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Valor Econômico

O encenador pedagogo [a presença de criadores nos departamentos de artes cênicas em universidades no país]

16.4.2011  |  por Valmir Santos

Teatro:  Fosso entre a academia e a cena no Brasil diminui com espetáculos concebidos por artistas que são também pesquisadores.

 

15, 16 e 17/04/2011 – Caderno Eu & Fim de Semana (pp. 17, 18 e 19)

Valmir Santos | Para o Valor, de São Paulo

 

A profusão de grupos no panorama atual do teatro brasileiro é um fenômeno intrínseco ao cotidiano dos departamentos de pós-graduação de artes cênicas em vários Estados. Teóricos e práticos se dão as mãos para derrubar a quarta parede, no jargão do drama naturalista clássico, que prescreve a separação de mundos. A última década, ao contrário, viu irradiar o pensamento acadêmico nos espetáculos mais ousados. Como professores e alunos com mestrado, doutorado ou pós-doutorado, os artistas alinham-se cada vez mais ao pensamento científico para balizar os procedimentos formais e poéticos levados ao palco, ao ar livre ou aos espaços não convencionais. A noção de pesquisa passou a ser valorizada sistematicamente em editais públicos e privados, júris de premiações e nas curadorias de festivais.

 

O espectador de São Paulo que assistir à montagem de “Prometheus Nostos”, dirigida por Maria Thais, cuja próxima apresentação será no fim do mês na sede da Cia. Dolores (datas e horários estarão em breve no site www.ciateatrobalagan.com.br), e de “Ópera dos Vivos”, por Sérgio de Carvalho, estará diante de trabalhos assinados por docentes do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Maria Thais pertence à Companhia de Teatro Balagan e foca a condição do encenador como pedagogo, fruto de cinco anos de investigação realizada na Rússia, berço do Teatro de Arte de Moscou no início do século XIX, onde o teatrólogo ConstantinStanislávski (1863-1938) e seus pares empreenderam toda uma filosofia do ensino dessa arte. Carvalho integra a Companhia do Latão pautado pela reflexão crítica sobre a sociedade capitalista por meio de proposições épicas assentadas em técnicas do dramaturgo e pensador alemão Bertolt Brecht (1898-1956). Nos corredores e tablados do mesmo departamento, diferentes nomes e estéticas conjugam a tríade artista-pedagogo-pesquisador: Cibele Forjaz, da Companhia Livre; Beth Lopes, da Companhia de Teatro em Quadrinhos; Zebba dal Farra, do Grupo dos 7; José Fernando de Azevedo, do Teatro de Narradores; e Antônio Araújo, do Teatro da Vertigem, entre outros.

 

“Essa contrainfluência do pensamento acadêmico sobre o movimento dos grupos revela uma novidade bem significativa frente à distância abissal que havia entre os grupos e a universidade nos anos 1960. Naquela época ficou célebre a tirada do Oficina [núcleo e teatro dirigido por José Celso Martinez Corrêa] que nomeava como ‘universotários’ aqueles que se debruçavam sobre a vida acadêmica. Hoje essa ideia dicotômica, de separar a prática da teoria, está vencida e a tendência é percebê-las como indissociáveis”, afirma o crítico Luiz Fernando Ramos, da “Folha de S.Paulo”, pesquisador e professor da USP desde 1998 e até há pouco coordenador do departamento. Ramos atribui essa tendência ao próprio crescimento da pós-graduação em artes em geral no Brasil, nos últimos 30 anos, e seu “amadurecido como área científica”, coroando o ambiente universitário brasileiro desde a instituição dos primeiros cursos livres, nos anos 1940 e 1950, e das graduações nos anos 1960.

 

Outro fator determinante foi o nascimento da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas, a Abrace, em 1998. Seus congressos e reuniões científicas alcançaram a sexta e a quinta edições, respectivamente, arregimentam lideranças do teatro e da dança nas cinco regiões do país. São cerca de 800 associados e 12 programas filiados: USP, UFBA, UFMG, UFMT, UFRN, Universidade Federal Fluminense, Universidade Federal de Uberlândia, Unicamp, Unirio, UnB, Universidade do Estado de Santa Catarina e UFRGS.

