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Folha de S.Paulo

Reencontro com Nelson

27.3.2008  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 27 de março de 2008

TEATRO 
Antunes Filho volta ao dramaturgo com “Senhora dos Afogados”, peça que considera uma “tragédia da esterilidade” 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Nos anos 90 ou nesta década, era comum deparar com Antunes Filho ensaiando ou dirigindo tragédias gregas. Fincou pé na possibilidade de um ator brasileiro capaz de trazer à luz Eurípides ou Sófocles sem os estereótipos da representação do gênero, a começar pela voz.
Ao retornar agora a Nelson Rodrigues (1912-1980), quase 20 anos depois, ele monta um dos mais potencialmente trágicos textos da dramaturgia nacional, “Senhora dos Afogados”, lançada em 1947.
“Aqui, a tragédia grega pode até ser um antimodelo para mim: acho que encontrei o equilíbrio entre um drama que às vezes beira o trágico, mas se permite as estocadas de humor.
O Nelson Rodrigues tem um pouco o espírito de porco, ele vai e cutuca, mas, se bobear, vira dramalhão”, diz o diretor do Centro de Pesquisa Teatral, que fica no Sesc Consolação, em São Paulo. É no teatro anexo àquele prédio, o Sesc Anchieta, que o CPT e o grupo Macunaíma estréiam amanhã um dos espetáculos mais aguardados do ano. Antunes, 78, está entre os criadores que ajudaram a desconstruir as convenções pornográficas ou melodramáticas em torno da obra do autor, principalmente no período dos anos 80. Já assinou cinco espetáculos, de 1965 a 1989, incluindo adaptações.
Apesar da bagagem, diz que encontrou mais dificuldades para “navegar” no seu novo Nelson -metáfora pertinente à sedução das águas na peça, “mar que não devolve os corpos e onde os mortos não bóiam”, como diz uma das personagens.
Pai e filha
Dificuldades não só estéticas, mas conceituais. Fica entusiasmado ao partilhar lampejo que experimentou no processo com a equipe de “Senhora dos Afogados”. “É a tragédia da esterilidade”, afirma.
Ou seja, o percurso da mulher que assassina as irmãs pela ambição de ser a filha única -e mulher de seu pai, já que empurra o próprio noivo para a mãe, que também morre- tem como desfecho a impotência.
Misael, o pai, morre no colo de Moema, a filha. Ela evita acariciar o corpo. “As mãos dela não têm mais utilidade. Matou tudo e todos para ter e não teve, não conseguiu, falhou”, diz Antunes.
Segundo ele, essa atmosfera lembra o espanhol Federico García Lorca em “Yerma”, que dirigiu em 1962, no TBC. “Ao contrários das personagens gregas, em “Senhora dos Afogados” não há a dimensão do sofrimento perpétuo. Morreu, acabou. É mixo, é brasileiro. É a tragédia brasileira.”
Essa dimensão também alcança o coro de vizinhos que testemunha e, às vezes, interage com os sofrimentos da família Drummond no casarão à beira-mar. Do cais, ouvem-se o lamento e a reza das prostitutas. Ao inconsciente coletivo (Jung) com o qual lida há tempos, o diretor conjuga o inconsciente estruturalista (Lacan) em busca do que acredita síntese tupiniquim dessas “figuras espectrais”.
“Viração”
“Os personagens do coro são capachos, o brasileiro sufocado pela sociedade patriarcal, hipócrita. O coro não tem a nobreza, ele está se virando, não teve vez. É o pessoal da “viração”, que desabafa contando piadas, tirando um sarro do sapato do outro ou quebrando um telefone público quando ninguém está vendo”, ilustra o diretor.
“Os vizinhos e as mulheres do cais são versões modernas das Erínias, deusas da vingança e do castigo, que nas tragédias gregas atormentavam os protagonistas. Mas são versões degradadas, que nada têm de sobrenatural”, diz a pesquisadora Leyla Perrone-Moisés no programa da peça.
O projeto artístico de Antunes quer falar de civilização brasileira. “Não adianta melhorarmos o nível econômico se não tivermos um nível cultural bom. Vira pão e circo”, afirma.
“Estou com o saco cheio de ter Pelés. Não pode ter um ali, outro lá, tem que ser todos, tem que dar uma assistência social e uma assistência cultural a todos”, diz.
Como artista, ele se diz “sufocado, desesperado com a sociedade de consumo”. E a ação social que Antunes diz almejar, a partir do que constata, é por meio da arte. Ainda neste ano, gostaria de ministrar o curso “O Olho do Espectador”, dois dias de encontro, com três horas cada um, no qual falaria aos participantes sobre o trabalho do ator e do encenador, para início de conversa. “O diretor massacra a platéia.
Eu já massacrei, com imagens, com sons, os atores gritando. Isso anestesia o público. Queria mostrar o que é um ator bom, o que é um ator estereotipado.”
SENHORA DOS AFOGADOS
Quando: estréia amanhã; sex. e sáb., às 21h, e dom., às 19h; até 27/7
Onde: teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 0/xx/11/3234-3000)
Quanto: R$ 5 a R$ 20

Nos anos 90 ou nesta década, era comum deparar com Antunes Filho ensaiando ou dirigindo tragédias gregas. Fincou pé na possibilidade de um ator brasileiro capaz de trazer à luz Eurípides ou Sófocles sem os estereótipos da representação do gênero, a começar pela voz. 

