista de “A Louca de Chaillot”, peça escrita pelo francês Jean Giraudoux entre 1942 e 43, pouco antes de sua morte sob ocupação alemã na 2ª Guerra Mundial.

“Ao passar por uma experiência teatral nova, ganho como gente”, continua a atriz, minutos depois do ensaio de sexta-feira passada, como que ainda colada a Aurora, a personagem que a conduz por novos sentidos. Aurora é a protagonista da fábula contemporânea sobre cobiça; variações de bezerros de ouro como o petróleo que um grupo de especuladores intenta prospectar em pleno bairro parisiense de Chaillot, para desespero da garçonete, do catador de papel, do cantor, das loucas cativas, enfim, da gente que dá vida ao lugar.

Mas a peça vai além das questões políticas e sociais e alcança o território do afeto. Giraudoux permite-se mergulhar no onirismo; seus personagens interpõem fantasia e realidade na escavação de poéticas de existência. Por isso, o entusiasmo de Yáconis com o tempo da delicadeza que descortina com Aurora, sonhadora que põe os pés no chão ao mobilizar todos contra os especuladores, mas persevera sonhadora, à sombra do namorado que partiu.

Aurora é frágil e ao mesmo tempo é um aço, na metáfora lançada pela atriz e que lhe retorna feito bumerangue. “Ela tem essa dualidade, uma valentia, uma força de integridade muito grande”, diz Yáconis.

Trajetórias densas
“Tenho muita sorte no teatro.” Os quatro últimos papéis interpretados por ela foram de mulheres na casa dos 60, 70 anos. Em comum, mulheres de trajetórias densas, verdadeiros périplos. Karen Blixen, a canadense que inspira “As Filhas de Lúcifer” (1993), de William Luce; e duas mães sucessivas, a Mary Tyrone de “Longa Jornada de um Dia Noite Adentro” (2003), de Eugene O’Neill; e a professora francesa (simplesmente Mãe) de “Cinema Éden” (2005), de Marguerite Duras.

“Tenho de agradecer a Deus por estar com a minha cabeça boa [para memorizar os textos]”, diz, beijando três vezes os dedos da mão direita antes de levá-los à testa, benzendo-se. Os “bifes”, falas prolongadas, são recorrentes agora como eram nos espetáculos recentes.

Para a atriz, o verbo é também uma crença. “Se a palavra é o nosso meio de comunicação, ela está sendo desprezada. O ser humano não conversa mais, a nossa língua está sendo massacrada. Se é para ser antiga e careta, então eu sou; gosto da palavra, gosto de falar certo. Quando fiz “Longa Jornada…”, colegas me cumprimentaram dizendo que era “teatrão, mas era maravilhoso”, como se fosse uma pecha, um defeito.”

A atriz alimenta percepção aguda da realidade do mundo que a cerca desde a infância pobre, em Pirassununga, quando acompanhava a mãe e a irmã, Cacilda Becker (1921-69), nas mudanças constantes de casa pelo interior paulista, a transformar sobreviver em viver.

Yáconis entrou no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) no primeiro ano de atividade, 1948. Respondia pelo guarda-roupa. Até substituir Nydia Licia de supetão em “O Anjo de Pedra”, do americano Tennessee Williams, que Luciano Salce dirigiu em 1950. E nunca mais abandonou o palco.

Diante das câmeras, entra na penúltima semana de gravações de “Cidadão Brasileiro” (Record) e estuda nova proposta para o cinema. Ontem, dia de eleição, passaria o dia no sítio em Jordanésia (SP). “Não vou votar porque estou muito cansada, me dou o direto, na minha idade, de não ir para a fila. Ganho mais uma hora de repouso em casa, porque tenho a fazer algo tão importante que vale taco a taco. Não sei se é vaidade, mas acho que faço nesse espetáculo a minha função social.” 

Valmir Santos

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