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O retábulo e o tabuleiro [reportagem]

22.11.2010  |  por Valmir Santos

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Por Valmir Santos

 

Osman da Costa Lins contava apenas 16 dias quando sua mãe, Maria da Paz, casada com o alfaiate Teófanes, morreu em decorrência de complicações no parto. O autor nunca viu uma fotografia dela. Atravessou os 54 anos de vida, até 1978, construindo com a imaginação um rosto ausente. Metáfora que acreditou traduzir à perfeição o ofício de escritor. Seu texto mais famoso é o da peça Lisbela e o prisioneiro, de 1961, popularizada pelas versões de Guel Arraes para o cinema e a TV. Ele Nasceu em Vitória de Santo Antão, na zona da mata pernambucana, criado, sobretudo, pela avó paterna Joana Carolina, a quem esculpe um memorial na mais longa e considerada mais bela das narrativas de Nove, novena, obra experimental que o projetou internacionalmente em 1966. A linguagem ousada de Retábulo de santa Joana Carolina, o eu multifacetado, levou o editor francês a rebatizar o livro com esse título, e não como no original. Retábulos são figuras pintadas ou talhadas geralmente em madeira ou mármore para ornamentar altares e podem representar uma história em série. Os 12 mistérios de Joana Carolina (como os passos na Paixão de Cristo ou os signos zodiacais, observa o poeta José Paulo Paes), seus sofrimentos de mulher simples do povo, “a vida de provações, de pertinácia e de inquebrantável firmeza de ânimo de uma modesta professora de roça”, serão encenados pelo Piollin Grupo de Teatro, da Paraíba.

 

A estreia nacional é prevista para 23 de novembro de 2010, no Teatro Sesc Senac Iracema, em Fortaleza. Seguem-se apresentações em Natal (8 a 12/12, no Barracão do Clows), Salvador (7 a 11/1, no Teatro Vila Velha) e finalmente a temporada em João Pessoa (20/1 a 27/3, no Teatro Piollin). É a chance de o núcleo integrado pelo ator e diretor Luiz Carlos Vasconcelos dar um salto em relação a Vau da Sarapalha, de 1992, um marco em 33 anos de atividades, do grupo e da escola homônima, e ainda não transcendido esteticamente, para bem e para mal. O trunfo na transposição teatral de Sarapalha, conto do mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967) pinçado da coletânea Sagarana, como que estancou o potencial daquela geração de atores paraibanos (Everaldo Pontes, Nanego Lira, Servilio de Holanda e Soia Lira, o quarteto remanescente, entre outros).

 

“Era tamanha a expectativa pelo impacto despertado que talvez por disso ‘Sarapalha’ tenha nos silenciado por 18 anos. Agora, com a mão na massa novamente, com todo o grupo mobilizado, estou fazendo o que mais aprecio: buscar respostas”, diz Vasconcelos. Pelo menos por ora ele anda recolhido dos set de filmagens que frequenta há 13 anos (o 11º longa-metragem foi O sol do meio-dia, de 2009, dirigido por Eliane Caffé). E das apresentações do palhaço Xuxu que carrega na alma há 32 anos sob influências diretas da infância em Umbuzeiro (PB).

 

Lins e Rosa conectam-se no repertório do Piollin por meio do referente regional e pela inventividade cerebral, adeptos que eram do poeta francês Paul Valéry (1871-1945), para quem a liberdade nasce do rigor. “Mas enquanto as ‘inovações’ de Guimarães Rosa realizam-se sobretudo no nível das estruturas mínimas da narrativa, na invenção de palavras e de expressões particulares, as de Osman Lins situam-se no nível das estruturas mais amplas, na disposição dos fatos contados, na pesquisa de novas técnicas narrativas”, observa a professora Leyla Perrone-Moisés na apresentação à edição francesa de Nove, novena.

 

“Há um avanço na concepção da montagem de Retábulo. A dramaticidade é desconstruída o tempo todo. Ela é ‘desteatralizada’. Osman vem nos propor outra dimensão. A gente o subverta também, em um momento ou outro, mas trazendo a palavra como camada fundamental”, explica o diretor. Em Vau da Sarapalha, o verbo é desbastado pela gestualidade, a escritura física dos personagens. Dialogar com a busca de Lins por novos rumos na literatura, e não por aparentes rupturas, implica encontrar uma teatralidade correspondente.