 

Há diferenças naturais em linhas de pesquisa, currículos, metodologias, mas a resistência e o preconceito diminuem na percepção do encenador Fernando Villar, professor-adjunto da UnB. “Os artistas estão vendo colegas sendo professores de um ofício que continuam exercendo. Ao mesmo tempo, universidades estão abrindo suas abordagens para as especificidades da obra artística, da linguagem como componente crucial. Mais artistas vão perdendo o medo da pesquisa e descobrem uma nutrição necessária”, observa.

No entanto, Villar põe-se vigilante ao atentar que a arte maior pode tranquilamente dispensar diplomas e títulos. “Ao mesmo tempo, a ‘academia’ vem sendo alçada a uma área imponente, olímpica e generalizada (ou como solução de tudo ou como escolinha careta de belas-artes ou fitness). Reforço que acadêmicos, além das escolas de samba, compunham uma corrente filosófica que poderia ser resumida em dois pontos: desconfiar de tudo e não acreditar em verdade absoluta”, diz.

 

Em Santa Catarina, a produção oriunda da Udesc contribuiu para o surgimento de novos grupos e fortalecimento de redes no movimento teatral, e não apenas na capital. Atividades de outras instituições também estimularam a área, como o Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau, que vai para a 24ª edição e é organizado pela Furb. Novas gerações de estudantes e docentes consorciam suas práticas com a realização artística que extrapola os campi. “Em algumas cidades, onde a vida profissional no teatro é restringida pela inexistência de temporadas, pouca afluência de espectadores e até pela carência de espaços, a atividade dos departamentos é decisiva”, afirma o professor da Udesc André Carreira, parceiro dos grupos Experiência Subterrânea, de Florianópolis, o Teatro que Roda, de Goiânia, e o Matula, de Campinas.

 

O distrito de Barão Geraldo, no entorno da Unicamp, a 12 quilômetros do centro de Campinas, é profícuo na intermediação de artistas com a universidade – mais por perseverança daqueles do que clareza desta. O Grupo Lume foi idealizado e cofundado em 1985 pelo diretor, ator e professor Luís Otávio Burnier (1956-1985). O então Laboratório Unicamp de Movimento e Expressão, do Instituto de Artes, transformou-se, nove anos depois, no atual Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais.

Tanto o projeto pedagógico centrado no ator como as montagens são referência em apuro técnico no Brasil e no exterior. Uma trajetória que contribui para inscrever o lugar no mapa da cena nacional em virtude de outros coletivos lá sediados, como a Boa Companhia de Teatro, dirigida por Verônica Fabrini, professora da Unicamp e coordenadora do departamento de artes cênicas até o ano passado, e o Barracão Teatro, por Tiche Vianna, ex-professora da instituição.

 

Na capital mineira, o diretor teatral e professor Fernando Mencarelli, da UFMG, desdobra-se no projeto Criação e Pesquisa no Teatro Brasileiro Contemporâneo: Grupos e Processos Criativos em Belo Horizonte. Diversos coletivos surgem, justamente, dessa interface. É o caso do Grupo Teatro Invertido, decorrente do Grupo de Pesquisa Prática em Atuação, coordenado pela professora Bya Braga, da UFMG. Ou do Obscena, agrupamento independente de pesquisa cênica que é coordenado por Nina Caetano com egressos do curso de artes cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto, bem como pesquisadores de outras áreas, da filosofia às artes plásticas.

 

O dramaturgo Marcos Barbosa, autor de “Virgolino e Maria – Auto de Angicos”, é professor da Escola de Teatro da UFBA e contextualiza que, historicamente, a instituição fundada nos anos 1950 compreende e se organiza como parte integrante da produção profissional de Salvador. Não foi diferente após abrigar a pós-graduação nos anos 1990. “Longe de ter sido pensada como um centro de estudos puramente referencial, em que o exercício do espetáculo teatral é um tema, temos sempre atravessado currículos em que o espetáculo é o objeto, em si, capaz de aglutinar o trabalho de professores, alunos e funcionários. A menção a ‘funcionários’ é importante, pois parte de nossos servidores técnicos têm, de fato, formação em teatro e podem ser vistos ora atuando em mostras da escola ora em espetáculos do circuito”, afirma Barbosa.

