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O Diário de Mogi

Metáfora pálida de Drácula

8.3.2010  |  por Valmir Santos

O Diário de Mogi, sem data. Caderno A – capa

 

VALMIR SANTOS

 

O espírito da brincadeira em “Nas Trilhas da Transilvânia”, o esboço, um ano atrás, está presente no primeiro ato de “Drácula e Outros Vampiros”, título da montagem agora em cartaz em São Paulo. Antunes Filho, aos 67 anos, libera sua verve juvenil no novo espetáculo.

Com um elenco repleto de adolescentes, a sensação é de que estamos acompanhando um bando de estudantes aprontando das suas num playground de horror e riso.

De fato, na primeira parte, com exceção do transe efêmero provocado pela vibração dos movimentos dos atores, adaptado de uma dança de Bali (kecak), não há indícios de um trabalho do qual o público assimile imediatamente se tratar da assinatura do diretor, um mestre da cena brasileira.

Um Antunes surpreendente e aventureiro é o que desponta nesta montagem do Centro de Pesquisa Teatral (CPT). A começar pelo peso do tratamento visual em cena. Parênteses para a equipe de J.C. Serroni, com um cenário entranhado no mito do vampiro, sobretudo nas texturas. Idem para o tratamento de sombra na iluminação de Davi de Brito.

No início, muito gelo seco ao som de Black Sabbath. A competente trilha sonora de Raul Teixeira é crucial nas passagens em que a atmosfera, a instalação do clima (gótico ou passional, com direito a tango), importa mais do que propriamente o jogo interpretativo.

Sim, o ator que Antunes sempre colocou em primeiro plano, surge aqui diluído. O álibi talvez fique por conta da safra de novatos, a maioria com “bagagem” de apenas quatro meses de CPT.

Resta a investida no coletivo, na “coreografia” de palco que o diretor domina muito bem. O deslocamento dos coros (Mortos-Vivos, Comitê de Recepção e Dracula’s Club, por exemplo) se dá harmoniosamente no espaço cênico.

Antunes inverte a expectativa para trazer à tona o “trash” que assume em sua formação. Permite-se revelar um outro lado criador – mais anárquico, por que não? É escancarado o ar patético com o qual constrói o Drácula interpretado por Eduardo Cordobhess. Um Drácula palhaço.

No segundo ato, volta o encenador-cabeça. E “Drácula e Outros Vampiros” diz a que veio. Entra em cena a metáfora da burguesia sanguessuga e da direita extremista que avança à beira do próximo milênio. A síntese do espetáculo demora, mas aparece: a cena em que Drácula é convertido em Hitler, emoldurado no esquife, discursando raivosamente. A intolerância está na ordem do dia.

Mas não é o arremate antuniano que se esperava. Apesar das várias citações (o coreógrafo Kurt Jooss, a cineasta Leni Riefenstahl, o escritor Baudelaire), a peça resulta uma metáfora pálida. Nem Sepultura, ao final, dissimula a frustração. A concepção da montagem que fruía na cabeça de Antunes quando da conversa com os jornalistas, na véspera da estréia, prometia mais encantamento e fúria.

 

DRÁCULA E OUTROS VAMPIROS – Concepção e direção: Antunes Filho. Com Grupo Macunaíma (Lulu Pavarin, Geraldo Mário. Ludmila Rosa e outros). Quarta a sábado, 21h; domingo, 19h. TEATRO SESC ANCHIETA  (rua Doutor Vila Nova, 245, Vila Buarque, tel. 256-2281). R$ 16,00 e R$ 20,00 (sábado). 75 minutos

Quem assistiu ao espetáculo “Brincante”, que fez temporada em São Paulo ano passado e agora está em cartaz no Rio de Janeiro, conferiu um dos trabalhos mais bonitos do teatro nacional contemporâneo. O pernambucano Antônio Nóbrega encantou com a brasilidade mostrada no palco: um cadinho do folclore nordestino em meio à dura realidade de um povo, acostumado a sobreviver combatendo principalmente a fome.
“Brincante” já se mostrava com potencial religioso. O personagem de Nóbrega, o funâmbulo Tonheta, antes de mais nada, tinha fé na alegria de viver. O amor lhe movia montanhas. Um dos responsáveis pelo sucesso de “Brincante”, o artista plástico Romero de Andrade Lima, autor do belo cenário, agora brinda o público com uma montagem própria, “Auto da Paixão”, onde mistura teatro, artes plásticas e canto.
A idéia de “Auto da Paixão” surgiu quando Lima teve de criar uma encenação para a vernissage de uma exposição sua, realizada em maio. As três noites de apresentação se transformaram em sete, por causa da grande procura. Limam, então, decidiu montar uma companhia com As Pastorinhas, um coro formado por 12 meninas.
Elas percorrem 12 retábulos/esculturas de lima que representam a Paixão de Cristo, com narração (feita pelo próprio autor) e cânticos sobre a vida de Jesus. O espetáculo recria procissões, reisados e pastoris, resgatando o espírito da festa popular nordestina, combinando sagrado e profano.
“Auto da Paixão” é como uma procissão. O público acompanha o coro que percorre as obras de Lima, instaladas em pontos diferentes do galpão Brincante, uma cria de Nóbrega, em plena Capital. Guardadas as devidas proporções, a polêmica peça encenada na Igreja Santa Ifigênia.
O espetáculo de Romero de Andrade Lima só é prejudicado pelo excesso de espectadores. As cem pessoas tornam a movimentação das pastorinhas um tanto tensa. A cada cena, elas são obrigadas a se espremer entre o público para se deslocar.
Ademais, “Auto da Paixão” é um deleite para olhos e alma. O repertório é composto de toadas populares que Lima escutava na casa do tio Ariano Suassuna, mentor do movimento Armorial na década de 70. O clima barroco (cenários, iluminação, figurino) transporta a um estado delicado do ser, a uma contemplação do divino de perto. Um espetáculo imperdível.
Auto da Paixão – De Romero de Andrade Lima. Com As Pastorinhas. De quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. Cr$ 200 mil (quinta a sábado) e Cr$ 250 mil (domingo). Teatro Brincante (rua Purpurina, 428, tel. 816-0575). Até dia 15 de agosto.
Valmir Santos

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