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contracena

Artistas autoridades, autoridades artistas e a política

29.3.2011  |  por Valmir Santos

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Por Valmir Santos

 

O substantivo “política” e o verbo “politizar” contrastaram no Congresso Brasileiro de Teatro realizado dias 26 e 27 de março em Osasco, sábado e domingo. Os artistas mobilizados foram hábeis no pragmatismo de resultado para influenciar o governo sobre a causa-mor dos últimos anos: ver aprovado o projeto de lei que cria o Prêmio Teatro Brasileiro, um programa ainda mais potente que o pioneiro Fomento paulistano, de 2002, dada a escala federal e a meta de triangular os suportes de manutenção, produção e circulação focalizando tanto grupos de pesquisa como produtores de espetáculos convencionais. A cúpula do Ministério da Cultura foi atraída para ouvir a Carta de Osasco e uma moção de repúdio à renúncia fiscal em plena tarde de um domingo, Dia Mundial do Teatro e justo na cidade da Grande São Paulo onde a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, foi secretária 25 anos atrás. Estavam lá o presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), o ator Antonio Grassi. O secretário de Políticas Culturais do MinC, o ator Sérgio Mamberti, à frente da Funarte na gestão passada. O deputado federal Vicente Cândido, do Partido dos Trabalhadores, interlocutor do movimento Arte contra a Barbárie na transição da Lei de Fomento pelo legislativo paulistano, o que tenta repetir em Brasília. Eis os protagonistas pisando o cenário no desfecho do encontro ancorado pela prefeitura do PT, por Emidio de Souza, colega do senador Eduardo Suplicy, também presente.

 

Antes da “cena final”, o congresso teve seus debates e plenárias transcorridos na manhã e tarde de sábado e na manhã de domingo. O diretor César Vieira, cofundador do Teatro Popular União e Olho Vivo (1966), traçou o histórico de mobilizações, como a última de que se tem notícia sob a nomenclatura Congresso Brasileiro de Teatro, realizada em 1979 na Aldeia de Arcozelo, no interior fluminense. Outro diretor, Luis Carlos Moreira, do Engenho Teatral (1979), pontuou as etapas de construção do projeto de lei do Prêmio, Moreira cujo ativismo foi determinante na estruturação do Fomento. O projeto de lei do Prêmio, programa que está sob o guarda-chuva do Programa Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura, o chamado Procultura, foi discutido diante dos cerca de 200 representantes vindos de 20 Estados e Distrito Federal – segundo informam os organizadores –, sob mediação da diretora Tiche Viana, do Movimento Levante Cultural, de Campinas, onde integra o Barracão Teatro, e do ator Adailton Alves, da Rede Brasileira de Teatro de Rua (RBTR), membro do Buraco D’Oráculo, radicado na zona leste de São Paulo.

 

Até a chegada da comitiva do MinC, quando passava das 15h de domingo, o Congresso cometeu alguns “partos” dominicais testemunhados pelo Teatrojornal. Como a seleção de quem iria compor a mesa com as autoridades. Foram votados os atores Giancarlo Carlomagno, da RBTR e Grupo Oigalê (Porto Alegre), Marília de Abreu, da Cooperativa Brasiliense de Teatro e Circo e do Grupo Roupa de Ensaio (DF), e Ney Piacentini, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro e da Companhia do Latão. Outro ponto de ebulição foi a redação final da Carta de Osasco, documento esboçado por uma comissão, projetado em tela e assim revisado coletivamente. Respingaram questões já discutidas à minúcia no sábado, ressentimentos diante da “arrogância paulista” que nem sempre pondera as especificidades ou necessidades das demais regiões além-Sudeste. E aqui entra o capítulo do verbo politizar. Ele foi pouco flexionado, trazendo à luz distensões quanto a uma moção de apoio ao Procultura, por exemplo, celeuma de véspera que durou até o óbvio: se o Prêmio faz parte do Procultura, impossível não apoiar o projeto de lei que tramita desde 2007, já aprovado por comissões decisivas do Congresso Nacional, como a de Educação e Cultura, em dezembro passado. Quando da sua implementação, convergirá as seguintes fontes para os recursos estimados em R$ 78 milhões e com item próprio no orçamento da Funarte: Fundo Nacional da Cultura, Fundo de Investimento Cultural e Artístico (Ficart), Vale-Cultura, incentivo fiscal e programas setoriais de artes

