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Folha de S.Paulo

Antagonismos guiam monólogo

12.3.2008  |  por Valmir Santos

São Paulo, quarta-feira, 12 de março de 2008

TEATRO

Clarice Niskier leva à cena questões do livro “A Alma Imoral”, que defende transgressões sobre certas verdades
 

Com supervisão de Amir Haddad, peça adapta pensamentos do rabino Nilton Bonder e deu à atriz o Prêmio Shell RJ 2007

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

 

Aos 16 anos, a atriz carioca Clarice Niskier, 48, escreveu um poema no qual expressava o desejo de ganhar os mares em um veleiro, mas também de construir uma casa; de amar profundamente um homem só, mas também de experimentar mil amores.
 
“Sempre me vi como uma natureza dividida, como se algo estivesse errado em mim. Fui guardando essa coisa estranha, como se nunca estivesse totalmente adaptada às escolhas por sempre deixar algo de lado”, diz a intérprete do monólogo “A Alma Imoral”, Prêmio Shell RJ 2007 de melhor atriz, que tem pré-estréia hoje no teatro Eva Herz, da Livraria Cultura. 

Niskier diz ter visto no livro homônimo do rabino Nilton Bonder a compreensão para esses aparentes antagonismos, mais conexos do que supunha. O espetáculo é como que endereçado à “dona Léa”, a telespectadora que certa vez puxou a orelha de Niskier no ar, numa roda de entrevistados, por meio de um fax: “Minha filha, não existe “judia budista”. Ou você é bem judia ou você é bem budista”. Bonder também participava do programa, por ocasião do lançamento de seu livro, e esse encontro gerou a peça. 

A atriz diz buscar ser o mais fiel possível ao texto estruturado em passagens bíblicas (Velho Testamento, as filhas de Lot, Sodoma e Gomorra), parábolas da sabedoria judaica e incursões pela contemporaneidade, como o genoma humano. 

“Tenho uma visão cabalística do casamento, dos significados de honestidade, ética, traição, do certo e do errado; o quanto transgredir é preservar a tradição e, ao contrário, o quanto preservar a tradição resulta em infidelidade”, diz Niskier. 

A atriz não acha que a receptividade do espetáculo espelhe os tempos de culto à auto-ajuda. “Auto-ajuda significa um pouco seguir regras. “A Alma Imoral” não é uma fórmula. É um jeito racional de tentar compreender nossa natureza. 

Uma frase-chave da peça é: “Não há nudez na natureza”. Ou seja, estamos entre vestir a civilização e a nossa essência.” Com 26 anos de carreira (representou Eurípides, Shakespeare, Brecht, Dostoiévski, Nelson, Clarice Lispector etc.), Niskier diz que assumiu os riscos do processo de criação ao desnudar-se por completo, inclusive do corpo moral, para revelar o que chama de sentimentos profundos sobre si e a humanidade. Quem agarrou firme em suas mãos para seguir adiante foi o diretor Amir Haddad, que assina a supervisão. E o viés religioso? “É um texto que tem sua religiosidade. 

Mas não é um cara do mundo da religião que vem dizer que a desobediência é sagrada, que muitas vezes você tem de abandonar sua casa e partir, como Abraão, ou mesmo questionar Deus, não no sentido do desrespeito, mas da esperança de que ele também compreenda o seu amor por um filho e não peça que o sacrifique”, diz Niskier.



Peça: A Alma imoral
Onde:
teatro Eva Herz – Livraria Cultura (av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, tel. 0/xx/11/3170-4059) 
Quando: estréia hoje, para convidados; temporada a partir de 14/3; sex. e sáb., às 21h, e dom., às 19h. Até 15/6 
Quanto: R$ 50 

Valmir Santos

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