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Reportagem

Um dramaturgo inserido em seu tempo [Jorge Andrade]

21.5.2012  |  por Valmir Santos

O dramaturgo Jorge Andrade, cuja obra é evocada no Tusp - Reprodução

O dramaturgo Jorge Andrade, cuja obra é evocada no Tusp – Divulgação

Em meio ao turbilhão do centenário de nascimento de Nelson Rodrigues (1912-1980), o Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp) demarca a efeméride de outro importante nome da dramaturgia brasileira moderna. Jorge Andrade nasceu em Barretos (SP) em 21 de maio de 1922, ou seja, se vivo, completaria hoje 90 anos.

Jorge Andrade – 90 anos – (re)leituras oferece uma série de encontros gratuitos que combinam apresentações de núcleos artísticos e reflexão teórica do legado do autor. Para o dramaturgo, o teatro deve apresentar o homem através da história, registrá-lo no seu tempo e no seu espaço, sem maniqueísmo. Suas peças investigam o passado para compreender e explicar o presente, como mostram A moratória, Vereda da salvação, Os ossos do barão e Rasto atrás, entre outras escritas durante as décadas de 1950 e 1970.

A decadência das elites rurais e urbanas e a formação de uma nova sociedade, protagonizada pelo imigrante e pelo ciclo industrial, estão nessa dramaturgia. O professor de literatura e historiador João Roberto Faria afirma que Andrade aborda a constituição da estrutura social do que ele chama de “civilização paulista”, nascida da ligação do campo e da cidade, alicerçada sobre o dinheiro do café, “numa mesma expressão econômica e política”.

“No passado remoto, essa ‘civilização paulista’ originou-se com os bandeirantes que procuraram as minas de ouro e pedras preciosas. O tema está em O sumidouro, que gira em torno de Fernão Dias e seu filho mameluco, peça que mostra ‘o começo da formação das elites paulistas’. Depois, com ‘Pedreira das Almas’, chega-se ao esgotamento do ciclo do ouro, início do ciclo do café com a ida do personagem Gabriel para São Paulo, onde serão formadas as grandes fazendas. O fim desse ciclo está em A moratória, que anuncia, por outro lado, o início do ciclo da máquina”, diz Faria.

Quanto às peças rurais, Escada expõe a decadência da elite paulista, ao passo que Os ossos do Barão diverte com seu efeito cômico e ensina com o seu registro histórico da ascensão do imigrante, da formação de uma nova elite econômica industrial.

O fluxo consciente dessa abrangência é elaborado pelo próprio Andrade no volume Marta, a árvore e o relógio (1970), no qual reúne dez dos seus textos mais expressivos e faz pequenas modificações a fim de compor um conjunto épico – a saga vivida por famílias que se relacionam desde o século XVII, época dos bandeirantes, até o final do séc. XX. Trata-se de “uma epopeia dramática monumental”, nas palavras do ensaísta e crítico alemão Anatol Rosenfeld (1912 – 1973), para quem o autor “acrescenta à visão épica da saga nordestina a voz mais dramática do mundo bandeirante”. Uma construção feita com “o desenho dos monumentos pacientemente elaborados”, diz o crítico Sábato Magaldi. Ou ainda o “mais orgânico e talvez único ciclo dramático, na acepção do termo, que o teatro brasileiro produziu até agora”, diz o professor e editor Jacó Guinsburg.

Para Rosenfeld, a simbologia do título do catatau está na imagem do relógio parado em alusão ao tempo estagnado da decadência, à indolência e incapacidade de ação, a uma relação distorcida da realidade. A árvore sugere as raízes, a visão orgânico-histórica que associa o crescimento e o futuro às origens enquanto evoca o movimento cíclico das estações, além de representar o peso do passado e das gerações de ancestrais das quais tantos personagens procuram se libertar. Marta, por sua vez, é a protagonista de As confrarias, no passado colonial, convertida em empregada em O sumidouro, no passado remoto.

Andrade chegou a dizer que tinha escrito não dez, mas uma só grande peça em dez partes. E que elas deveriam ser encenadas em dez dias seguidos. Isso nunca aconteceu. O evento no Tusp lê o ciclo completo, debate peças fora dele e mira outras dimensões da obra. “Tanto as palestras como as leituras dramatizadas retomam sempre a ideia de uma organicidade inalienável da obra como um todo. Os ecos mútuos entre dramaturgia, jornalismo e teledramaturgia são importantes”, afirma a professora e pesquisadora de artes cênicas Elizabeth Azevedo, uma das organizadoras do evento.
“Jorge sempre foi reconhecido pela crítica como um dos mais importantes autores do teatro brasileiro, mesmo que seus textos não frequentem os palcos com maior assiduidade, como merecem. Por outro lado, sua obra tem sido objeto constante de análises acadêmicas, gerando inúmeras dissertações e teses.”

Uma passagem biográfica do início dos anos 1950 dá notícias de como o teatro atravessou a vida de Andrade, morto em 1984 aos 61 anos. Aos 28 anos, saiu da fazendo do pai, na região de Barretos, desgostoso com o trabalho de fiscal de plantação de café. Rumou para Santos disposto a sumir no mundo em algum navio, uma vez que desistira do curso de direito e descartara a carreira militar. No caminho, parou em São Paulo, assistiu a um espetáculo com Cacilda Becker, conseguiu conversar com a atriz e disse que queria ser ator. Percebendo seu potencial para dramaturgo, aconselhou Andrade a entrar na Escola de Arte Dramática. Eis o ponto de mutação. Descendente dos fazendeiros estabelecidos em São Paulo com o fim do ciclo do ouro em Minas, tendo presenciado a derrocada de sua classe social, casado mais tarde com uma legítima paulista quatrocentona, coube ao dramaturgo articular a memória pessoal e a memória familiar para semear o seu diálogo forte e incisivo.

Jorge Andrade – 90 anos – (re)leituras
Tusp – rua Maria Antônia, 294, Consolação, SP, tel. (11) 3123-5233 ; leituras: ter. e qua., às 19h30; palestras: qua., às 16h. Grátis. Até 6/6. Info:

Valor Econômico, 21/05/2012, Caderno Eu & Cultura

Por Valmir Santos | Para o Valor, de São Paulo

Valmir Santos

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