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contracena

A cena como documento vivo de uma poeta [crítica Por que a criança cozinha na polenta]

18.5.2010  |  por Valmir Santos

polenta2(texto publicado originalmente em setembro de 2009, durante o 24º Festivale, Festival de Teatro do Vale do Paraíba, em São José dos Campos)

 

Assim como o cinema, o teatro pode usar o documentário para aproximar-se dos fatos da realidade premente ou pretérita. O arista ou o grupo garimpa esse material para tratá-lo como dramaturgia, como cena. Espera-se do processo de edição uma perspectiva não unidimensional, porque empobrecedora. Um exemplo: em Eduardo Coutinho, às voltas com um pendor cada vez mais teatral em seus filmes, as imagens e os depoimentos são polissêmicos e fazem a vida transbordar de qualquer jeito, seja o roteiro estruturado de forma aberta ou não. A instância do humano está preservada. O espetáculo que a Companhia Mugunzá traz a São José é disparador dessas sensações em torno do fazer artístico.

 

Por que a criança cozinha na polenta promove um feliz encontro da autora romena Aglaja Veteranyi, uma estudiosa da linguagem escrita, com o diretor Nelson Baskerville, um entusiasta da significação simbólica para além das primeiras camadas. Ainda que jamais tenham presenciado o olhar um do outro – ela pôs fim à vida em 2002 -, impressiona o diálogo estabelecido entre a encenação e o livro de mesmo nome adaptado, um romance autobiográfico, mas não só. E autobiográfica, mas não só, é a montagem que traz à baila uma história de dor e abandono, ainda que uma história de superação pela Arte até onde a narradora/autora pôde suportar na vida e na ficção.

 

Tanto a palavra, em Aglaja, quanto a cena, em Baskerville, convergem para uma espécie de “docudrama”. O neologismo cinematográfico quer dar conta do equilíbrio entre o vivido e o gestado. Essa retroalimentação serve como matéria-prima para o ato criador. Aglaja revisita memórias pessoais como experimento de linguagem literária. Tudo o que conta vem por meio da sua criança, testemunha da violência doméstica ou do mundo lá fora, lugares da brutalização pelo alcoolismo, pelo abuso infantil e outras formas de exploração. No seio de uma família de circo, pai palhaço e mãe trapezista, ela teve a condição humana aviltada em vários momentos. Um prato cheio para cair no melodrama, ressentimentos, comiseração. Ao contrário, Aglaja sublinha a escrita com talento para narrar com muita criatividade, mantendo o olhar e a voz da criança como lampejos de verdades à flor da pele.

 

A reconstituição cênica adaptada do livro lança mão da projeção de imagens de época da sanguinária ditadura comunista do presidente Nicolae Ceausescu, submetido a julgamento sumário após insurreição popular e executado em praça pública ao lado da mulher, em dezembro de 1989. Naqueles anos, a Romênia fazia jus ao epíteto de “pátria do vampiro”, pespegado por causa da região da Transilvânia onde Drácula teria nascido. O contexto político perpassa o texto com a perseguição étnica, o embate democracia versus comunismo, a rejeição aos imigrantes. A autora entrelaça intimismo à espiral intercultural sem jamais perder a essência de sua voz.

 

Outros fragmentos de imagens históricos da própria autora, de seu pai, o palhaço Tandarica, que também faz às vezes de cineasta, compõem o suporte fílmico que pontua o espetáculo num processo de colagem parecido com o aplicado por Marcelo Masagão em Nós que aqui estamos por vós esperamos. A montagem teatral ainda projeta na tela, ao fundo, trechos mudos ficcionais que corroboram a narrativa. Os atores em carne e osso são também aqueles que deambulam pelo filme feito um Chaplin ou Buster Keaton, criando um outro interessantíssimo nível de leitura ao espectador.

 

Na disposição da cena, Baskerville estilhaça os planos como na literatura de Aglaja. Ergue um eficiente hipertexto no ir e vir dessa família circense, cigana e nômade por natureza. Às almas deformadas corresponde uma intensidade expressionista que está no corpo, no figurino, no cenário, na imagem. Essa subjetividade cambiante inclui intervenções ao microfone, a música operada ou executada pelos atores, a comida preparada também por eles, cujo cheiro toma conta do ambiente, os signos do manequim e das muletas, a automutilação representada numa tampa de alumínio retorcida, e por aí segue.

 

O espectador faz seu caminho nesse mundo engendrado pelos olhos de uma criança. Como na cena que traduz o desamparo dela e da irmã vendidas a outra família: um cortejo cruza o espaço cênico lentamente, marchando para o desfazimento do núcleo. A caçula arrasta-se aos pés dos pais feito um cão com medo de ser abandonado. Aliás, seu cachorro de fato e sua boneca são interlocutores decisivos para salvar-se pela imaginação. Quando vivia com sua irmã, esta lhe contava várias versões sobre a criança que cozinha na polenta, uma lenda romena equivalente à do bicho papão. Em sua cabeça, parecia difícil distinguir o inferno da vida e o inferno da panela.

 

As cenas e as páginas percorrem a infância, a adolescência e a fase adulta dessa narradora sempre vinculada à família disfuncional, mesmo quando apartada. É por isso que tenta ser estrela do show business, em busca da fama que seus pais não tiveram em suas empreitadas artísticas – ainda que grandes artistas, mas abortados por existências dilaceradas. A Companhia Mungunzá de Teatro é muito corajosa ao expor tudo isso com inventividade e risco, bons atores e um cuidado em não violentar ainda mais essas histórias de vida tão fragilizadas, sendo moralista ou prejulgando. “Eu só era alguém antes de nascer”, lemos na tela a sentença prematura da menina, num dos momentos de suspensão. Aglaja transforma sua história de vida em Arte, mesmo submetida ao desapego, à melancolia e ao questionamento perpétuo dos desígnios divino e humano feito um Jó de saias.

 

Valmir Santos

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