 

Na Universidade Estadual de Londrina, a professora Thais D’Abronzo concilia modos de pensamento e de concepção no espaço independente do qual faz parte, o Teatro Obrigatório Universal, que atrai alunos, ex-alunos e outros professores-artistas da UEL. Em Belém, a professora e encenadora Wlad Lima, da UFPA, é uma das articuladoras da Rede Teatro da Floresta, que conecta a produção do Norte às demais regiões do país e ao cotidiano da Escola de Teatro e Dança. O projeto quer acabar com a miopia dos governantes que não ponderam, por exemplo, o “custo amazônico” gerado pelas dimensões geográficas. [Este parágrafo não saiu no jornal por motivo da edição de praxe no fazer jornalístico, a angústia do espaço; julgamos importante complementá-lo nesta versão online]

De volta à USP, o diretor e um dos fundadores do Teatro da Vertigem, Antônio Araújo, se recorda de que a vontade inicial não era compor um grupo de teatro, mas de estudos. Ele e os colegas recém-graduados queriam pôr em xeque o que seria pesquisar artes cênicas em 1991, aferir subjetividades e razões. O espírito científico que vingou a história desses colaboradores propiciou obras memoráveis, vide “Apocalipse 1,11”, encenada em presídios desativados, e “BR-3”, à margem e no leito de um trecho do rio Tietê. Tudo por causa da passagem pela universidade, defende Araújo.

 

Os experimentos com seu grupo ou com os alunos sustentam o mesmo sentido de liberdade e risco para com a pesquisa. “Ela é um dos tripés da universidade. Falar da prática artística contemporânea no Brasil é falar de teatro de pesquisa”, orgulha-se, ele que visitou nos últimos meses programas europeus e sul-americanos e avalia que o trânsito do corpo docente com a cena se tornou vital ao ato criador.

 

