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Folha de S.Paulo

Cruz leva aos palcos de SP comédia de Shakespeare

19.1.2007  |  por Valmir Santos

São Paulo, sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

TEATRO 
Começa hoje, no Sesc Pompéia, temporada de “Os Dois Cavalheiros de Verona”

É o primeiro espetáculo profissional da recém-criada Globe-SP Company, ligada ao centro de formação fundado três anos atrás

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

Há dez anos Ulysses Cruz não monta um Shakespeare. 

Há dez anos não estréia peça em São Paulo. Isso muda a partir de hoje, no Sesc Pompéia, onde começa a temporada de “Os Dois Cavalheiros de Verona”, comédia de iniciação do bardo inglês de quem o diretor já levou suas principais tragédias na década de 90: “Hamlet”, “Macbeth” e “Rei Lear”. 

“Deveria ter começado por essa [“Os Dois Cavalheiros de Verona’]. Há enorme probabilidade de ela ter sido a primeira [que Shakespeare escreveu]”, diz Cruz, que co-assina a direção com Ricardo Rizzo. 

O destino, sabe-se lá, o fez inverter a cronologia. De trás para frente, é desejo de Cruz montar as 38 peças do dramaturgo. Foram quatro profissionais até agora. Mas reconhece que, a manter esse ritmo, e aos 53 anos, pode não dar conta. 

O desafio tornou-se mais plausível há três anos, quando abriu no bairro paulistano de Pinheiros, em parceria com o realizador Paulo Plagus, um centro de formação de ator batizado Globe-SP (homenagem ao Globe Theatre de Londres, onde Shakespeare encenava suas peças no século 16). 

É a primeira turma formada a cumprir temporada no circuito. Não é um espetáculo de escola. Serve para o centro dizer a que veio por meio de sua recém-nascida companhia, a Globe-SP Company. Por isso a perspectiva do rito de passagem que Cruz sublima em “Os Dois Cavalheiros…”. 

“É uma peça que mostra claramente a passagem para a idade adulta. Boa para hoje, quando a maioria dos jovens não sabe bem para onde correr. Proteus e Valentinos [os protagonistas] estão crescendo e tentando entender o amor, as relações amorosas e como isso afeta nossas vontades. São enviados por seus pais para uma cidade progressista a fim de se tornarem cavalheiros. Como um pai com dinheiro envia hoje seu filho para estudar fora.” 

Enredo
Os amigos Proteu e Valentino partem de Verona para a corte de Milão. Lá, eles se apaixonam pela mesma mulher, Júlia, filha de um duque local. Tornam-se rivais. A confusão aumenta com a chegada de Sílvia, ex-namorada de um deles. Em meio a traições, exílios, fugas e impagáveis criados-bufões, os cavalheiros descobrem o valor da amizade e se casam com as respectivas amadas. 

Para Cruz, é uma comédia romântica. “Só que escrita por Shakespeare, então não é babaca, melosa e idiota. É carregada de ação, lindas palavras, delicadezas. Tem aquele poder mágico, arrebatador, que só Shakespeare soube produzir.” Dizendo-se fascinado pelas releituras, o diretor transpõe a ação para uma dancing dos anos 50, ao som de bolero, tango e outros ritmos. 

“Atualmente, em Londres, está em cartaz uma produção da Royal Shakespeare Company para “Muito Barulho por Nada” que se passa na Cuba de Fidel, com direito a Buena Vista Social Club e tudo”, conta. 

Televisão
Cruz passou os últimos dez anos trabalhando sobretudo em TV: “Xuxa – No Mundo da Imaginação”, “Sítio do Picapau Amarelo” e minisséries, entre outros. Diz que foi por “puro desejo de experimentar”. 

“Não acredito em reencarnações. Se tivesse outra vida, viveria uma somente no teatro. Mas só tenho uma. Fiquei com o saco cheio dos mesmos problemas, do mesmo ritual. Depois, ninguém passa impunemente por “Hamlet”. Ele produziu em mim o desejo da ação. Adoro meu trabalho na TV, onde sou tratado e respeitado como mestre exatamente pela carreira no teatro.”



Os dois cavalheiros de Verona
Quando: estréia hoje, às 21h30; qua. a sáb., às 21h30; dom. e feriados, às 18h30; até 11/2 
Onde: Sesc Pompéia – galpão (r. Clélia, 93, tel. 3871-7700) 
Quanto: R$ 7,50 a R$ 20 

Valmir Santos

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