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O Diário de Mogi

Entrevistado

21.11.2010  |  por Valmir Santos

 

 

GAZETA DO POVO – CADERNO G, 30.out.2010

 

CÊNICAS
O teatro curitibano sob olhar dos críticos

 

Valmir Santos, de São Paulo, e Daniel Schenker, do Rio de Janeiro, estão na cidade para refletir sobre a cena local

 

Esta semana, a cena teatral curitibana está sob o olhar de dois críticos de atuação nacional. Daniel Schenker, carioca, veio à cidade como convidado para assistir à 6.ª Mostra Cena Breve e publicar no blog do evento suas reflexões. Valmir Santos, paulista que há dois anos cumpriu a mesma tarefa do colega, retorna para debater os espetáculos do 2.º Pequeno En contro de Teatro para Crianças de Todas as Idades.

 

Foi o primeiro contato mais intenso de Santos com o teatro infantil feito na cidade. Bonecos e objetos animados dominaram a cena nas primeiras apresentações. “As duas primeiras semanas do Pequeno Encontro foram tomadas por temas da memória e dos jogos e brincadeiras abordados com inteligência, combinando conteúdos mirins ou de ‘gente grande’ com investimento no apuro de linguagem”, avalia o crítico.

 

Ele destaca a surpresa que teve ao conhecer a história de mais de duas décadas da Companhia Filhos da Lua com o teatro de mamulengo, “à altura do que se vê no Nordeste”, e reconhece a clareza da pesquisa de linguagem feita pela Cia. do Abração rumo a uma dramaturgia “de traços existencialistas”, que fala de velhice e ancestralidade.

Se identificou “deslizes menores”, caso de problemas em um ou outro texto, intérpretes desnivelados ou “resquícios de entretenimento caricatural”, Santos os credita ao modo de produção volátil das companhias, que não permite o tempo de dedicação exclusiva necessário à lapidação das criações.

 

Adultos

 

Entre as atrações para crianças, o crítico pôde assistir a um espetáculo tramado para o público adulto que lhe causou excelente impressão: Os Invisíveis, da Armadilha, cuja temporada se encerrou há uma semana no Novelas Curitibanas. “Saí admirado pela inventividade na dramaturgia e direção de Diego Fortes, pela forte presença do elenco com Maureen Miranda, Ludmila Nascarella e Alan Raffo. É montagem para figurar nos melhores festivais do país.”

 

Unindo os dois cenários, o adulto e o infantil, Santos considera o mais instigante na cidade essa “vocação para o teatro de pesquisa”, além da dramaturgia que se lança além das palavras, para narrar também pelo corpo, objetos, luz e espaço. “A cena expandida é perceptível em Olga Nenevê, Paulo Biscaia, Marcio Abreu, Sueli Araujo, Marcos Damasceno, Cia. Silenciosa”, cita.

Recém-chegado para a Cena Breve, Daniel Schenker admite ter uma “visão bastante parcial” do teatro local, construída durante a cobertura anual do Festival de Curitiba.

 

“Em todo caso, considerando os espetáculos que vejo e também os que desembarcam no Rio de Janeiro, não há como deixar de destacar o trabalho continuado da Cia. Brasileira de Teatro. Fiquei particularmente impressionado com a montagem para Apenas o Fim do Mundo, de Jean-Luc Lagarce. Felipe Hirsch também vem desenvolvendo trabalho sólido com a Sutil Cia., particularmente, Por um Novo Incêndio Romântico, A Memória da Água e Thom Payne/Lady Grey”, diz.

Em contrapartida, nas visitas ao Fringe, Schenker nota uma tendência a investimentos em espetáculos comerciais, “flagrantemente televisivos”.

 

Sem concessões

 

O papel do crítico deve ser o de “colocar-se como mediador entre o público e o criador, sem fazer concessões para nenhum dos lados”, acredita Valmir Santos. Para tanto, julga ser fundamental, ao formular uma reflexão, ter a consciência de para quem se escreve.

Shenker acrescenta que ideal seria o crítico de teatro de algum modo integrar o processo criativo, em vez de apenas dar um juízo de valor diante de uma obra fechada. “Afinal, o espetáculo teatral, diferentemente de um filme, é um organismo vivo, que sofre mudanças a cada apresentação”, argumenta.

 

Para o carioca, não se pode comparar a crítica praticada na atualidade à feita por Decio Almeida Prado “no formato de capítulos” ou mesmo ao espaço ocupado nos anos 80. No Rio de Janeiro, ele destaca o trabalho cumprido por Macksen Luiz no Jornal do Brasil e por Daniele Ávila e Dinah Cesare na revista eletrônica Questão de Crítica.

 

A transição para a crítica on-line é a tendência identificada por Santos, que a exerce no site Teatro Jornal. Mas a atividade crítica ainda se sustenta nos veículos impressos, diz. “É auspicioso, por exemplo, ver dois críticos escalados para a cobertura teatral na Folha de São Paulo, quando seu concorrente local, O Estado de S.Paulo, já vinha de revezar dois ou três profissionais. Na im prensa paulista, os críticos mais influentes são Mariangela Alves de Lima (O Estado de S.Paulo) e Luiz Fernando Ramos (Folha de S.Paulo).”

 

O paulista levanta um porém. “Ainda fico com a sensação de que a recepção crítica, em geral, não consegue dar conta das mudanças que estão acontecendo no mapa do teatro brasileiro, com avanços dramatúrgicos e estéticos para além do chamado eixo Rio-São Paulo. Falta-nos uma crítica que redimensione esse caráter nacional do teatro contemporâneo.”

 

Serviço:

6ª Mostra Cena Breve. Teatro Novelas Curitibanas (Rua Carlos Cavalcanti, 1.222), (41) 3222-0355. Hoje: 1999=10 – com Quem Somos Nós?; Calçolas – com o Núcleo Vagapara; Prólogos – com a Cia. Subjétil. Amanhã: Se Conselho Fosse Bom Seria Ação de Classificados – com os Cães Lacrimosos; RG – 38 e Mais Nada – com a Cia. As Medéias; O Treinador – com a Pausa Cia. Às 19 e 21 horas. R$ 10 e R $5 (meia).

2º Pequeno Grande Encontro de Teatro para Crianças de Todas as Idades. Teatro José Maria Santos (R. Treze de Maio, 655), (41) 3322-7150. Hoje: Surpresa – com a Cia. Manoel Kobachuk. Amanhã: Sobrevoar – com a Cia. do Abração. Às 16h. R$ 10.

 

 

 

Valmir Santos

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