VALOR ECONÔMICO
EU & FIM DE SEMANA, pp. 17, 18 e 19
edição de sexta-feira, 15/16/17 de abril de 2011.
Teatro: Fosso entre a academia e a cena no Brasil diminui com espetáculos concebidos por artistas que são também pesquisadores.
O encenador pedagogo
Valmir Santos | Para o Valor, de São Paulo
15/04/2011
Divulgação
“BR-3”, experimento do Teatro da Vertigem que levava espectadores em passeio pelo Tietê: “Falar da prática artística contemporânea no Brasil é falar de teatro de pesquisa” diz diretor
A profusão de grupos no panorama atual do teatro brasileiro é um fenômeno intrínseco ao cotidiano dos departamentos de pós-graduação de artes cênicas em vários Estados. Teóricos e práticos se dão as mãos para derrubar a quarta parede, no jargão do drama naturalista clássico, que prescreve a separação de mundos. A última década, ao contrário, viu irradiar o pensamento acadêmico nos espetáculos mais ousados. Como professores e alunos com mestrado, doutorado ou pós-doutorado, os artistas alinham-se cada vez mais ao pensamento científico para balizar os procedimentos formais e poéticos levados ao palco, ao ar livre ou aos espaços não convencionais. A noção de pesquisa passou a ser valorizada sistematicamente em editais públicos e privados, júris de premiações e nas curadorias de festivais.
O espectador de São Paulo que assistir à montagem de “Prometheus Nostos”, dirigida por Maria Thais, cuja próxima apresentação será no fim do mês na sede da Cia. Dolores (datas e horários estarão em breve no site www.ciateatrobalagan.com.br), e de “Ópera dos Vivos”, por Sérgio de Carvalho, estará diante de trabalhos assinados por docentes do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP).
Maria Thais pertence à Companhia de Teatro Balagan e foca a condição do encenador como pedagogo, fruto de cinco anos de investigação realizada na Rússia, berço do Teatro de Arte de Moscou no início do século XIX, onde o teatrólogo Constantin
Stanislávski (1863-1938) e seus pares empreenderam toda uma filosofia do ensino dessa arte. Carvalho integra a Companhia do Latão pautado pela reflexão crítica sobre a sociedade capitalista por meio de proposições épicas assentadas em técnicas do dramaturgo e pensador alemão Bertolt Brecht (1898-1956).
Nos corredores e tablados do mesmo departamento, diferentes nomes e estéticas conjugam a tríade artista-pedagogo-pesquisador: Cibele Forjaz, da Companhia Livre; Beth Lopes, da Companhia de Teatro em Quadrinhos; Zebba dal Farra, do Grupo dos 7; José Fernando de Azevedo, do Teatro de Narradores; e Antônio Araújo, do Teatro da Vertigem, entre outros.
“Essa contrainfluência do pensamento acadêmico sobre o movimento dos grupos revela uma novidade bem significativa frente à distância abissal que havia entre os grupos e a universidade nos anos 1960. Naquela época ficou célebre a tirada do Oficina [núcleo e teatro dirigido por José Celso Martinez Corrêa] que nomeava como ‘universotários’ aqueles que se debruçavam sobre a vida acadêmica. Hoje essa ideia dicotômica, de separar a prática da teoria, está vencida e a tendência é percebê-las como indissociáveis”, afirma o crítico Luiz Fernando Ramos, da “Folha de S.Paulo”, pesquisador e professor da USP desde 1998 e até há pouco coordenador do departamento.
Divulgação
“Prometheus Nostos”, da Companhia de Teatro Balagan: um espetáculo com assinatura uspiana
Ramos atribui essa tendência ao próprio crescimento da pós-graduação em artes em geral no Brasil, nos últimos 30 anos, e seu “amadurecido como área científica”, coroando o ambiente universitário brasileiro desde a instituição dos primeiros cursos livres, nos anos 1940 e 1950, e das graduações nos anos 1960.
Outro fator determinante foi o nascimento da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas, a Abrace, em 1998. Seus congressos e reuniões científicas chegam à quinta edição e arregimentam lideranças do teatro e da dança nas cinco regiões do país. São cerca de 800 associados e 12 programas filiados: USP, UFBA, UFMG, UFMT, UFRN, Universidade Federal Fluminense, Universidade Federal de Uberlândia, Unicamp, Unirio, UnB, Universidade do Estado de Santa Catarina e UFRGS.
Há diferenças naturais em linhas de pesquisa, currículos, metodologias, mas a resistência e o preconceito diminuem na percepção do encenador Fernando Villar, professor-adjunto da UnB. “Os artistas estão vendo colegas sendo professores de um ofício que continuam exercendo. Ao mesmo tempo, universidades estão abrindo suas
abordagens para as especificidades da obra artística, da linguagem como componente crucial. Mais artistas vão perdendo o medo da pesquisa e descobrem uma nutrição necessária”, observa.
