Menu

Assine nossa newsletter

Folha de S.Paulo

“Nonada” revela alma brasileira

15.10.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, domingo, 15 de outubro de 2006

TEATRO

Intelectuais como Roberto Schwarz e José Antônio Pasta falam à Folha sobre peça da Cia. do Feijão
 

Montagem tem temporada prorrogada até dezembro; para pensadores, peça evidencia vivências de povo que “se vira como pode”

 
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 
 
“O que resta é a memória da gente”, diz o taxista ao final de “Mire Veja” (2003), premiada adaptação teatral de contos de Luiz Ruffato pela Cia. do Feijão. Na nova peça do grupo, “Nonada”, cuja temporada é prorrogada até dezembro na recém-inaugurada sede da companhia no centro, a memória atinge dimensão coletiva e diz respeito à “alma brasileira”. 

Pelo menos é dessa maneira que alguns pensadores lêem mais essa aliança “unha e carne” do teatro com a literatura, eixo dos oito anos de trabalho da Cia. do Feijão. 

Pensadores como Iná Camargo Costa, José Antonio Pasta Jr., Paulo Arantes e Roberto Schwarz foram alguns dos interlocutores no processo e após a estréia, em julho. 

Em espaço que lembra arena circense, “Nonada” conta a história de Natimorto (interpretado por Vera Lamy), espécie de palhaço triste em busca de suas origens. No calvário por identidade, cruzará outros personagens, entre eles seu antípoda, Sr. Leal (por Guto Togniazzolo), proprietário do circo. Para Iná Camargo Costa, a peça evidencia o conflito de classes. “É do confronto entre os dois, que atravessa todo o espetáculo, que se produz o ponto de vista da cena”, afirma a professora aposentada de teoria literária da USP. 

Nesse “mundo dos mortos”, o dono do circo é figura colada ao narrador de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Mas são também outros contos do próprio Machado (como “Pai Contra Mãe”, inclusive visitado pela companhia em “Antigo 1850”, montagem de 2000), de Mário de Andrade (como “Túmulo, Túmulo, Túmulo”) e de Clarice Lispector (como “A Bela e a Fera”) -dramas pessoais ou familiares-, que sustentam a dramaturgia de Pedro Pires e Zernesto Pessoa, também co-diretores. 

“Nos três autores, a questão da crise moral é apresentada sob o ponto de vista dos de cima, enquanto os criadores da Cia. do Feijão retomam isso totalmente sob o ângulo de Natimorto, que é o povo desprovido de direitos, que tem que se virar como pode”, afirma Schwarz, crítico e professor aposentado de teoria literária da Unicamp. 

Segundo José Antonio Pasta Jr., resulta no espelho de um país que se constitui sem propriamente se formar, ou que se faz se desmanchando. 

“O país que sempre se modernizou pela reposição do atraso, impedindo o acesso da maioria a uma vida cidadã, constituiu essa entidade chamada “povo brasileiro” ao mesmo tempo que a suprimia”, afirma Pasta Jr., professor de literatura brasileira na USP e espectador entusiasta de grupos como Teatro de Narradores, Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, Teatro da Vertigem e Cia. do Latão. 

Literatura
A Cia. do Feijão foi formada em 1998. É conhecida por tomar a literatura como principal meio de conhecimento da história do Brasil. Ou, no dizer de Pires, citando Schwarz, a literatura como espelho de nossas “idéias fora do lugar”, do eterno descompasso de nossas “modernizações conservadoras”. 

Parte da pesquisa que gerou “Nonada” foi subsidiada pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. 



Nonada
Onde:
Companhia do Feijão (r. Dr. Teodoro Baima, 68, tel. 3259-9086) 
Quando: sex. e sáb., às 21h; dom., às 19h; até dezembro 
Quanto: R$ 20 

Valmir Santos

Quer receber mais artigos como este? Então deixe seu e-mail:

Relacionados