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Valor Econômico

O retábulo e o tabuleiro [Piollin Grupo de Teatro adapta Osman Lins]

23.11.2010  |  por Valmir Santos

Teatro: O Piollin Grupo, da Paraíba, leva para palcos do Nordeste a linguagem de Osman Lins com montagem de narrativa da década de 60

 

Por Valmir Santos | Para o Valor

 

Caderno Eu & Fim de Semana – 12/11/2010

 

Osman da Costa Lins contava apenas 16 dias quando sua mãe,Maria da Paz, casada com o alfaiate Teófanes, morreu em decorrência decomplicações no parto. O autor nunca viu uma fotografia dela. Atravessou os 54anos de vida, até 1978, construindo com a imaginação um rosto ausente. Metáforaque acreditou traduzir à perfeição o ofício de escritor. Seu texto mais famosoé o da peça “Lisbela e o Prisioneiro”, de 1961, popularizada pelasversões de Guel Arraes para o cinema e a TV. Ele Nasceu em Vitória de SantoAntão, na zona da mata pernambucana, e foi criado, sobretudo, pela avó paterna,Joana Carolina, a quem esculpe um memorial na mais longa e considerada maisbela das narrativas de “Nove, Novena”, obra experimental que oprojetou internacionalmente em 1966. Retábulos são figuras pintadas ou talhadasgeralmente em madeira ou mármore para ornamentar altares e podem representaruma história em série.

 

Os 12 mistérios de Joana Carolina (como os passos na Paixãode Cristo ou os signos zodiacais, observa o poeta José Paulo Paes), seussofrimentos de mulher simples do povo, “a vida de provações, de pertináciae de inquebrantável firmeza de ânimo de uma modesta professora de roça”,serão encenados pelo Piollin Grupo de Teatro, da Paraíba.

 

A estreia nacional será no dia 23, no Teatro Sesc SenacIracema, em Fortaleza. Seguem-se apresentações em Natal (8 a 12/12), Salvador(7 a 11/1) e a temporada em João Pessoa (20/1 a 27/3). É a chance de o núcleo integradopelo ator e diretor Luiz Carlos Vasconcelos dar um salto em relação a “Vauda Sarapalha”, de 1992, marco em 33 anos de atividades do grupo e da escolahomônima e ainda não transcendido esteticamente, para bem e para mal. O trunfona transposição teatral de “Sarapalha”, conto do mineiro João GuimarãesRosa (1908-1967) pinçado da coletânea “Sagarana”, como que estancou opotencial daquela geração de atores paraibanos (Everaldo Pontes, Nanego Lira,Servilio de Holanda e Soia Lira, o quarteto remanescente, entre outros).

 

“Era tamanha a expectativa pelo impacto despertado quetalvez por disso ‘Sarapalha’ tenha nos silenciado por 18 anos. Agora, com a mãona massa novamente, com todo o grupo mobilizado, estou fazendo o que maisaprecio: buscar respostas”, diz Vasconcelos. Pelo menos por ora ele andarecolhido dos sets de filmagem que frequenta há 13 anos (o 11º longa-metragemfoi “O Sol do Meio-Dia”, de 2009, dirigido por Eliane Caffé). E dasapresentações do palhaço Xuxu, que carrega na alma há 32 anos sob influênciasdiretas da infância em Umbuzeiro (PB).

“Há um avanço na concepção da montagem de ‘Retábulo’. Adramaticidade é desconstruída o tempo todo. Ela é ‘desteatralizada’. Osman vemnos propor outra dimensão. A gente o subverte também, em um momento ou outro,mas trazendo a palavra como camada fundamental”, diz o diretor. Em”Vau da Sarapalha”, o verbo é desbastado pela gestualidade, aescritura física dos personagens. Dialogar com a busca de Lins por novos rumosna literatura, e não por aparentes rupturas, implica encontrar uma teatralidadecorrespondente.