No entanto, Villar põe-se vigilante ao atentar que a arte maior pode tranquilamente dispensar diplomas e títulos. “Ao mesmo tempo, a ‘academia’ vem sendo alçada a uma área imponente, olímpica e generalizada (ou como solução de tudo ou como escolinha careta de belas-artes ou fitness). Reforço que acadêmicos, além das escolas de samba, compunham uma corrente filosófica que poderia ser resumida em dois pontos: desconfiar de tudo e não acreditar em verdade absoluta”, diz.
Em Santa Catarina, a produção oriunda da Udesc contribuiu para o surgimento de novos grupos e fortalecimento de redes no movimento teatral, e não apenas na capital. Atividades de outras instituições também estimularam a área, como o Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau, que vai para a 24ª edição e é organizado pela Furb. Novas gerações de estudantes e docentes consorciam suas práticas com a realização artística que extrapola os campi. “Em algumas cidades, onde a vida profissional no teatro é restringida pela inexistência de temporadas, pouca afluência de espectadores e até pela carência de espaços, a atividade dos departamentos é decisiva”, afirma o professor da Udesc André Carreira, parceiro dos grupos Experiência Subterrânea, de Florianópolis, o Teatro que Roda, de Goiânia, e o Matula, de Campinas.
O distrito de Barão Geraldo, no entorno da Unicamp, a 12 quilômetros do centro de Campinas, é profícuo na intermediação de artistas com a universidade – mais por perseverança daqueles do que clareza desta. O Grupo Lume foi idealizado e cofundado em 1985 pelo diretor, ator e professor Luís Otávio Burnier (1956-1985). O então Laboratório Unicamp de Movimento e Expressão, do Instituto de Artes, transformou-se, nove anos depois, no atual Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais.
Tanto o projeto pedagógico centrado no ator como as montagens são referência em apuro técnico no Brasil e no exterior. Uma trajetória que contribui para inscrever o lugar no mapa da cena nacional em virtude de outros coletivos lá sediados, como a Boa Companhia de Teatro, dirigida por Verônica Fabrini, professora da Unicamp e coordenadora do departamento de artes cênicas até o ano passado, e o Barracão Teatro, por Tiche Vianna, ex-professora da instituição.
Na capital mineira, o diretor teatral e professor Fernando Mencarelli, da UFMG, desdobra-se no projeto Criação e Pesquisa no Teatro Brasileiro Contemporâneo: Grupos e Processos Criativos em Belo Horizonte. Diversos coletivos surgem, justamente, dessa interface. É o caso do Grupo Teatro Invertido, decorrente do Grupo de Pesquisa Prática em Atuação, coordenado pela professora Bya Braga, da UFMG. Ou do Obscena, agrupamento independente de pesquisa cênica que é coordenado por Nina Caetano com egressos do curso de artes cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto, bem como pesquisadores de outras áreas, da filosofia às artes plásticas.
O dramaturgo Marcos Barbosa, autor de “Virgolino e Maria – Auto de Angicos”, é professor da Escola de Teatro da UFBA e contextualiza que, historicamente, a instituição fundada nos anos 1950 compreende e se organiza como parte integrante da produção profissional de Salvador. Não foi diferente após abrigar a pós-graduação nos
anos 1990. “Longe de ter sido pensada como um centro de estudos puramente referencial, em que o exercício do espetáculo teatral é um tema, temos sempre atravessado currículos em que o espetáculo é o objeto, em si, capaz de aglutinar o trabalho de professores, alunos e funcionários. A menção a ‘funcionários’ é importante, pois parte de nossos servidores técnicos têm, de fato, formação em teatro e podem ser vistos ora atuando em mostras da escola ora em espetáculos do circuito”, afirma Barbosa.
De volta à USP, o diretor e um dos fundadores do Teatro da Vertigem, Antônio Araújo, se recorda de que a vontade inicial não era compor um grupo de teatro, mas de estudos. Ele e os colegas recém-graduados queriam pôr em xeque o que seria pesquisar artes cênicas em 1991, aferir subjetividades e razões. O espírito científico que vingou a história desses colaboradores propiciou obras memoráveis, vide “Apocalipse 1,11”, encenada em presídios desativados, e “BR-3”, à margem e no leito de um trecho do rio Tietê. Tudo por causa da passagem pela universidade, defende Araújo.
Os experimentos com seu grupo ou com os alunos sustentam o mesmo sentido de liberdade e risco para com a pesquisa. “Ela é um dos tripés da universidade. Falar da prática artística contemporânea no Brasil é falar de teatro de pesquisa”, orgulha-se, ele que visitou nos últimos meses programas europeus e sul-americanos e avalia que o trânsito do corpo docente com a cena se tornou vital ao ato criadorVALOR ECONÔMICO
EU & FIM DE SEMANA, pp. 17, 18 e 19