 

Mesmo o cordelista pernambucano Edmilson Santini – único cenicamente paramentado – tendo improvisado a abertura dos trabalhos às 10h de domingo lançando o mote “o remédio é conversar”, esta emperrou em vários momentos. Ânimos acirrados por questões semânticas e ortográficas, choques de interesses regionais por ressentimentos quanto à hegemonização paulista e o jeito “locomotiva” dos “artistas autoridades”, para lembrar das “autoridades artísticas” que Marília de Abreu saudou antes de ler a Carta de Osasco. Clayton Mariano, do Tablado de Arruar (SP), rogou paciência lembrando “rachas” que fizeram soçobrar a rede nacional de grupos Redemoinho, entre 2004 e 2009.  “A gente tem que desarmar o clima de Fla x Flu”, conclamou o pesquisador Dorberto Carvalho, da Companhia Insurgente (SP), coautor de A luta dos grupos teatrais de São Paulo por políticas públicas para a cultura (2008), com a pensadora Iná Camargo Costa. “O resto do Brasil deve ter direito a voz”, disse o ator e diretor Nelson Bambam, do Movimento Teatro de Grupos de Minas Gerais e da Companhia Acômica, alegando a centralização dos coletivos de São Paulo e suas próprias divergências – como na abstenção da RBTR em alguns tópicos, revelando a força de articulação dos artistas de rua organizados em rede há quatro anos. A ponto de conquistar da plenária a aprovação a uma moção de repúdio pela criminalização dos artistas de rua em voga em muitos centros urbanos dada à percepção estreita de administradores públicos. “O Teatro de Rua é ferramenta importante para a segurança em nossas cidades. Onde existe manifestação artística a criminalidade diminui”, disse Grassi, da Funarte.

 

Em meio aos rompantes mais acalorados, boa parte dos artistas se retirava do auditório e flanava pelo corredor do centro de formação de professores de Osasco, entre cafés e bancas de livros de artes cênicas, sociologia e política. A ponto de Adailton Alves, um dos mediadores, também ontem, chamar essa turma para dentro feito um pito de professor. “Está difícil para a mesa entender as coisas aqui em cima. A gente não está conseguindo organizar absolutamente nada.” Faltava pouco mais de meia hora para a ministra chegar. Foi nesse momento que José Renato, um dos ícones do Teatro de Arena (1953-1972), sempre em seus passos mansos, adentrou o local e sentou ao lado do diretor e dramaturgo José Fernando de Azevedo, do Teatro de Narradores (SP), cujo silêncio durante toda a plenária surpreende ou revela o estado de coisas – suas intervenções quase sempre realistas eram comuns em rodas de discussões como essa, valorizando o repertório de ideias. Zé Renato, por sua vez, há meio século sentava-se com Décio de Almeida Prado e Geraldo Mateus Torloni no 1º Congresso Brasileiro de Teatro, no Rio, para dissertar sobre as virtudes estéticas e, naquele tempo, também econômicas na opção pelo palco de formato circular em que a plateia e a cena são inseridos.

 

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Tudo isso serviu de pano de fundo à oportunidade política, esta sim, costurada por Ney Piacentini. Ele declarou ter ligado para mais de 50 deputados e senadores de comissões afins para que endossassem o convite a Ana de Hollanda para ir ao Congresso Brasileiro de Teatro. Ligou para Grassi no início da semana e, diante da possibilidade de uma “agenda negativa” da ministra por conta de sua ida ao Festival de Curitiba – a cerimônia oficial de abertura ocorreu na noite de 28 de março, segunda-feira, no Museu Oscar Niemeyer -, ele não titubeou em praguejar que seria uma “gafe” tal inversão de prioridades. Apesar da sua presença e intervenções invariavelmente tempestivas, metido em bermudas nos momentos protocolares mais improváveis – como na hora de juntar-se à mesa com as demais autoridades -, ainda assim Piacentini safou-se com os 13 minutos que disseram a que veio o Congresso Brasileiro de Teatro em sua versão 2011. Falando no púlpito, ladeado por bandeiras do Brasil, do Estado e do município, gesto largo, voz embargada, de cara ele lançou mão das “raízes” de Sérgio Buarque de Hollanda, “seu pai”, dirigindo-se especialmente à ministra. E deitou loas, aqui pinçadas e mais inclinadas a Stanislavski do que a Brecht, como parodiamos a sua Companhia do Latão:

