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contracena

Cineasta Raúl Ruiz se diz “muito mais irresponsável” no teatro

11.2.2011  |  por Valmir Santos

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O diretor chileno Raúl Ruiz permite-se visitar o teatro com mais “irresponsabilidade” que a sua maestria do cinema supõe em obras primas como o longa Mistério em Lisboa, prêmio da crítica na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2010. A fantasia dos contos de fada e o surrealismo permeiam a criação algo anárquica de Amledi, el tonto. Ele assina dramaturgia e encenação do mito que teria inspirado Shakespeare em Hamlet cerca de quatro séculos depois. O espetáculo foi coproduzido pelo Festival Santiago a Mil e abriu o evento em janeiro. Radicado na França desde 1973, ano do golpe militar que instaurou a ditadura, Ruiz, de 69 anos, alude à linguagem do esperpento criada pelo espanhol Ramón del Valle-Inclán (1866-1936), caracterizada pelo efeito disforme, como a espelhar a sociedade, e ao Cinema Novo do colega brasileiro Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988). Bem humorado, espirituoso, o diretor conversou com o Teatrojornal no café do hotel ao lado do Teatro Municipal de Las Condes, duas horas antes da quinta sessão entre as oito programadas.

 

Teatrojornal – O espetáculo tem muito impacto visual. Qual a diferença entre imagem narrada no cinema e imagem narrada no teatro?

 

Raúl Ruiz – Há uma projeção, mas ela é muito simples no espetáculo. Não é um trabalho de imagem teatral. É um trabalho que eu gosto muito de fazer no teatro, um teatro construtivista, oposto à maneira das ideias de Meyerhold [ator, diretor e teórico russo que realizou experimentos radicais dentro e fora do Teatro de Arte de Moscou, no início do século XX]. Há texto, há a imagem, evidentemente, mas não há nada de gestos, de pantomimas. É um espetáculo construtivista que todos reconhecem. Construtivista no sentido da forma simples; não especulamos sobre um teatro abstrato. Interessa-nos a metamorfose da cena, que ela projete os personagens. Neste sentido, podemos tomar um espetáculo construtivista por excelência, e do qual os brasileiros gostam muito: o futebol. Uma bola e um bando de gente correndo e se organizando ao redor dela. Todos os movimentos estão coordenados pela bola e não pelas motivações psicológicas dos jogadores. Há movimentos como pantomimas, por vezes abstratas, por vezes com ações perfeitamente explicáveis. O ator joga como uma marionete enquanto o jogador de futebol lança mão dessas mesmas aplicações, mas que não são nada intelectuais. Há uma atriz que faz no espetáculo um personagem clássico dos mitos nórdicos, a Vala, que é uma das representações da morte. Eu disse a ela que se trata simplesmente de uma feiticeira, mas sem solenidade. Correndo e passando do solene ao cotidiano, como se fossem dois personagens: um misto de Violeta Parra [cantora e compositora da música popular chilena, morta em 1967], com seu acento camponês, e Castelli [o paulista José Castelli, o ‘Rato’, que defendeu o Corínthians e também foi técnico do clube, tendo atuado ainda na Itália e morto em 1984), que corria como um rato, o que não é nada elegante, quase como um Maradona… Em cena, a atriz age ou fala aceleradamente, mas depois vem o tom mais encantatório. De modo que a parte relativa à imagem é muito pequena, é fraca. Isso é para ampliar um bocadinho o espaço estético evidente da obra, que é táctil, como nos contos de fadas.

 

Teatrojornal – E, no entanto, o senhor faz uma citação ao esperpento de Valle-Ínclan, do apelo ao grotesco, um recurso muito perigoso de manejar, pois pode cair em território mais raso, o que não é o caso aqui…


Ruiz – Espero… O uso dos esperpentos de Valle-Ínclan tornou-se raro no teatro, é praticamente esquecido mesmo na Espanha. Os esperpentos no sentido d’Os Caprichos de Goya [série de gravuras do pintor espanhol Francisco de Goya que satiriza a sociedade do final do século XVIII], a estratégia burlesca, isso está desaparecendo… No meu caso, então, fazer teatro é como, de certo modo, sair em férias. Quer dizer, sou muito mais irresponsável. Não estou encalacrado como no cinema e suas questões estéticas e políticas.

 

Teatrojornal – E, no entanto, a encenação não deixa de ser política, como nas evocações de morte e nascimento, loucura e insanidade. O espetáculo nos faz pensar na realidade da sociedade, seja ela a chilena, a francesa, a brasileira. O sr. enxerga conteúdo político nessas ações?


Ruiz – Eu já estou com quase 70 anos e estou resignado. Os fatos são como são e não vão mudar. Eu descobri, no último momento da criação do espetáculo, que estava fazendo outra coisa e não aquilo que pensava em fazer. Queria fazer um processo de integração de culturas, porque a cultura indígena do Chile tem muitos elementos em comum com a cultura dos antigos germanos do norte, os vikings, suas atitudes, vamos dizer, filosóficas, metafísicas, diversos tipos d’alma, alma vegetal, alma animal, a percepção do duplo. O duplo não existe na cultura do Chile, mas existe no sul a figura da Sombra, que é a mesma personagem desdobrada: a alma dos ossos que vai ficar na tumba quando o homem morre. Queria misturar elementos germânicos e folclóricos. Há certa similitude de intenções com [o cineasta brasileiro] Joaquim Pedro de Andrade, um dos velhos do Cinema Novo que eu conheci, que era fascinado por misturas indígenas, africanas e portuguesas. Até que, afinal, descobri, quase surpreso, que estava fazendo outra coisa, uma espécie de crônica de cristanização dos mapuches. Isso me veio por imagens surreais. Como na cena final, quando os personagens se aglomeram sentados ou em pé, segurando suas lanças, enquanto a neve cai: uma imagem que lembra aquelas fotos retiradas dos mouros no final do século XIX. Uma revelação final que eu mesmo não conhecia até três ou quatro dias antes da estreia.

 

Teatrojornal – Podemos ler a presença do menino que pontua o espetáculo, um espectador privilegiado dentro da história, como o seu alter-ego, a sua criança?


Ruiz – Um pouco. No início, ele só aparecia na primeira cena com o pai.  Depois, pensamos que se colocássemos o menino em toda parte, isso iria parecer teatro de pantomima, de bonecos [para crianças]. Por isso a xícara de chá que cresce como em Alice [no País das Maravilhas], por isso a presença desse menino que lembra o Pequeno Polegar. Há cenas também que fazem alusões ao Flautista de Hamelin e a outros contos chilenos.

 

(11 de fevereiro de 2011)

 

Valmir Santos

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