edição de sexta-feira, 15/16/17 de abril de 2011.
Teatro: Fosso entre a academia e a cena no Brasil diminui com espetáculos concebidos por artistas que são também pesquisadores.
O encenador pedagogo
Valmir Santos | Para o Valor, de São Paulo
15/04/2011
Divulgação
“BR-3”, experimento do Teatro da Vertigem que levava espectadores em passeio pelo Tietê: “Falar da prática artística contemporânea no Brasil é falar de teatro de pesquisa” diz diretor
A profusão de grupos no panorama atual do teatro brasileiro é um fenômeno intrínseco ao cotidiano dos departamentos de pós-graduação de artes cênicas em vários Estados. Teóricos e práticos se dão as mãos para derrubar a quarta parede, no jargão do drama naturalista clássico, que prescreve a separação de mundos. A última década, ao contrário, viu irradiar o pensamento acadêmico nos espetáculos mais ousados. Como professores e alunos com mestrado, doutorado ou pós-doutorado, os artistas alinham-se cada vez mais ao pensamento científico para balizar os procedimentos formais e poéticos levados ao palco, ao ar livre ou aos espaços não convencionais. A noção de pesquisa passou a ser valorizada sistematicamente em editais públicos e privados, júris de premiações e nas curadorias de festivais.
O espectador de São Paulo que assistir à montagem de “Prometheus Nostos”, dirigida por Maria Thais, cuja próxima apresentação será no fim do mês na sede da Cia. Dolores (datas e horários estarão em breve no site www.ciateatrobalagan.com.br), e de “Ópera dos Vivos”, por Sérgio de Carvalho, estará diante de trabalhos assinados por docentes do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP).
Maria Thais pertence à Companhia de Teatro Balagan e foca a condição do encenador como pedagogo, fruto de cinco anos de investigação realizada na Rússia, berço do Teatro de Arte de Moscou no início do século XIX, onde o teatrólogo Constantin
Stanislávski (1863-1938) e seus pares empreenderam toda uma filosofia do ensino dessa arte. Carvalho integra a Companhia do Latão pautado pela reflexão crítica sobre a sociedade capitalista por meio de proposições épicas assentadas em técnicas do dramaturgo e pensador alemão Bertolt Brecht (1898-1956).
Nos corredores e tablados do mesmo departamento, diferentes nomes e estéticas conjugam a tríade artista-pedagogo-pesquisador: Cibele Forjaz, da Companhia Livre; Beth Lopes, da Companhia de Teatro em Quadrinhos; Zebba dal Farra, do Grupo dos 7; José Fernando de Azevedo, do Teatro de Narradores; e Antônio Araújo, do Teatro da Vertigem, entre outros.
“Essa contrainfluência do pensamento acadêmico sobre o movimento dos grupos revela uma novidade bem significativa frente à distância abissal que havia entre os grupos e a universidade nos anos 1960. Naquela época ficou célebre a tirada do Oficina [núcleo e teatro dirigido por José Celso Martinez Corrêa] que nomeava como ‘universotários’ aqueles que se debruçavam sobre a vida acadêmica. Hoje essa ideia dicotômica, de separar a prática da teoria, está vencida e a tendência é percebê-las como indissociáveis”, afirma o crítico Luiz Fernando Ramos, da “Folha de S.Paulo”, pesquisador e professor da USP desde 1998 e até há pouco coordenador do departamento.
Divulgação
“Prometheus Nostos”, da Companhia de Teatro Balagan: um espetáculo com assinatura uspiana
Ramos atribui essa tendência ao próprio crescimento da pós-graduação em artes em geral no Brasil, nos últimos 30 anos, e seu “amadurecido como área científica”, coroando o ambiente universitário brasileiro desde a instituição dos primeiros cursos livres, nos anos 1940 e 1950, e das graduações nos anos 1960.
Outro fator determinante foi o nascimento da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas, a Abrace, em 1998. Seus congressos e reuniões científicas chegam à quinta edição e arregimentam lideranças do teatro e da dança nas cinco regiões do país. São cerca de 800 associados e 12 programas filiados: USP, UFBA, UFMG, UFMT, UFRN, Universidade Federal Fluminense, Universidade Federal de Uberlândia, Unicamp, Unirio, UnB, Universidade do Estado de Santa Catarina e UFRGS.
Há diferenças naturais em linhas de pesquisa, currículos, metodologias, mas a resistência e o preconceito diminuem na percepção do encenador Fernando Villar, professor-adjunto da UnB. “Os artistas estão vendo colegas sendo professores de um ofício que continuam exercendo. Ao mesmo tempo, universidades estão abrindo suas
abordagens para as especificidades da obra artística, da linguagem como componente crucial. Mais artistas vão perdendo o medo da pesquisa e descobrem uma nutrição necessária”, observa.
