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Folha de S.Paulo

Hirsch retorna ao berço com Dalton Trevisan

9.4.2007  |  por Valmir Santos

São Paulo, segunda-feira, 09 de abril de 2007

TEATRO 
Sutil revê Curitiba pelos olhos do autor em “Educação Sentimental do Vampiro”

Espetáculo que pré-estréia hoje no Sesi da avenida Paulista põe em cena contos sobre variações de amor e violência sem filosofia 

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba

Projetada nacionalmente na Curitiba do início da década, com “A Vida É Cheia de Som e Fúria”, a Sutil Companhia de Teatro volta-se para o berço com distanciamento crítico em “Educação Sentimental do Vampiro”. O novo espetáculo, que pré-estréia hoje e abre temporada quarta no Teatro Popular do Sesi, em São Paulo, adapta contos de Dalton Trevisan, 81, dono e alvo da alcunha “o Vampiro de Curitiba”, como batiza um dos seus textos.

“A cidade em que vivíamos se tornou um trauma, uma marca nestes seis anos em que passamos mais tempo fora do que aqui. Nossa juventude pertence mais à era Lerner do que à do Dalton”, diz Felipe Hirsch, 35, citando o ex-prefeito Jaime Lerner, tido como “modernizador” em três mandatos. 

O diretor e os atores Guilherme Weber e Erica Migon receberam a reportagem durante o Festival de Curitiba. 

Para contrapor à cidade “eventual”, a Sutil escolhe jogar luz no subterrâneo escancarado por Trevisan. O universo ficcional do autor espreita o buraco da fechadura e roça a realidade das esquinas ou entre quatro paredes. “De maneira indireta, contudo, a gente lê o Dalton desde garoto. É uma obra de observação, autoparódica, sofisticada. Parece o humor inglês, que ri de si mesmo, se autoflagela”, diz Weber, 32. 

Ao interlocutor que foi lhe apresentar a idéia de adaptação pela Sutil, Trevisan teria pedido como cláusula principal do contrato a “obscuridade”, a conhecida indisposição de vir a público. “Um morcego condenado à caça nas trevas”, para usar uma citação sua. 

No primeiro espetáculo de autor brasileiro em quase 15 anos de história, a companhia segue à risca elipses, ausências de artigo e outras “partituras” da escrita trevisiana. 

O fio emocional das histórias pende do sujeito que espreita as “carótidas” das pessoas e da cidade, sugando-lhes a energia. 

“O que se cria sentimentalmente nas ruas de Curitiba, o que se conhece sobre o amor? 

Como se dá a formação do ser humano através dos olhos de Dalton? E quão desastroso pode ser tudo isso”, diz Weber. 

Todos os personagens, homens e mulheres, são movidos pelo amor e pelo desejo, mas nunca alcançam a perfeição, a felicidade presumida. “Apesar de dolorosa, essa via-crúcis reflete humanismo”, continua o ator, que contracena com Migon, Jorge Emil, Luiz Damasceno, Magali Biff, Maureen Miranda e Zeca Cenovicz. 

Violência
“Fiquei tanto tempo estudando a obra do Dalton, e o Ministério da Justiça veio e definiu a classificação indicativa: “violência familiar”. É o logo que temos que pôr em todo o material de divulgação”, diz Hirsch. 

Invertendo, ele acha que a questão é a familiaridade que se tem com a violência nos dias atuais, não só dentro de casa, mas no espaço público. 

“Dalton nos devolve a violência de modo genuíno, sem filosofia, sem banalização. Mas como ela deve ser observada: terrível e assustadora”, diz Weber. 

Por isso a inclinação para o tratamento expressionista nas concepções cênica e visual (cenografia de Daniela Thomas, figurinos de Veronica Julian e desenho de luz de Jorginho de Carvalho). O objetivo é criar uma atmosfera gótica inerente à visão de mundo dos contos. 

No meio do ano, a Sutil dá mais um passo em seu movimento antropofágico com outro paranaense: Paulo Leminski: “Inverno”, título provisório para adaptação do romance “Agora É que São Elas” (1984), previsto para o meio do ano no CCBB de Brasília. 



O jornalista VALMIR SANTOS e a repórter-fotográfica Lenise Pinheiro viajaram a convite da organização do Festival de Teatro de Curitiba 

Educação sentimental do vampiro
Quando: pré-estréia hoje, às 20h (para convidados); qua. a sáb., às 20h; dom., às 19h; até 18/11 
Onde: Teatro Popular do Sesi (av. Paulista, 1.313, tel. 0/xx/11/3146-7405) 
Quanto: R$ 3 (sex. e sáb.) e grátis (qua., qui. e dom.) 

Valmir Santos

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