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Crítica

Das potências

14.8.2012  |  por admin

Foto de capa: Valmir Santos

No ano em que se completa um século e meio do nascimento de Anton Tchekhov ele provavelmente desconfiaria das boas intenções das efemérides. A ironia lhe foi companheira. E mesmo quando enamorado, segundo confessa no derramamento sentimental e demasiado humano assumido nas cartas que trocou com a mulher Olga Knipper nos últimos seis anos de vida. O tom intimista daquela correspondência serve à americana Carol Rocamara em Tomo suas mãos nas minhas, uma dramaturgia centrada nos diálogos escritos entre o final do século XIX e início do XX. As linhas lidas e ouvidas hoje compõem por si um drama que dá notícias do autor genial e do sistema teatral que gravitava à sua volta. Vida e arte são entretecidas em Tchekhov e Olga, como na relação deles com Constantin Stanislavski e Nemirovitch-Dantchenko, os criadores pilares do Teatro de Arte de Moscou citados com recorrência na peça interpretada por Roberto Bontempo e Miriam Freeland.

É adorável notar como o discurso amoroso vindo desde o ventre do ofício teatral pode mobilizar o espectador do século XXI, contrariando a percepção de que as implicações de escrever, dirigir ou atuar circunscrevem aos trabalhadores do teatro e seguidores afins e não interessariam ao público em geral. O Teatro de Santa Isabel ouviu espectadores soluçando na primeira sessão de domingo do Festival Recife do Teatro Nacional. A capacidade de afetar vem, primeiro, das palavras mediadas pelo casal de atores, também eles umbilicados por vida e arte na realidade, cúmplices de histórias sobre a paixão incondicional pelo palco. Detalhes dos processos de escrita e ensaio de A gaivota, Tio Vânia, As três irmãs e Jardim das cerejeiras encaixam-se como luvas à narrativa epistolar.

Rocamara desliza um tanto para a curva padrão do típico roteiro biográfico hollywoodiano, o romance com desfecho trágico. Mas, felizmente, prevalece a tônica das cartas reveladoras de éticas pessoal e artística que soam urgentes em nossa época.

Diante desse material instigante, a direção de Leila Hipólito opta por caminhos convencionais. Bontempo e Freeland seguem à risca o estilo naturalista da representação, os semitons de voz. As atuações e a encenação conversam pouco com o leque de possibilidades da cena contemporânea, o pressuposto metateatral que o texto concede. Não como efeito utilitarista, mas com a naturalidade que a obra contém. Tchekhov e Olga estão apenas corretos, alinhados à marcação.

A cenografia (por Fernando Mello da Costa) sugere o espaço de trás do teatro, bastidores e camarins que viram os lugares ou hotéis onde o médico e dramaturgo passa em suas viagens. O desenho luz (Maneco Quinderé) é o elemento que ao menos se arrisca, com feixes que quebram a aura esmaecida.

Tomo suas mãos nas minhas é um projeto que cumpre modestamente o que se propõe. Reluz, por meio das cartas, o homem e a cultura de teatro que a Rússia, antiga União Soviética, legou ao mundo ocidental. No entanto, o espetáculo perde a chance de virar-se mais do avesso com os códigos de época, legítimos. Chance de aliar o potencial dos intérpretes, a emoção tchekhoviana e a vontade de pesquisa e experimento que orientou os homens e as mulheres que fizeram história no Teatro de Arte de Moscou. Um espetáculo que tem tudo nas mãos…

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