No entanto, Villar põe-se vigilante ao atentar que a arte maior pode tranquilamente dispensar diplomas e títulos. “Ao mesmo tempo, a ‘academia’ vem sendo alçada a uma área imponente, olímpica e generalizada (ou como solução de tudo ou como escolinha careta de belas-artes ou fitness). Reforço que acadêmicos, além das escolas de samba, compunham uma corrente filosófica que poderia ser resumida em dois pontos: desconfiar de tudo e não acreditar em verdade absoluta”, diz.
Em Santa Catarina, a produção oriunda da Udesc contribuiu para o surgimento de novos grupos e fortalecimento de redes no movimento teatral, e não apenas na capital. Atividades de outras instituições também estimularam a área, como o Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau, que vai para a 24ª edição e é organizado pela Furb. Novas gerações de estudantes e docentes consorciam suas práticas com a realização artística que extrapola os campi. “Em algumas cidades, onde a vida profissional no teatro é restringida pela inexistência de temporadas, pouca afluência de espectadores e até pela carência de espaços, a atividade dos departamentos é decisiva”, afirma o professor da Udesc André Carreira, parceiro dos grupos Experiência Subterrânea, de Florianópolis, o Teatro que Roda, de Goiânia, e o Matula, de Campinas.
O distrito de Barão Geraldo, no entorno da Unicamp, a 12 quilômetros do centro de Campinas, é profícuo na intermediação de artistas com a universidade – mais por perseverança daqueles do que clareza desta. O Grupo Lume foi idealizado e cofundado em 1985 pelo diretor, ator e professor Luís Otávio Burnier (1956-1985). O então Laboratório Unicamp de Movimento e Expressão, do Instituto de Artes, transformou-se, nove anos depois, no atual Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais.
Tanto o projeto pedagógico centrado no ator como as montagens são referência em apuro técnico no Brasil e no exterior. Uma trajetória que contribui para inscrever o lugar no mapa da cena nacional em virtude de outros coletivos lá sediados, como a Boa Companhia de Teatro, dirigida por Verônica Fabrini, professora da Unicamp e coordenadora do departamento de artes cênicas até o ano passado, e o Barracão Teatro, por Tiche Vianna, ex-professora da instituição.
Na capital mineira, o diretor teatral e professor Fernando Mencarelli, da UFMG, desdobra-se no projeto Criação e Pesquisa no Teatro Brasileiro Contemporâneo: Grupos e Processos Criativos em Belo Horizonte. Diversos coletivos surgem, justamente, dessa interface. É o caso do Grupo Teatro Invertido, decorrente do Grupo de Pesquisa Prática em Atuação, coordenado pela professora Bya Braga, da UFMG. Ou do Obscena, agrupamento independente de pesquisa cênica que é coordenado por Nina Caetano com egressos do curso de artes cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto, bem como pesquisadores de outras áreas, da filosofia às artes plásticas.
O dramaturgo Marcos Barbosa, autor de “Virgolino e Maria – Auto de Angicos”, é professor da Escola de Teatro da UFBA e contextualiza que, historicamente, a instituição fundada nos anos 1950 compreende e se organiza como parte integrante da produção profissional de Salvador. Não foi diferente após abrigar a pós-graduação nos
anos 1990. “Longe de ter sido pensada como um centro de estudos puramente referencial, em que o exercício do espetáculo teatral é um tema, temos sempre atravessado currículos em que o espetáculo é o objeto, em si, capaz de aglutinar o trabalho de professores, alunos e funcionários. A menção a ‘funcionários’ é importante, pois parte de nossos servidores técnicos têm, de fato, formação em teatro e podem ser vistos ora atuando em mostras da escola ora em espetáculos do circuito”, afirma Barbosa.
De volta à USP, o diretor e um dos fundadores do Teatro da Vertigem, Antônio Araújo, se recorda de que a vontade inicial não era compor um grupo de teatro, mas de estudos. Ele e os colegas recém-graduados queriam pôr em xeque o que seria pesquisar artes cênicas em 1991, aferir subjetividades e razões. O espírito científico que vingou a história desses colaboradores propiciou obras memoráveis, vide “Apocalipse 1,11”, encenada em presídios desativados, e “BR-3”, à margem e no leito de um trecho do rio Tietê. Tudo por causa da passagem pela universidade, defende Araújo.
Os experimentos com seu grupo ou com os alunos sustentam o mesmo sentido de liberdade e risco para com a pesquisa. “Ela é um dos tripés da universidade. Falar da prática artística contemporânea no Brasil é falar de teatro de pesquisa”, orgulha-se, ele que visitou nos últimos meses programas europeus e sul-americanos e avalia que o trânsito do corpo docente com a cena se tornou vital ao ato criador
Valmir Santos

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