“As raízes do Brasil estão conosco. Neste momento, podemos dizer que temos apenas uma visão do paraíso. Seu pai [nos] ensinou a diferença entre público e privado nas relações humanas. Rememoro Sérgio Buarque de Holanda para que, se não agora, imediatamente, mas que em cinco ou dez anos nós extinguamos a renúncia fiscal na cultura do país. Não se trata de animosidade com os nossos parceiros que veem na arte um negócio numa sociedade de economia aberta, capitalista. Aqueles que invistam do seu próprio bolso. Não podemos mais aceitar o capitalismo de Estado. Fim ao capitalismo de Estado no país! O capitalismo tem pernas, acredito, para sobreviver sem o Estado. […] Nós queremos contribuir, ministra, com a Dilma. Erradicar as misérias cultura e simbólica da nação. O Prêmio Teatro Brasileiro é esforço de divisões, esforço gigantesco, de divisões doloridas [refere-se aos próprios pares do teatro em níveis local e nacional]. Na peripécia teatral desse roteiro dramático que nós vivemos aqui, não aconteceu tragédia, tampouco aconteceu o grande final, mas como o bom teatro que sabemos fazer, os pontos de vista estão em questão. Brecht está entre nós, Boal [o teatrólogo Augusto Boal, morto em 2009] está entre nós, Reinaldo Mais [dramaturgo e cofundador do Grupo Folias D’Arte, de SP, morto em 2009] está entre nós, Alberto Guzik [crítico e ator da Companhia de Teatro Os Satyros, de SP, morto no ano passado] está entre nós. […] Os parceiros do teatro empresarial brasileiro não se escreveram [no congresso]. A gente os inclui. O Prêmio não é só para grupos e companhias, ele é para os produtores também. Não queremos nos dividir. Mas é um Prêmio principalmente para a população. Quando o empresário brasileiro pega R$ 1 milhão e cobra R$ 100, a população já pagou por esse ingresso e não tem direito de entrar nesse teatro”. Foi aplaudido pelo menos três vezes em cena aberta.

 

Eis o discurso político do homem que preside a Cooperativa Paulista, alheio aos deslizes demagógicos e apelando francamente à emoção daqueles que têm o poder de turno. Não se avexou, inclusive, de citar o ex-ministro Juca Ferreira (PV), lembrando dos três presidentes atores que já passaram pelo cargo principal da Funarte, nos oito anos de Lula (Grassi, Celso Frateschi), em paradoxo com a falta de políticas públicas para o setor.

 

Ana de Holanda, por fim, embarcou nos afetos que já a circunscrevia a um dos principais territórios de sua bagagem como gestora pública. Osasco foi seu laboratório nos anos 1980. “Aqui, eu tinha que me dar com o legislativo, o executivo, com a imprensa, ouvir críticas, saber entender, saber com quem eu estava lidando. Eu estou em Brasília, aqui era um microcosmo. Entendo que vocês têm essa característica da luta, de olhar a sociedade e ter uma visão crítica. Temos de nos lembra de nosso mestre Bertolt Brecht, do teatro dialético: não olhar só para o retrato de uma sociedade, mas para quem nela vive”, disse a ministra. “Compreendo muito bem a preocupação de vocês. O Ministério está aberto. Quero ser cobrada sempre.”

 

Mamberti diz ter percebido o congresso teatral como equivalente ao realizado pelo meio cinematográfico no início dos anos 2000, determinante, segundo ele, para a deflagração da chamada “virada” no audiovisual nacional em termos de produção e fôlego estético. “Eu espero que esse congresso tenha a mesma força.”

 

Em suma, o Congresso Brasileiro de Teatro foi, antes de tudo, uma demarcação simbólica dos artistas por um Fomento federal. Levando-se em conta o contexto de contingenciamento, este sim, dramático que o MinC atravessa nesta gestão, lá se vão apenas três meses, a ocasião é de firmar pés no chão. E mais uma vez, num ajuntamento dos artistas do teatro, agora sob a rubrica científica de congresso, as noções de política e de politização (sobretudo seu déficit junto a um bocado de criadores) embaralharam-se. Novamente, fica a sensação de que as idiossincrasias ditam mais as regras do que a clareza e o raciocínio demandam. Pelo menos antes da ministra chegar e a representação entrar em cena.

 

(29 de março de 2011)

Valmir Santos

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