 

Faz 12 anos que Vasconcelos está em contato com o rigor matemático, os recursos gráficos, a superposição de planos, a variedade de enfoques e os quadrados mágicos da obra do autor que foi funcionário de banco e professor de letras. A introdução ocorreu em pleno Encontro Mundial das Artes Cênicas, o Ecum de 1998, em Belo Horizonte. Saiu de lá impregnado de caráter poético e geométrico do romance Avalovara, de 1973, cujo título é o nome de um pássaro imaginário. Um momento de decisiva modernidade na literatura brasileira, como prefaciou o crítico Antonio Candido no livro “que carreia elementos narrativos do fundo dos séculos, mas também se passa nalguns instantes, num quarto fechado, sobre um tapete que se perde a cada momento no rumo do fantástico”.

 

Avalovara pousa sobre a sua própria elaboração, metalinguagem para um enredo em jogo palindrômico. Dele, o diretor empresta a composição de uma frase pelo protagonista, o escritor Abel, disposta em cinco linhas e lida em todas as direções: da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, de cima para baixo, de baixo para cima. Trata-se das 25 casas relativas às letras de “SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS”, grafadas assim. O palíndromo latino ficcional quer dizer: “O lavrador mantém cuidadosamente a charrua nos sulcos”. Ou ainda: “O Lavrador sustém cuidadosamente o mundo em sua órbita”.

 

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Quando se perguntou da possibilidade de fazer vingar uma cena palindrômica, Vasconcelos não vislumbrava que a mesma só se daria no instante da ação transcorrida no tempo e no espaço sobre um tabuleiro. Eis o eixo da nova criação do Piollin. “Fiquei fascinado com a ideia de construir um espetáculo em cima de estrutura preexistente”, afirma. O espaço cênico desenhado em 25 partes é ocupado simultaneamente pelos atores e pelo público. Somam-se cinco intérpretes (Allan Monteiro, Buda Lira, Ingrid Trigueiro, Luana Lima, e Suzi Lopes) com o intento de valorizar as intervenções corais sob preparação vocal e composição musical de Eli-Eri Moura.

 

O grau de elaboração tem a ver com a militância de Osman Lins pela arte da literatura, ele que também foi um ensaísta dos problemas culturais do país, como declarou ao pernambucano Jornal do Comércio no ano de sua morte: “O público, infelizmente muito viciado com fórmulas superadas, está percebendo com muita lentidão que romance não é bombom, algo para ser sugado distraidamente”. É a sofisticação que Retábulo, o espetáculo, ambiciona proporcionar.

 

A jornada de ensaios vem desde janeiro. No princípio, foram tangenciados contos de outro escritor nordestino, o cearense Ronaldo Correia de Brito, mas o mergulho incondicional se deu sob o prisma osmaniano e sua paradoxal abolição da perspectiva. “Uma determinada visão do universo, um mundo ‘presentificado’, sem passado e sem futuro, ou melhor, um imenso presente, que engloba o passado e o futuro”, escreveu a viúva dele, a escritora Julieta de Godoy Ladeira (1935-1997). No prefácio à teatralização de Mariajosé de Carvalho para a mesma Retábulo de santa Joana Carolina, publicada em 1991 pelas editoras Loyola/Giordano, ilustrada por Marianne Jolowicz e com a íntegra da narrativa – Lins preferia defini-la assim a conto ou novela -, Julieta rememora a visita do casal a um museu de Barcelona, em 1967. O alumbramento do escritor no centro de uma sala, braços abertos e cercado por retábulos medievais e pela força dos traços primitivos, exprimia a emoção de se ver diante da estética que trabalhara com as palavras e resultara, um ano antes, em Nove, novena.

 

Para a adaptação de Retábulo, Vasconcelos conta com a assistência dramatúrgica de Márcio Marciano, cofundador da Companhia do Latão em São Paulo e há cinco anos radicado em João Pessoa, onde integra o Coletivo de Teatro Alfenim. No livro, a narrativa inclui sinais identificadores (triângulo, quadrados e outros desenhos) que indicam vozes, entrada ou saída de personagens como nas rubricas do teatro, inclusive fundindo-os. O desejo de transmigrar a cosmogonia de Osman Lins para o teatro leva os artistas do Piollin a buscar a sua própria imagem para aquele rosto invisível que o escritor tocou com palavras no décimo mistério de Joana Carolina, descrita no leito de morte, aos 86 anos, com a “beleza secreta” que a velhice não apagou, “uma flama, um arrebatamento e uma nobreza que pareciam desafiar a vida e suas garras”.

 

PS: O texto acima serviu de base para reportagem de mesmo nome publicada no jornal Valor Econômico e disponibilizada neste site no botão “impresso”.

 

 

Valmir Santos

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