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Folha de S.Paulo

Grupos mineiros exibem inovação em Curitiba

30.3.2008  |  por Valmir Santos

São Paulo, domingo, 30 de março de 2008

TEATRO 

Quatro espetáculos mostram busca por novas janelas estéticas e conceituais em dramaturgia, interpretação e encenação
 

Peças da cia. Luna Lunera, da atriz Rita Clemente e da cia. Clara, destaques do festival que termina hoje, anunciam bons ventos vindos do Estado

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba 

 

Duas peças evocam as canções do Clube da Esquina e de Flávio Venturini. Não é difícil descobrir o lugar de onde elas falam. Mas o território do teatro mineiro desenhado neste 17º Festival de Curitiba, que termina hoje, dá notícias de outros horizontes.
Os espetáculos citados no parágrafo anterior são “Alguns Leões Falam”, da cia. Clara, e “Rubros: Vestido – Bandeira -Batom”, dirigido por Rita Clemente, atriz que também protagoniza “Dias Felizes: Suíte”. Ao lado de “Aqueles Dois”, que a cia. Luna Lunera emplacou na mostra oficial, esse quarteto evidencia os bons ventos que sopram da recente produção em artes cênicas do Estado.
São exemplos de trabalhos que buscam outras janelas estéticas e conceituais em dramaturgia, interpretação e encenação. Eles não são, necessariamente, tributários da linguagem popular que o Galpão forjou em 25 anos, ainda que o coletivo seja referência ao teatro de grupo (vide o peso do centro cultural Galpão Cine Horto).
A sensação é da fome pelo experimento com o desejo pela consistência, pelo rigor. “É vontade de fazer algo com qualidade. Não a técnica em si, mas tudo que envolva sensibilidade, busca pelo autêntico, urgência em falar sobre determinadas coisas”, diz Rita Clemente, 40, nome em interconexão com gerações mais novas, como a direção recente para o grupo Espanca! em “Amores Surdos”.
Mas ela ressalva o perigo de reducionismos. “Temos que tomar cuidado em não começar a inventar um pão de queijo de Minas. Ouço muito a palavra sensibilidade para se referir aos trabalhos, mas acredito mesmo é em sofisticação”, diz a autora de uma recriação de “Dias Felizes”, na qual a senhora de Beckett, enterrada no chão, emerge por meio de partituras física, imagética e musical, com instrumentistas ao vivo.
Revelação
Um dos momentos já memoráveis desta edição foi a “revelação” de Caio Fernando Abreu pela cia. Luna Lunera. Revelação porque o autor gaúcho é freqüentemente visitado no festival sob a tecla única do homoerotismo. O mundo de Saul e Raul em “Aqueles Dois” não corresponde às convenções da chefia e da turma com quem trabalham num escritório.
No conto homônimo, extraído de “Morangos Mofados” (1982), eles são amantes de filmes, das artes plásticas, da poesia, da música, donos de uma subjetividade que contrasta com a engrenagem burocrática, a ferrugem das formalidades num ambiente opressivo.
Os procedimento para multiplicar ou comprimir tempos e espaços são expostos na arena do teatro Paiol. Como sujeitos e narradores, os intérpretes jogam com o corpo, os objetos de época, o olhar. Chamam seu interlocutor, o público, a uma cumplicidade sem ilusões, como na melhor parte de um romance que deixa vir o cheiro, o toque, os outros sentidos.
Em “Alguns Leões Falam”, a via sensorial vem da palavra, do vazio espacial. Quando as instâncias se encontram, dá música, transborda a ação corporal. Como na amizade dos personagens, uma mulher e dois homens, no sentimento inaudito que os ligam desde a infância. A cia. Clara sublinha a dramaturgia como paisagem, introspectiva e quase sem diálogos.
Destes, sorvem as duas quarentonas de “Rubros”, texto de Adelia Nicolete. Ambas à deriva, cada uma se agarra como pode à vida -a casa cenográfica moldada e suspensa por fios ilustra a fragilidade das amigas que precisam reinventar quase tudo dali por diante.

Duas peças evocam as canções do Clube da Esquina e de Flávio Venturini. Não é difícil descobrir o lugar de onde elas falam. Mas o território do teatro mineiro desenhado neste 17º Festival de Curitiba, que termina hoje, dá notícias de outros horizontes.

Os espetáculos citados no parágrafo anterior são “Alguns Leões Falam”, da cia. Clara, e “Rubros: Vestido – Bandeira -Batom”, dirigido por Rita Clemente, atriz que também protagoniza “Dias Felizes: Suíte”. Ao lado de “Aqueles Dois”, que a cia. Luna Lunera emplacou na mostra oficial, esse quarteto evidencia os bons ventos que sopram da recente produção em artes cênicas do Estado.

São exemplos de trabalhos que buscam outras janelas estéticas e conceituais em dramaturgia, interpretação e encenação. Eles não são, necessariamente, tributários da linguagem popular que o Galpão forjou em 25 anos, ainda que o coletivo seja referência ao teatro de grupo (vide o peso do centro cultural Galpão Cine Horto).

A sensação é da fome pelo experimento com o desejo pela consistência, pelo rigor. “É vontade de fazer algo com qualidade. Não a técnica em si, mas tudo que envolva sensibilidade, busca pelo autêntico, urgência em falar sobre determinadas coisas”, diz Rita Clemente, 40, nome em interconexão com gerações mais novas, como a direção recente para o grupo Espanca! em “Amores Surdos”.Mas ela ressalva o perigo de reducionismos. “Temos que tomar cuidado em não começar a inventar um pão de queijo de Minas.

Ouço muito a palavra sensibilidade para se referir aos trabalhos, mas acredito mesmo é em sofisticação”, diz a autora de uma recriação de “Dias Felizes”, na qual a senhora de Beckett, enterrada no chão, emerge por meio de partituras física, imagética e musical, com instrumentistas ao vivo.

Revelação
Um dos momentos já memoráveis desta edição foi a “revelação” de Caio Fernando Abreu pela cia. Luna Lunera. Revelação porque o autor gaúcho é freqüentemente visitado no festival sob a tecla única do homoerotismo. O mundo de Saul e Raul em “Aqueles Dois” não corresponde às convenções da chefia e da turma com quem trabalham num escritório.

No conto homônimo, extraído de “Morangos Mofados” (1982), eles são amantes de filmes, das artes plásticas, da poesia, da música, donos de uma subjetividade que contrasta com a engrenagem burocrática, a ferrugem das formalidades num ambiente opressivo.

Os procedimento para multiplicar ou comprimir tempos e espaços são expostos na arena do teatro Paiol. Como sujeitos e narradores, os intérpretes jogam com o corpo, os objetos de época, o olhar.

Chamam seu interlocutor, o público, a uma cumplicidade sem ilusões, como na melhor parte de um romance que deixa vir o cheiro, o toque, os outros sentidos.

Em “Alguns Leões Falam”, a via sensorial vem da palavra, do vazio espacial. Quando as instâncias se encontram, dá música, transborda a ação corporal. Como na amizade dos personagens, uma mulher e dois homens, no sentimento inaudito que os ligam desde a infância. A cia. Clara sublinha a dramaturgia como paisagem, introspectiva e quase sem diálogos.

Destes, sorvem as duas quarentonas de “Rubros”, texto de Adelia Nicolete. Ambas à deriva, cada uma se agarra como pode à vida -a casa cenográfica moldada e suspensa por fios ilustra a fragilidade das amigas que precisam reinventar quase tudo dali por diante. 

Valmir Santos

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