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Folha de S.Paulo

Galpão troca farsa por drama

12.3.2007  |  por Valmir Santos

São Paulo, segunda-feira, 12 de março de 2007

TEATRO

Aos 25 anos, grupo deixa a comédia e dá espaço a atuação realista em sua nova peça, “Pequenos Milagres”
 

Coletivo recortou quatro tramas dentre 550 relatos reais para dar corpo a peça que estréia dia 29, em MG, dirigida por Paulo de Moraes
 

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Belo Horizonte

São 25 anos de um teatro popular protagonizado por experientes artistas nos domínios da rua, do circo ou da farsa. Mas as bodas de prata do Grupo Galpão, em 2007, chegam com a marca do drama, contraface que o prestigiado coletivo de Belo Horizonte trouxe pouco a público em sua história. 

“Pequenos Milagres”, o 16º espetáculo do grupo, é pontuado por epifanias do cotidiano de mulheres e homens de um Brasil passado e presente. São “histórias de quintal”, diz o diretor convidado Paulo de Moraes, 41, da Armazém Companhia de Teatro (RJ). Ele assina o texto final com o escritor Maurício Arruda Mendonça. 

A dramaturgia é o sumo da campanha “Conte Sua História”, lançada pelo grupo em agosto. Foram recolhidos 550 relatos, a maioria de gente comum interessada em participar da criação comemorativa. 

Doze histórias norteiam à exaustão os improvisos dos atores. Quatro delas efetivamente dão corpo ao projeto. 

Em “Cabeça de Cachorro”, um garoto cumpre um inusitado rito de passagem: vai de ônibus do interior à capital, sozinho, levando uma cabeça de cão na sacola. Sua missão é entregá-la a um tio para exame de raiva. O animal atacou o irmão mais novo.

Essa história costura mais três. “O Pracinha da FEB” traz as memórias de um soldado das Forças Expedicionárias Brasileiras que sobreviveu aos ataques na campanha da Itália (1944-55) contra o nazifascismo, durante a Segunda Guerra. A perda de um amigo no front deixa seqüelas, mas a vida lhe reserva surpresas. 

“O Vestido” expõe a trajetória de uma mulher a partir da infância, quando não gostava de usar vestido de chita e sonhava com um vestido que vira numa procissão, de tafetá com rendas. Sua fé atravessa o futuro para, enfim, colocar o corpo no lugar mais seguro do mundo: aquele vestido. A quarta história é a do “Casal Náufrago”, um homem e uma mulher que estão à beira da separação, mas que têm as esperanças reavivadas quando ele é sorteado para participar de um programa televisivo que distribui dinheiro. 

“Buscamos aqueles momentos em que a vida de uma pessoa pode dar uma guinada, ou não. É como aquela cena da bola de tênis parada sobre a rede no filme “Match Point”, do Woody Allen”, diz Moraes, 41. 

“Num momento em que o mundo valoriza celebridades, é um prazer inverter essa expectativa com a história de pessoas anônimas”, diz o ator Chico Pelúcio, 47. 

Se depender do ensaio a que a Folha assistiu dias atrás, o que se desenha para a estréia no próximo dia 29, no Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte (depois segue para outras cidades), é um trabalho que pode surpreender pelo risco a que o Galpão se lança. Como fez em “Álbum de Família” (1990), de Nelson Rodrigues, com direção de Eid Ribeiro, e em “Partido” (1999), adaptação de Cacá Brandão para “O Visconde Partido ao Meio”, com direção de Cacá Carvalho. 

A começar pelo registro da interpretação. Sem os microfones, o tom de voz, a enunciação e os gestos corroboram o drama de intimismo, com platéia próxima. “É para ver o ator nos olhos”, dá a senha Eduardo Moreira, 46, um dos fundadores do grupo. “Escolhemos limpar a atuação excessivamente teatral. É um despojamento que às vezes lembra cinema.” 

Moraes é hábil nesse tratamento, vide encenações como “Toda Nudez Será Castigada” e “Pessoas Invisíveis”. São recursos que, aqui, não anulam a presença do ator. Mesmo porque o diretor é um deles (bissexto) na Armazém. Como o Galpão é um grupo de atores, sem diretor de proa, o encontro de modos de criação instiga os dois lados, em meio a tintas de realismo, um sino de igreja e uma música de jazz.



O jornalista VALMIR SANTOS viajou a convite do Galpão Cine Horto.
 

 

Valmir Santos

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