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Folha de S.Paulo

Peça de Nelson Rodrigues desnuda formas de abuso

31.5.2007  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 31 de maio de 2007

TEATRO
“Álbum de Família”, que tem pré-estréia hoje, ficou proibida entre 1946 e 1965 

Denise Weinberg, Cacá Amaral e Ângela Barros encabeçam o elenco do espetáculo, que abre temporada amanhã em SP  

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

“Se Nelson estivesse vivo, acho que ele cometeria haraquiri.” Às vésperas da estréia de “Álbum de Família”, sua quarta interpretação de Nelson Rodrigues (1912-1980) no teatro brasileiro, Denise Weinberg, 51, fala das “distorções” de época. Em 1945, a tragédia que desnuda o tabu do incesto escandaliza “a sociedade de valores”. “Álbum…” permaneceu interditada pela censura entre 1946 e 1965. Acusações: “incesto demais”, “incapacidade literária”, “morbidez”, “sacrilégio” etc. 

Paradoxalmente, a atriz reclama da falta de valores. “Hoje, não somos imorais, mas amorais no desejo, na utopia.” “O barato agora é não ter desejo. Ficar significa não ficar. Compromisso não existe. O desejo foi retirado da sociedade porque se pode comprar uma lancha, uma casa, uma mulher, um pau. Virtualmente faz-se de tudo. Não é questão de moralismo, mas de valores”, afirma. 

Ela, Cacá Amaral e Ângela Barros encabeçam o elenco de dez atores no espetáculo que estréia hoje para convidados e abre temporada amanhã no Sesc Anchieta (SP). A direção é de Alexandre Reinecke. Desejo e fé são duas molas mestras em “Álbum de Família”, das peças menos montadas do autor. O grupo Galpão (MG) passou por ela em 1990, numa encenação de Eid Ribeiro. 

Os mitos gregos de Édipo e Electra se dão as mãos aqui. Mãos duplas nas obsessões amorosas de mãe-filho e pai-filha. Numa fazenda de interior, Jonas (Amaral) é o patriarca que abusa de adolescentes com a desculpa de não chegar aos finalmentes com a filha Glória, que também deita olhos de paixão nele e ainda vive um namoro lésbico na escola. Tudo sob o consentimento de Dona Senhorinha (Weinberg), dublê de mulher e mãe, como diz o Speaker, debochada voz da espécie de “opinião pública” que pontua os diálogos. 

Senhorinha, por sua vez, é atraída por um dos filhos, que enlouquece e vai viver nu no mato, feito bicho. Um segundo filho deixa a mulher por causa do seio da mãe. Um terceiro canaliza tudo para Glorinha, o “anjo de estampa”, a ponto de castrar-se para não ameaçar a virgindade dela. O desfecho virá com suicídio e assassinatos. “O “Álbum” é uma tragédia atual, brasileira e universal. Vivemos abusos em todos os sentidos, do incesto ao canibalismo. Pioramos sensivelmente. É um [estágio de] animalismo colossal”, diz Weinberg. Não por acaso, Jonas, santificado e odiado entre aquelas paredes, associa as mulheres a porcas. “A história também trata do poder dessa espécie de coronel do interior que faz o que quer”, diz Reinecke, 37. 

Peças míticas
Não há vestígios de lei, de realidade. Afinal, é a peça com a qual Nelson Rodrigues pisa o território mítico, como classificou o crítico Sábato Magaldi. Ou “teatro desagradável”, como pontificou o autor, sempre direto, “porque são obras pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a malária na platéia” -escreveu em 1949 na revista “Dionysos”. 

Curiosamente, São Paulo é revisitada recentemente pelas outras peças míticas do dramaturgo, como a releitura do alemão Frank Castorf para “O Anjo Negro”, a encenação de Brian Penido Ross para “Dorotéia” e o retorno de Antunes Filhos a Nelson com “Senhora dos Afogados”, prometida para breve. “A ironia é que “Álbum…” se passa numa elite latifundiária, com valores dela. Não atinge o operário, mas o status quo, sob o domínio do qual ainda vivemos”, diz Ângela Barros, 51, que faz a tia solteira Rute. 



Álbum de família
Quando:
pré-estréia hoje, às 21h, para convidados; temporada a partir de amanhã; de qui. a sáb., às 21h; e dom., às 19h. Até 17/6 
Onde: teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, SP, tel. 0/xx/11/ 3234-3000) 
Quanto: R$ 20 

Valmir Santos

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