 

A introdução de Vasconcelos ao rigor matemático,superposições de planos e os quadrados mágicos da obra do autor que foifuncionário de banco e professor de letras ocorreu em pleno Encontro Mundialdas Artes Cênicas, o Ecum de 1998, em Belo Horizonte. Saiu de lá impregnado docaráter poético e geométrico do romance “Avalovara”, de 1973, cujotítulo é o nome de um pássaro imaginário. Um momento de decisiva modernidade naliteratura brasileira, como prefaciou o crítico Antonio Candido no livro,”que carreia elementos narrativos do fundo dos séculos, mas também sepassa nalguns instantes, num quarto fechado, sobre um tapete que se perde acada momento no rumo do fantástico”.

 

“Avalovara” pousa sobre a própria elaboração, metalinguagempara um enredo em jogo palindrômico. Dele o diretor toma emprestada acomposição de uma frase pelo protagonista, o escritor Abel, disposta em cincolinhas e lida em todas as direções: da esquerda para a direita, da direita paraa esquerda, de cima para baixo, de baixo para cima. Trata-se das 25 casasrelativas às letras de “SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS”, grafadasassim. O palíndromo latino ficcional quer dizer: “O lavrador mantémcuidadosamente a charrua nos sulcos”. Ou ainda: “O lavrador sustém cuidadosamenteo mundo em sua órbita”.

 

Quando se indagou sobre a possibilidade de fazer vingar umacena palindrômica, Vasconcelos não vislumbrava que ela só se daria no instanteda ação transcorrida no tempo e no espaço sobre um tabuleiro. Eis o eixo da novacriação do Piollin. “Fiquei fascinado com a ideia de construir um espetáculoem cima de estrutura preexistente”, afirma. O espaço cênico desenhado em25 partes é ocupado simultaneamente pelos atores e pelo público. Somam-se cincointérpretes (Allan Monteiro, Buda Lira, Ingrid Trigueiro, Luana Lima e SuziLopes) com o intento de valorizar as intervenções corais, sob preparação vocale composição musical de Eli-Eri Moura.

 

A jornada de ensaios vem desde janeiro. O mergulhoincondicional se deu sob o prisma osmaniano e sua paradoxal abolição daperspectiva. “Uma determinada visão do universo, um mundo’presentificado’, sem passado e sem futuro, ou melhor, um imenso presente, queengloba o passado e o futuro”, escreveu a viúva dele, a escritora Julietade Godoy Ladeira (1935-1997). No prefácio à teatralização de Mariajosé deCarvalho para a mesma “Retábulo de Santa Joana Carolina”, publicadaem 1991 pelas editoras Loyola/Giordano, ilustrada por Marianne Jolowicz e com aíntegra da narrativa – Lins preferia defini-la assim a conto ou novela, Julietarememora a visita do casal a um museu de Barcelona, em 1967. O alumbramento doescritor no centro de uma sala, braços abertos e cercado por retábulosmedievais e pela força dos traços primitivos, exprimia a emoção de se verdiante da estética que trabalhara com as palavras e resultara, um ano antes, em”Nove, Novena”.

 

Para a adaptação de “Retábulo”, Vasconcelos contacom a assistência dramatúrgica de Márcio Marciano, cofundador da Companhia doLatão em São Paulo e há cinco anos radicado em João Pessoa, onde integra oColetivo de Teatro Alfenim. No livro, a narrativa inclui sinais identificadores(triângulos, quadrados e outros desenhos) que indicam vozes, entrada ou saídade personagens como nas rubricas do teatro, até mesmo fundindo-os. O desejo detransmigrar a cosmogonia de Osman Lins para o teatro leva os artistas do Piollina buscar a própria imagem para aquele rosto invisível que o escritor tocou compalavras no décimo mistério de Joana Carolina, descrita no leito de morte, aos86 anos, com a “beleza secreta” que a velhice não apagou, “uma flama,um arrebatamento e uma nobreza que pareciam desafiar a vida e suas garras”.

 

www.piollingrupodeteatro.com

 


Valmir Santos

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