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Folha de S.Paulo

Oficina convida Lula ao teatro

1.11.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, quarta-feira, 01 de novembro de 2006

TEATRO 

Zé Celso chama o presidente reeleito para assistir à devoração do bispo Sardinha por índios caetés
 

Grupo reapresenta o ciclo completo do projeto “Os Sertões”, baseado na obra do autor Euclydes da Cunha sobre a Guerra de Canudos

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O grupo de teatro Oficina Uzyna Uzona reapresenta o ciclo completo de “Os Sertões” em duas últimas semanas, esta e a próxima.

Em meio a datas cívicas, como a Proclamação da República (15/11) e o Dia da Bandeira (19/11), a expectativa do grupo dirigido por José Celso Martinez Corrêa é que o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva crave sua primeira ida ao teatro no exercício do cargo.

“Queria muito que depois de re-vitorioso, Lula viesse assistir a um dos espetáculos de “Os Sertões”, principalmente “O Homem Parte 1 – do Pré-Homem à Re-Volta'”, escreveu Zé Celso, 69, em carta encaminhada na semana passada ao presidente, pelo senador Eduardo Suplicy (PT), antes do segundo turno. “Assim, poderia 1) não somente sentir o trabalho que fazemos, totalmente em direção a um Teatro Popular Brazyleiro à altura do país do futebol e do carnaval, 2) como ver incorporada ao teatro a cena fundadora do nosso teatro: a devoração do bispo Sardinha pelos Índios Caetés.”

Banquete antropofágico
Caetés é o nome da cidade onde Lula nasceu há 61 anos, no interior de Pernambuco, então distrito de Garanhuns. Como o “banquete antropofágico” evocado pelo escritor modernista Oswald de Andrade, Zé Celso gostaria de fazer a ponte com “o primeiro presidente brasileiro antropófago”, aludindo aos índios caetés que comeram o primeiro bispo do Brasil em 1556, dom Pedro Fernandes de Sardinha, após naufrágio com sua tripulação no litoral de Alagoas.

Com patrocínio estatal (Petrobras), a maratona com as cinco peças transpõe para o teatro o clássico de Euclydes da Cunha, obra fundadora das grandes interpretações históricas do Brasil.

Em tônica musical, “ópera monumental”, é concebido um épico sobre a Guerra de Canudos (1896-97) em que seguidores do beato Antônio Conselheiro se opuseram à República naquele arraial do sertão baiano. No conflito, que envolveu quatro expedições do Exército, as três primeiras derrotadas, morreram cerca de 20 mil sertanejos e 5.000 soldados.

Em seis anos do projeto “Os Sertões”, envolvendo de 60 a cem pessoas por produção, o diretor diz que o Oficina evoluiu por meio de “uma espécie de formação universitária; hoje a gente sabe cantar, dançar, tocar e falar muito melhor”.

Na lida com a obra literária, tanto os artistas como o público teriam deixado de ver o catatau como um bicho-papão. “Com “Os Sertões”, recuperamos a busca pelo significado da palavra, a sua etimologia, coisa que havíamos perdido. Numa sociedade cada vez mais despolitizada, foi gostoso mergulhar na perspectiva histórica do livro, nos estudos da geologia, das artes militares, da geografia, da biologia, da botânica, dos minerais etc”, afirma Zé Celso.

Para o diretor, Euclydes trouxe ao coletivo “um salto enorme em termos de consciência do poder do teatro”, assim como Oswald de Andrade (com a montagem de “O Rei da Vela”, em 1967) e Shakespeare (“Ham-Let”, 1993) ajudaram a demarcar viradas importantes na trajetória do Oficina, que completa 50 anos em 2008.

“O livro nos deu forças também para enfrentar a possibilidade do massacre”, diz Zé Celso, referindo-se à anunciada construção de um shopping pelo Grupo

Silvio Santos no terreno em volta do edifício teatral tombado.

“O teatro dá a percepção da afetividade como categoria política, filosófica estética”, diz Zé Celso, para quem “o impulso da transformação social” vincula-se a “uma revolução cultural”.

Na seqüência, com sessões apenas aos sábados e domingos, até dezembro, o grupo gravará os espetáculos em DVD. 

 

Valmir Santos

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