Ao retornar agora a Nelson Rodrigues (1912-1980), quase 20 anos depois, ele monta um dos mais potencialmente trágicos textos da dramaturgia nacional, “Senhora dos Afogados”, lançada em 1947. 

“Aqui, a tragédia grega pode até ser um antimodelo para mim: acho que encontrei o equilíbrio entre um drama que às vezes beira o trágico, mas se permite as estocadas de humor. 

O Nelson Rodrigues tem um pouco o espírito de porco, ele vai e cutuca, mas, se bobear, vira dramalhão”, diz o diretor do Centro de Pesquisa Teatral, que fica no Sesc Consolação, em São Paulo. É no teatro anexo àquele prédio, o Sesc Anchieta, que o CPT e o grupo Macunaíma estréiam amanhã um dos espetáculos mais aguardados do ano. Antunes, 78, está entre os criadores que ajudaram a desconstruir as convenções pornográficas ou melodramáticas em torno da obra do autor, principalmente no período dos anos 80. Já assinou cinco espetáculos, de 1965 a 1989, incluindo adaptações. 

Apesar da bagagem, diz que encontrou mais dificuldades para “navegar” no seu novo Nelson -metáfora pertinente à sedução das águas na peça, “mar que não devolve os corpos e onde os mortos não bóiam”, como diz uma das personagens. 

Pai e filha
Dificuldades não só estéticas, mas conceituais. Fica entusiasmado ao partilhar lampejo que experimentou no processo com a equipe de “Senhora dos Afogados”. “É a tragédia da esterilidade”, afirma.Ou seja, o percurso da mulher que assassina as irmãs pela ambição de ser a filha única -e mulher de seu pai, já que empurra o próprio noivo para a mãe, que também morre- tem como desfecho a impotência. 

Misael, o pai, morre no colo de Moema, a filha. Ela evita acariciar o corpo. “As mãos dela não têm mais utilidade. Matou tudo e todos para ter e não teve, não conseguiu, falhou”, diz Antunes. Segundo ele, essa atmosfera lembra o espanhol Federico García Lorca em “Yerma”, que dirigiu em 1962, no TBC. “Ao contrários das personagens gregas, em “Senhora dos Afogados” não há a dimensão do sofrimento perpétuo. Morreu, acabou. É mixo, é brasileiro. É a tragédia brasileira.” 

Essa dimensão também alcança o coro de vizinhos que testemunha e, às vezes, interage com os sofrimentos da família Drummond no casarão à beira-mar. Do cais, ouvem-se o lamento e a reza das prostitutas. Ao inconsciente coletivo (Jung) com o qual lida há tempos, o diretor conjuga o inconsciente estruturalista (Lacan) em busca do que acredita síntese tupiniquim dessas “figuras espectrais”. 

“Viração”
Os personagens do coro são capachos, o brasileiro sufocado pela sociedade patriarcal, hipócrita. O coro não tem a nobreza, ele está se virando, não teve vez. É o pessoal da “viração”, que desabafa contando piadas, tirando um sarro do sapato do outro ou quebrando um telefone público quando ninguém está vendo”, ilustra o diretor. 

“Os vizinhos e as mulheres do cais são versões modernas das Erínias, deusas da vingança e do castigo, que nas tragédias gregas atormentavam os protagonistas. Mas são versões degradadas, que nada têm de sobrenatural”, diz a pesquisadora Leyla Perrone-Moisés no programa da peça. 

O projeto artístico de Antunes quer falar de civilização brasileira. “Não adianta melhorarmos o nível econômico se não tivermos um nível cultural bom. Vira pão e circo”, afirma. “Estou com o saco cheio de ter Pelés. Não pode ter um ali, outro lá, tem que ser todos, tem que dar uma assistência social e uma assistência cultural a todos”, diz. 

Como artista, ele se diz “sufocado, desesperado com a sociedade de consumo”. E a ação social que Antunes diz almejar, a partir do que constata, é por meio da arte. Ainda neste ano, gostaria de ministrar o curso “O Olho do Espectador”, dois dias de encontro, com três horas cada um, no qual falaria aos participantes sobre o trabalho do ator e do encenador, para início de conversa. “O diretor massacra a platéia. 

Eu já massacrei, com imagens, com sons, os atores gritando. Isso anestesia o público. Queria mostrar o que é um ator bom, o que é um ator estereotipado.”



Peça: Senhora dos afogados
Quando: estréia amanhã; sex. e sáb., às 21h, e dom., às 19h; até 27/7
Onde: teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 0/xx/11/3234-3000) 
Quanto: R$ 5 a R$ 20

Valmir Santos

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