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Folha de S.Paulo

Ensaio analisa obra cômica de Pena

3.1.2008  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 03 de janeiro de 2008

TEATRO 

Editora Martins Fontes lança obra que reúne 20 peças do autor carioca do século 19 que inovou o gênero no teatro do país
 

Pesquisadora Vilma Arêas reavalia conteúdo social e rigor na linguagem do comediógrafo que tem peças lançadas em três volumes

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

 

Às vezes lida de maneira superficial, a obra de Martins Pena (1815-1848) encerra mais complexidades do que se imagina. Quem acha que “O Noviço” é sua melhor comédia pode se surpreender com o poder de síntese do ato único de “O Namorador ou A Noite de S. João”, sua dialética amorosa e o jogo dos diferentes estratos sociais. 

Exímio criador de textos curtos, Pena tem sua obra cômica reavaliada, na forma e no conteúdo, em breve e conciso ensaio com o qual a professora Vilma Arêas, titular de literatura brasileira na Unicamp, introduz o leitor às 20 peças que preenchem os três volumes de “Martins Pena – Comédias”, lançamento recente da editora Martins Fontes, pela coleção “Dramaturgos do Brasil”. 

São compreendidos os períodos de 1833-1844 (com oito peças, entre elas a seminal “O Juiz de Paz da Roça”, “Os Dois ou O Inglês Maquinista” e “O Judas em Sábado de Aleluia”; de 1844-45 (com cinco textos, incluídos “O Noviço” e “O Namorador”); e 1845-47, com sete comédias, como “Quem Casa, Quer Casa”, “As desgraças de Uma Criança” e “O Usurário” (a remissão a “O Avarento” é debitada à influência confessa e certeira de Molière num tempo em que a estrutura para artes cênicas no país era limitada, evidentemente, mas já demonstrava potencialidades com Pena, o ator João Caetano, o circo popular e cia). 

Para Arêas, o autor “reelaborou formalmente a comédia farsesca, pois transferiu a responsabilidade da ação cômica dos criados tradicionais para outros tipos de situações, fugindo ao mesmo tempo da comédia centrada no amor”. 

Figuração do escravismo
A inovação mais importante, porém, foi introduzir na organização simétrica da comédia a assimetria básica da figura do escravo. “O lugar desse personagem cria uma situação teatral nova, longe da tradição que o associava ao simples palhaço. 

Sua presença no palco funciona como uma espécie de elemento retardador em meio às cores e vertigens do jogo cômico”, afirma a pesquisadora. 

Em vez dos “lugares-comuns” de que “escrevia mal e desleixadamente”, de que “era indiferente a questões sociais e interessado somente em fazer rir com suas farsas, supostamente ingênuas”, a análise de Arêas expõe um comediógrafo que era homem de teatro por excelência (e de ópera por extensão, um tenor que também compunha árias). 

Filho de juiz, órfão de pai, com um ano, e de mãe, aos dez anos, Pena deu conta de figuração do escravismo na sociedade brasileira. Ele aproximou formações retórica e histórica, avalia Arêas. “Com isso, não deixa de ser curioso que raramente Martins Pena tenha sido representado por atores brasileiros em sua época, e sim por portugueses, o que não deixa de criar uma situação “um pouco estranha”, conforme observa Décio de Almeida Prado.”



Martins Pena – Comédias
Editora: Martins Fontes 
Organizadora: Vilma Arêas 
Quanto: R$ 120, em média (caixa com três volumes) 

Valmir Santos

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